Última noite de exibições do Amazonas Film Festival será marcada pela contemplação ao artista. Às 19h, o Teatro Amazonas preenche o palco com imagens de “Olho Nu”, documentário delicado dirigido por Joel Pizzini –em parceria com o Canal Brasil -sobre Ney Matogrosso. Às 22h, uma viagem ao ano de 1978, durante a ditadura militar, quando um grupo de artistas se apropria de seus espetáculos para exibir resistência política e anarquismo.
O fato é que Matogrosso é um enigma e o filme-ensaio não tem intenção de decifrá-lo por inteiro. Mas, sob o olhar atento do carioca Pizzini, oferece chaves para que o espectador consiga entender melhor a complexidade deste artista. Parte da história cultural do Brasil desde a década de 70, quando integrava o trio Secos & Molhados, o cantor performático –hoje com 72 anos de idade -sempre teve muito cuidado com a preservação da memória de sua carreira.“Tenho mais de 300 horas de material gravado. Se concedia uma entrevista em uma cidade do interior, eu pedia cópia, antes que fosse apagada”, lembra o artista.
De acordo com Ney, a ideia de produzir algo sobre sua carreira para a televisão partiu do diretor do Canal Brasil (Paulo Mendonça) e, diante da quantidade de vídeos guardados, notou que seria possível fazer um filme! “Além do que eu já tinha, filmamos também para complementar e montar o filme. E aquilo não é nem 10%, nós temos material para uma série ainda. E o Paulinho pretende fazer”, adianta.
Sobre as impressões pessoais depois de assistir ao longa-metragem, o compositor destaca o papel da edição, acerca da manipulação das imagens. “Numa das vezes que vi, me achei um ser tristonho, fechado e não era para ser assim. Eu parecia um ser solitário. Então, perguntei pelas partes alegres, pelos anos 80, aquele deslumbre todo, tudo que havia ficado um pouco de lado em uma das versões. Quando colocaram isso, achei o filme mais leve. Não podia prevalecer aquele primeiro espírito porque não era real”, contou Ney em entrevista para o Jornal do Commercio.
Como há muitos ‘Neys’ em um, Olho Nu investiga essas várias facetas do artista, em constante metamorfose, abordando suas muitas histórias, sempre costuradas pela trilha sonora, integrada por canções que gravou ao longo da carreira. “Conto minhas próprias histórias, mas em terceira pessoa, separando o homem do personagem”, analisa. O filme, que depois do Amazonas Film Festival irá percorrer um circuito de mostras e festivais, deverá entrar em circuito comercial em 2014.
Com amor, irreverência e tatuagem
“Tatuagem”, do diretor pernambucano Hilton Lacerda (que também dirigiu “Cartola: Música para os olhos”), estreou no Festival de Gramado deste ano (levando o prêmio de Melhor Filme) e recebeu cinco troféus no Festival do Rio: melhor filme (voto popular), prêmio especial do júri (ficção), melhor ator para Jesuíta Barbosa, melhor ator coadjuvante para Rodrigo García e prêmio da Fipresci (Federação Internacional dos Críticos de Cinema). É incontestável que “Tatuagem” vive um ótimo momento e é o destaque da safra 2013 do cinema pernambucano –que tem ainda “Amor, Plástico” e “Barulho como nome forte”.
O filme se passa no ano de 1978, e mostra confrontos e reflexões de uma geração analisados a partir da periferia, ao mesmo tempo em que acompanha o romance entre um soldado de 18 anos e um agitador cultural. A trama se inspira livremente no coletivo Vivencial Diversiones, que chamou atenção no underground pernambucano no final da década de 1970. Roteirista de longas como “O Baile Perfumado” (1997) e “A Febre do Rato” (2011), Hilton Lacerda criou uma narrativa com muita reflexão, metáforas, mas também muito engraçada, debochada, fazendo jus às apresentações do Vivencial.
Segundo a sinopse oficial, “Tatuagem” revisita o cinema novo, “flertando com o experimentalismo do super-8 da década de 70 no Brasil e dialogando com o cinema contemporâneo”. A primeira produção ficcional de Hilton Lacerda procura jogar luz sobre a história e a cinematografia de um país e abrir uma brecha para vislumbrar uma das faces mais interessantes e complexas do Brasil: a história que nasce na marginalidade dos acontecimentos. A obra estréia em circuito nacional dia 15 de novembro, mas quem quiser assistir de graça, é só chegar cedo no Teatro Amazonas e correr para a fila!







