O aumento de 61% para os parlamentares e de mais de 100% para a presidente eleita, seu vice e os ministros de Estado causou mais protestos no Congresso nesta terça-feira (21). Um grupo de cerca de 100 estudantes universitários foi barrado ao tentar entrar na chapelaria do Legislativo com cartazes criticando o aumento para R$ 26.700 para deputados, senadores, Dilma Rousseff, Michel Temer e futuros ministros de Estado. Ainda ontem, o bispo Manoel Edmilson da Cruz rejeitou, em meio a uma sessão no plenário do Senado, receber uma homenagem, a comenda Dom Hélder Câmara.
O bispo disse agir sem ressentimentos ao não aceitar a premiação. “Sem ressentimentos e agindo por amor e com respeito a todos os senhores e senhoras, pelos quais oro todos os dias, só me resta uma atitude: recusá-la”, afirmou Cruz, sendo aplaudido em seguida pelos presentes. “Ela [a comenda] é um atentado, uma afronta ao povo brasileiro, ao cidadão contribuinte para o bem de todos com o suor de seu rosto e a dignidade de seu trabalho”.
O bispo lembrou do efeito cascata do aumento e ainda exemplificou algumas categorias profissionais que não conseguem aumentos salariais dignou. “O povo brasileiro, hoje de concidadãos e concidadãs, ainda os considera parlamentares?”, disse Cruz. Ele afirmou que os motoristas de ônibus de Fortaleza, por exemplo, buscaram um aumento de 26% este ano, mas, com esforço, só obtiveram 6%.
Os estudantes tentaram entrar no Congresso, mas foram impedidos pela Polícia Legislativa e pela Polícia Militar. Acusaram os policiais de darem um choque em um garoto de 14 anos. O diretor da Polícia Legislativa do Senado, Pedro Ricardo Araújo, afirmou que os homens da Casa portavam armas elétricas, mas não as utilizaram nesta ocasião.
A manifestação continuou no gramado do Congresso. Os estudantes se posicionaram para compor um cifrão ($) em frente à Câmara e ao Senado. “Qualquer aumento é abusivo em relação ao aumento do salário mínimo, que foi de apenas 5%”, disse o estudante de letras Pedro Lucas Grace, de 18 anos. Cartazes diziam “Chega de fazer o povo de palhaço”.
Ele afirmou que o grupo até tentou entrar em fila indiana nas dependências do Legislativo, mas foi impedido. Araújo disse que as visitas ao Senado – que acontecem todos os dias – foram suspensas. “Aqui não é lugar de manifestação”, disse o diretor da Polícia Legislativa.
Sarney “joga” problema para deputados
O presidente do Congresso e do Senado, senador José Sarney (PMDB-AP), responsabilizou a Câmara pela aprovação de um aumento de mais 60% para os próprios parlamentares e de mais de 100% para a presidente da República, seu vice e os ministros de Estado, que passarão a ganhar R$ 26.700 a partir de fevereiro.
“Foi toda a Casa que veio. Veio da Câmara dos Deputados pra cá. Não quero fazer nenhum comentário sobre isso”, disse Sarney, nesta terça-feira, ao comentar o protesto de estudantes em frente ao Congresso.
“A Constituição diz que uma legislatura deve indicar o vencimento da próxima legislatura. E… a Câmara dos Deputados organizou daquela maneira e o Senado aprovou. Eu não vejo como a gente possa…”, insistiu Sarney.
Na verdade, o aumento foi aprovado tanto pela Câmara quanto pelo Senado. E agora vai à promulgação. No plenário do Senado, sequer houve discussão dos parlamentares, ao contrário do que fizeram alguns deputados. Tudo foi aprovado em cinco minutos pelos senadores.






