POUPANÇA – Insegurança ronda investidor

Em: 24 de janeiro de 2013
Embora faça parte da cultura financeira do brasileiro, a poupança vem perdendo terreno para a inflação
Embora faça parte da cultura financeira do brasileiro, a poupança vem perdendo terreno para a inflação

A poupança ainda está na cultura do brasileiro como sinônimo de rentabilidade e segurança, mesmo após ter representado o pior resultado dos últimos 46 anos e os rendimentos perderem para a inflação, ou seja, os preços subiram mais do que rendeu a aplicação. E por conta disso, muitos investidores estão procurando outros investimentos tão seguros quanto a poupança, porém, que consigam “lucros” maiores. Como é o caso da vendedora autônoma Roberta Farias que sempre optou pela poupança como forma de ter um dinheiro a mais para casos de emergências. “Minha intenção na verdade sempre foi a de poupar, em algumas épocas do ano sempre surgem alguns gastos a mais e a poupança se tornou um salva-vidas para mim nesses momentos”, comenta.
Assim como para o estudante de administração Henrique Barboza, que prefere a poupança pela facilidade que ela proporciona ao usuário. “Eu gosto porque é prática, não requer muito conhecimento sobre economia”, aponta o universitário, que costuma usar a poupança para juntar dinheiro para viajar nas férias.
Entretanto, muitos ainda perguntam aos gerentes dos bancos quais são as outras opções e nesse momento aparecem as “pegadinhas” que prejudicam os investidores e consomem os ganhos. Entre elas, a inflação. “Ela é a grande responsável pela perda de valor da moeda, do poder de compra do dinheiro. Portanto, sempre que olharmos a rentabilidade de qualquer investimento que seja, devemos descontar a inflação e aí sim teremos a rentabilidade real daquela aplicação”, explicou Rodrigo Souza, diretor da HPN Invest.
Ele afirma que o principal objetivo de um gestor de investimento é garantir ao seu cliente a melhor em rentabilidade. Portanto, dentro das ferramentas permitidas pelo regulamento do fundo, o gestor vai montar estratégias que tentarão levar o fundo a alcançar uma excelente performance. “Quando este objetivo-alvo, também conhecido como benchmark, é superado, alguns gestores cobram uma “taxa de sucesso” -sucess fee- ou taxa de performance, que é uma taxa de “estímulo” ao gestor para que este busque sempre o melhor resultado possível. Até este ponto, tudo bem”, informa Souza.
Mas, segundo o especialista, o grande “erro” das instituições é não informar ao cliente a existência desta taxa e muito menos deixar claro como ela funciona. Em tempos de juros baixos, onde o CDI não rende muito acima da poupança, por exemplo, fixar a taxa de performance de um fundo a superação deste benchmark, torna-se um fator de peso para que um fundo tenha sua rentabilidade prejudicada. “Afinal, o CDI mensal não tem ido muito além de 0,65% a.m., se considerarmos IR, inflação e taxa de administração, é bem provável que investimentos atrelados ao CDI rendam abaixo da poupança em alguns casos”, ressalta Rodrigo.
Outra pegadinha comum , é a venda de TC (Títulos de Capitalização) como investimento. “E eles só deveriam ser comercializados por lotéricas. O argumento usado por instituições financeiras de que o cliente deve optar pela capitalização por que remunera como a poupança e ainda dá direito a números da loteria federal para que a pessoa concorra a prêmios, é danoso, mentiroso!”, alerta o especialista, que frisa que na realidade, e muitos funcionários de banco não fazem ideia disso, eles estão oferecendo um produto com rentabilidade mínima para o cliente, mas muito interessante para a operação da instituição.

TC ainda é pouco conhecido do cliente

De acordo com Rodrigo, na maioria dos casos, o cliente é induzido pelo gerente a “investir” no produto, sem que detalhes do contrato sejam devidamente explicados. Trata-se de um produto que compõe a cesta de metas de todo gerente, o que faz dele alvo de fortes campanhas e ações por parte da equipe bancária. “No entanto, não explicam ao cliente, que por conta dos “sorteios” mensais, onde o cliente concorre a uma “bolada” de dinheiro, existem alguns detalhes bem “interessantes” neste tipo de produto, como por exemplo, parte do dinheiro investido nos TCs renderá juros de poupança (pouco mais de 0,55% ao mês), enquanto você dá 4,1% para a instituição. Na prática isso significa pagar 4,1% a.m. do valor “investido” e receber apenas 0,55% (em média) a.m. “de volta” por ter optado pelo produto”, detalha o diretor.
Se já não bastasse tudo isso, ele comenta que estes produtos ainda têm carência de, em média, cinco anos, então o cliente só pode recuperar seu dinheiro, que talvez tivesse “rendido” mais em baixo do colchão, somente após ficar todos estes anos aplicando. “Quanto ao sorteio, bom, acho melhor acreditar e apostar na Mega Sena”, disse Souza.
E porque os bancos gostam tanto de oferecer os CDBs como o principal produto de renda fixa se é sabido que existem produtos mais rentáveis e seguros? O especialista responde que isso acontece porque com os recursos capitados através dos CDBs os bancos conseguem “trabalhar”, através de operações de crédito a clientes. Já ao oferecerem produtos como o Tesouro Direto, muito mais rentável em muitos casos (quase imbatível para aplicações acima de 18 meses), além de não ficarem com os recursos captados para “trabalhar”, a taxa de administração desta modalidade costuma ser baixa (em média 0,25% a.a. em corretoras de valores).
Souza acrescenta que o CBD é uma forma dos bancos se “capitalizarem” de dinheiro barato. Por que remuneram os investimentos com a taxa CDI (normalmente menos de 100%) e emprestam aos mesmos clientes com taxas de mais de 2% a.m. “Sem contar que o risco de uma aplicação em títulos públicos ser ainda menor que nos títulos privados”, conclui.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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