Sabemos que se a lógica dialética permite e exige o movimento do pensamento ao objeto pesquisado, a materialidade histórica diz respeito à maneira de organização dos homens em sociedade por meio da história, isto é, diz respeito às relações sociais construídas pela humanidade durante todos os séculos de sua existência. E, para os pesquisadores que constroem sua crítica ao sistema produtivo do capital, esta materialidade histórica pode ser compreendida a partir das análises empreendidas sobre uma categoria considerada central no trabalho de pesquisa: o trabalho. E por que o trabalho?
Em primeiro lugar, é preciso considerar que o conceito de trabalho em Karl Heinrich Marx (1818* 1883†) não se esgota no conceito cotidiano de trabalho, na concepção do senso comum (inclusive o senso comum acadêmico) de trabalho que se aproxima da ideia de ocupação, tarefa, serviço etc. um conceito puramente econômico. O conceito de trabalho elaborado pelo corifeu da práxis, categoria central nas relações sociais, tal qual o pensamento marxista o entende, é o conceito filosófico de trabalho, é a maneira mais ampla possível de se pensar o trabalho.
Nas análises marxistas acerca desta questão, de caráter mais filosófico do que econômico, encontramos que o trabalho é central nas relações dos homens com a natureza e com os outros homens porque esta é sua atividade vital. Isto quer dizer que, se o caráter de uma espécie define-se pelo tipo de atividade que ela exerce para produzir ou reproduzir a vida, esta atividade vital, essencial nos homens, é o trabalho — a atividade pela qual ele garante sua sobrevivência e por meio da qual a humanidade conseguiu produzir e reproduzir a vida humana.
Segundo o sociólogo brasileiro Ricardo Luis Coltro Antunes (1953), hoje se discute a centralidade da categoria trabalho no mundo contemporâneo considerando que as modificações das relações de trabalho teriam, segundo algumas teses, levado o trabalho enquanto uso da força de trabalho a perder a característica de estruturação das relações sociais. O trabalho é categoria central de análise da materialidade histórica dos seres humanos porque é a manifestação mais simples, mais objetiva, que eles desenvolveram para se organizarem em sociedade.
Sabemos que a base das relações entre os homens são as relações sociais de produção, as formas organizativas do trabalho. Ocorre que, na sociedade capitalista, o trabalho (atividade vital, essencial) é explorado (comprado por um preço sempre menor do que produz) definindo, assim, um processo de alienação (expropriação da atividade essencial em sua plenitude). Ora! Se o trabalho, como atividade essencial e vital traz a possibilidade de realização plena do homem enquanto processo de humanização, a exploração capitalista do trabalho determina um processo inverso, de alienação.
O pesquisador que se utiliza do Materialismo Histórico Dialético para compreender a Educação e Educação Escolar deve partir da premissa que essas objetivam a transformação da sociedade posta e a aula, como unidade dessa última, deve não só preservar a concepção teórico-crítica, mas superá-la e, para isso, caminhar em direção oposta à teoria, na direção da prática, para também negá-la, segundo a teoria crítica. Esta contradição entre teoria e prática cria, pela superação, a práxis crítica que operacionaliza o método da teoria crítica que a informa.
Um exemplo: ao constituir o olhar crítico sobre a Educação Infantil referida às relações parentais, o pesquisador pode reconstruir teórica (e empiricamente) a produção sobre as condições históricas de transformação das relações familiares (a nos diversos tipos de famílias), seus reflexos nas expectativas representações e ações dirigidas à educação das crianças e as maneiras como se manifestam as relações cotidianas, ou pode tomar como foco principal o processo de socialização e a possível manifestação da violência doméstica e escolar contra a criança.
Quanto à última dimensão da pesquisa sobre a Educação Infantil trata-se, pois, de assumir uma postura crítica frente à violência e, dessa maneira, objetivar projetos de intervenção provocadores e constituintes do processo de pesquisa. O pesquisador, como intelectual orgânico, deve não somente explicar a realidade investigada, mas também indicar, como ensinava o filósofo Antonio Gramsci, que caminhos e pistas para a sua transformação, inserindo-se ativamente na vida prática como construtor e organizador indicando possíveis caminhos para a transformação da realidade.
Outros aspectos que podem vir a ser tomados pelo pesquisador: as modificações do processo de trabalho docente, as raízes e os efeitos da proletarização do ato de ensinar, bem como a questão de gênero e profissão. Consideramos a alienação como categoria fundamental na análise das informações apreendidas sobre algumas formas de constituição e manifestação nos significados e sentidos da docência, bem como possibilidades de superação, sem negar os limites impostos pela relação entre as concepções de trabalho docente e a forma capitalista de organização do trabalho em geral no Brasil.
Interpretar informações por meio do Materialismo Histórico Dialético não é uma tarefa simples, afirma J. V. Stalin (1879* 1953†), por que em oposição a metafísica a dialética considera a natureza como: (a) um todo articulado, no qual os objetos e os fenômenos se acham organicamente vinculados uns aos outros, se interdependem e se condicionam mutuamente; (b) algo quieto e imóvel, parado e imutável, mas como sujeito a perene movimento e a mudança consoante, renovando-se e desenvolvendo-se incessantemente, onde há sempre alguma coisa que nasce e se desenvolve, morre e caduca…
J. V. Stalin (1879* 1953†) assevera, ainda, que a dialética não estuda os fenômenos como um simples processo em que as mudanças quantitativas não resultam em mudanças qualitativas, mas como um processo em que se passa das mudanças quantitativas insignificantes e ocultas às mudanças manifestas; em que estas se produzem, não de modo gradual, mas repentina e subitamente, em forma de saltos de um estado de coisas para outro, e não de um modo casual, mas de acordo com leis, como resultado da acumulação de uma série de mudanças quantitativas inadvertidas e graduais.
O Materialismo Histórico Dialético entende que os processos não devem ser concebidos como movimentos circulares, mas como movimentos progressivos, como a transição do velho estado qualitativo a um novo estado qualitativo, como a evolução do simples para o complexo, do inferior para o superior. Charles Robert Darwin (1809* 1882†) conduziu a comunidade científica ao insofismável entendimento de que toda a natureza orgânica existente na Terra (plantas, animais, e é lógico, o ser humano) é o produto de um processo evolutivo de milhões de anos.
Friedrich Engels (1820* 1895†), parceiro teórico-epistemológico de Karl H. Marx, ensinava que a natureza é a pedra de toque da dialética, e as ciências naturais nos proporcionam um acervo de dados extraordinariamente copiosos, enriquecido cada dia que passa, demonstrando com isso que a natureza se move, em última instância, pelos canais dialéticos e não pelos trilhos metafísicos como queriam alguns filósofos que antecederam e sucederam Georg W. F. Hegel (1770* 1831†), que não se move na eterna monotonia de um ciclo constantemente repetido, mas percorre uma verdadeira história.
Pesquisa em Educação e Educação Escolar: o materialismo histórico dialético (PARTE 3)
Em: 23 de novembro de 2012
Sabemos que se a lógica dialética permite e exige o movimento do pensamento ao objeto pesquisado
Redação
Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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