O grande paradoxo

Em: 26 de novembro de 2010
A continuidade da produção científica de alto nível do Brasil está ameaçada pelos baixos indicadores que o país possui na área da educação
A continuidade da produção científica de alto nível do Brasil está ameaçada pelos baixos indicadores que o país possui na área da educação

A continuidade da produção científica de alto nível do Brasil está ameaçada pelos baixos indicadores que o país possui na área da educação. Para reverter esse quadro, a divulgação científica tem um papel essencial, acredita o neurocientista Roberto Lent, ganhador do Prêmio José Reis. Para ele, essa atividade deveria ser considerada elemento obrigatório da produção de universidades e centros de pesquisa.
A proposta foi lançada na conferência que Lent apresentou para marcar o recebimento do prêmio durante a Reunião Anual da SBPC, em Natal. O neurocientista, que é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, defende que as iniciativas de divulgação científica sejam mais intimamente articuladas com o ensino básico, a fim de evitar a discrepância que há entre ciência e educação.
Investimentos intensivos para aprimorar a qualidade da educação fundamental são apontados por Lent como medida essencial para contornar o que ele chama de o nosso “grande paradoxo”: a produção científica brasileira vem ganhando destaque mundial nos últimos anos, mas o desempenho dos alunos de nossas escolas em avaliações internacionais sobre ciências é extremamente pífio. “Enquanto a ciência cresce, a educação patina”, diz Lent. “Isso põe em risco o ciclo virtuoso de produção científica a que temos assistido. Quantos cérebros talentosos são perdidos porque não tiveram acesso à escola?”
O neurocientista apresentou ao público algumas ideias que poderiam ser discutidas com as autoridades para que se saia desse paradoxo. Segundo ele, medidas como a federalização do ensino básico, a implantação do turno único nas escolas e um programa pós-curricular intensivo – que incluísse ações de divulgação científica – ajudariam a contornar o problema. “Não digo que isso seja simples ou possível, mas temos que enfrentar essa questão”.

Uso de telenovelas

Roberto Lent discutiu em sua conferência as diferentes modalidades que têm sido usadas na prática da divulgação científica no Brasil. A que suscitou mais interesse do público foi o uso de telenovelas, tendo em vista a sua popularidade e alcance social, como meio eficaz para se discutir temas importantes de ciência, de modo a atingir dezenas de milhões de cidadãos.A plateia não deixou que Lent interrompesse a exibição de um trecho da novela “Viver a vida” – uma cena em que dois médicos têm uma conversa bastante realista com os pais da tetraplégica Luciana sobre a perspectiva de ela conseguir voltar a andar com tratamentos com células-tronco. O diálogo foi escrito com a consultoria de Roberto Lent e do neurocientista Stevens Rehen, também da UFRJ, estudioso da questão.

Popularizar a ciência

Lent traçou também um paralelo entre a divulgação científica no Brasil no início dos anos 1980, quando ele começou a se envolver com essa área, e hoje. “Evoluímos bastante, mas ainda estamos longe do necessário para um país como o nosso. Passamos do Paleolítico para o Neolítico – o desafio é chegar à idade moderna com rapidez”, disse o cientista, retomando à metáfora que deu título a sua conferência. Em sua opinião, trata-se também de um momento de renovação das utopias: “Em 1982, quando fundamos a [revista] Ciência Hoje, a utopia era atingir todas as camadas da população”, recorda-se. “Em 2010, a utopia é que a ciência seja discutida e praticada como o futebol”, completa com entusiasmo e esperança.

Diminui grau de abertura

Embora em geral se pense o contrário, o Brasil ainda tem uma economia relativamente fechada, a despeito do recorde de importações e do avanço das exportações. Pelo indicador mais conhecido – a relação entre comércio exterior (importação mais exportação) e PIB –, o grau de abertura da economia brasileira caiu um pouco em comparação a 2009, de 17,79% para 17,72%, segundo o Ministério do Desenvolvimento. Os cálculos foram feitos com um dólar médio de R$ 1,80 (com a cotação atual os percentuais seriam ainda menores). A queda no indicador se deve principalmente a três fatores: o elevado crescimento do produto interno, a desaceleração no ritmo das exportações e a desvalorização do dólar, que reduz ainda mais os valores do comércio externo quando convertidos em moeda nacional.
As importações ganham participação crescente no PIB, avalia Welber Barral, secretário de Comércio Exterior. Mesmo assim, essa fatia é hoje menor que a de outros países emergentes. “Os índices de importação do Brasil chegam a representar um terço dos índices de outros emergentes, como África do Sul ou México, e dois terços do indicador para a Argentina, em 2009”. A firme presença dos bens importados não depende só da flutuação do câmbio e tornou-se estrutural, diz José Augusto de Castro, vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil. As empresas tomaram decisões de substituir insumos nacionais por importados, algo que não se reverte tão facilmente, segundo ele. Por outro lado, diz Barral, o Brasil passou a fazer parte de cadeias de produção globais, comprando bens de várias partes do mundo, inclusive bens de capital (máquinas, ferramentas e equipamentos) para modernizar o seu parque industrial.
Em termos relativos, o maior impulso para o aumento das importações vem das compras de bens de consumo, que cresceram 54% em agosto em relação ao mesmo mês de 2009, principalmente bens duráveis (69%). Entre eles, aumentou a participação das máquinas e aparelhos de uso doméstico, que atingiram no primeiro semestre 22,3% das compras no exterior do segmento. Ante o mesmo período de 2008, antes do agravamento da crise, elas subiram 62,2%. Nem sempre o aumento da importação traz uma ameaça ao fornecedor brasileiro. Parte das importações é feita pela própria indústria, que compra mercadorias de fábricas do mesmo grupo, localizadas em outros países, ou de parceiros.

Faltam líderes

O crescimento da economia brasileira nos próximos cinco anos poderá ser prejudicado pela escassez de líderes nas empresas. Pesquisa realizada pela Empreenda Consultoria, em parceria com a HSM, com 1.065 executivos do alto escalão, entre 2 e 17 de novembro revela que 63% dos entrevistados afirmaram não ter líderes em quantidade e qualidade para executar a estratégia de crescimento de suas empresas.
A situação se torna especialmente preocupante ante o fato de as expectativas de expansão dos negócios serem bastante robustas. O levantamento revela que 80% dos executivos acreditam que entre 2010 e 2015 a economia brasileira deverá crescer entre 3% e 5% ao ano, enquanto 46% creem que suas empresas podem se expandir a uma taxa superior a 10% já em 2010. “Há um apagão de liderança em nível global. Atualmente, as companhias continuam formando líderes como se fazia no pós-guerra, com conceitos ultrapassados, quando as necessidades já são outras. As lideranças não pertencem mais a esse mundo. Com isso, consegue-se apenas gerentes mais eficientes” – é o que pensa Cesar Souza, CEO da Empreenda.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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