Ajuste fiscal sem mudança da meta de superavit primário

Em: 10 de novembro de 2010
Recentemente, o ministro Guido Mantega disse não ser necessário aumentar a meta de superavit primário para reduzir a valorização do real frente ao dólar
Recentemente, o ministro Guido Mantega disse não ser necessário aumentar a meta de superavit primário para reduzir a valorização do real frente ao dólar

Recentemente, o ministro Guido Mantega disse não ser necessário aumentar a meta de superavit primário para reduzir a valorização do real frente ao dólar. Segundo ele, os indicadores, a relação dívida líquida do setor público/PIB e o resultado fiscal do setor público são melhores do que aqueles dos países desenvolvidos.
Não haveria, portanto, relação entre a necessidade de aperto fiscal e desvalorização do Real.
O ministro tem razão quando diz que os indicadores fiscais brasileiros são melhores do que os da maioria das nações.
No entanto, ele esqueceu de mencionar dois itens importantes. Primeiro: apesar de ter uma relação dívida/PIB em torno da metade dos principais países desenvolvidos, a despesa que o setor público no Brasil paga pela sua dívida, em termos relativos, é cerca do dobro daquilo que aquelas nações pagam.
O problema, portanto, está no custo da dívida e não no seu tamanho. Com juros reais elevados, nós pagamos quatro a cinco vezes mais caro pela nossa dívida em relação ao que paga o resto do mundo.
Segundo aspecto: o Brasil tem uma das mais baixas taxas de investimentos do mundo. Sendo assim, quando a economia se aquece, a oferta não consegue acompanhar o aumento da demanda, gerando pressão inflacionário.
Desse modo, o Banco Central vê-se na necessidade de aumentar as taxas de juros. Com aumento dos juros, sobe o custo da dívida e sobram ainda menos recursos para investimentos.
A questão, portanto, não está no tamanho do superávit primário e sim na composição dos gastos públicos.
Se os gastos correntes crescerem num ritmo menor do que o crescimento da arrecadação, sobra espaço para aumento dos investimentos, sem a necessidade de mudança na meta de superavit primário.
Em outras palavras, pode-se manter, em termos relativos, a soma dos gastos correntes mais os “gastos” com investimentos, mas com a condição de desacelerar o crescimento dos gastos correntes e acelerar os investimentos.
Hoje, os investimentos públicos no Brasil se situam em torno de 1,5% a 2% do PIB. Se o próximo governo se comprometer com uma meta de crescimento dos investimentos, a ponto de elevá-los gradativamente até 5% do PIB no final de 2014, certamente o posicionamento dos investimentos privados, nacionais e internacionais, mudará radicalmente. Investimentos públicos atraem investimentos privados.
A soma dos dois eleva a taxa de investimentos do país. Com taxa de investimentos acima de 25% do PIB (atualmente esta taxa não atinge 20% do PIB), a economia do país pode crescer em torno de 5%, continuamente, sem gerar inflação.
Desse modo poderemos crescer e reduzir a taxa de juros ao mesmo tempo.
Com menor taxa de juros, é possível reduzir o custo da dívida pública, sobrando mais dinheiro para os investimentos. Assim, se atrai menos investimentos especulativos, que geram valorização do Real e prejudicam a competitividade de nossas indústrias.
Vimos, portanto, que há uma grande diferença entre fazer uma afirmação sem erros e fazer uma afirmação certa. Diferença ainda mais gritante, quando tal afirmação sai da boca de um Ministro da Fazenda.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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