Dona de um armário abarrotado de roupas e acessórios de grife, a paulistana Bárbara Almeida vira e mexe emprestava algum vestido a suas amigas. Até que uma delas, a administradora Mariana Penazzo, achou que o ímpeto consumista de Bárbara poderia dar dinheiro. As duas largaram o emprego, levantaram R$ 1 milhão com investidores e lançaram, há um ano e meio, o Dress & Go, site de aluguel de vestidos de grife. Começaram com 25 peças e hoje têm 1. 000, de marcas como Carlos Miele, Missoni e Reinaldo Lourenço.
Em 2013, as sócias faturaram cerca de R$ 2,5 milhões alugando esses vestidos por valores que variaram de R$ 150 a R$ 900, e a meta para este ano é chegar aos R$ 5 milhões — por enquanto, todo o dinheiro é reinvestido em publicidade e na expansão da empresa, que tem 15 funcionários e não dá lucro.
O Dress & Go é mais um exemplo daquela que é a grande “onda” entre jovens empreendedores brasileiros —o do compartilhamento. Todos querem surfá-la. Nos últimos dois anos, tornou-se possível compartilhar de tudo. As empresas surgem como intermediárias entre quem tem algo, mas não está usando, e quem precisa daquilo.
A receita vem de taxas cobradas pelo serviço. Aplicativos de táxi e de aluguel de quartos popularizaram o conceito. Após o espantoso crescimento dessas primeiras empresas, compartilhar virou moda.
Já é possível alugar livros acadêmicos, contratar os serviços de babás, usar espaço na mala dos outros para importar pequenos produtos, aproveitar espaço vazio em caminhões e até contratar alguém que esteja disposto a passar algumas horas numa fila.
A startup EZPark planeja lançar até o fim de julho um aplicativo de compartilhamento de vagas de garagem no bairro de Vila Mariana, na zona Sul de São Paulo. A ideia é permitir que moradores aluguem sua vaga durante o dia para quem trabalha na região.
Outro site brasileiro é o Max Milhas, de compartilhamento de milhas para a compra de passagens aéreas. Quem tem milhas pode oferecê-las pelo site e emitir a passagem com o nome de quem comprou.
É fácil entender por que tantas empresas de compartilhamento estão surgindo. Não é preciso ser nenhum gênio da computação para lançar um serviço desses nem ter grandes recursos no banco: todos usam plataformas tecnológicas parecidas, disponíveis no mercado para quem quiser.
O investimento varia, em geral, de US$ 150 000, no caso dos sites que apenas oferecem a possibilidade de trocar serviços, a US$ 300 000, quando é preciso comprar um estoque inicial de produtos para ser alugado (as sócias do Dress & Go gastaram mais porque também montaram um ateliê no bairro do Itaim, em São Paulo).
No primeiro caso, é o mesmo que se paga para ter uma franquia de redes como a lanchonete Subway ou a loja de roupas M. Officer. Até hoje, são exceções empresas de comércio eletrônico criadas no Brasil na última década que dão lucro. “O varejo online virou um jogo para grandes empresas. O compartilhamento surge na ressaca, como uma opção para quem quer empreender na internet sem arriscar tanto”, diz Paulo Humberg, presidente do fundo de venture capital A5 Internet Investments, sócio do Dress & Go.
Vantagens que podem se tornar problema
Mas as vantagens dessas empresas para empresários e investidores são justamente sua maior fraqueza: é fácil copiar um site ou aplicativo que deu certo e é relativamente barato promovê-lo nas redes sociais. Por isso, a chave para vencer nesse mercado é crescer rapidamente e ter uma base de consumidores fiéis. Algo que pouca gente conseguiu até agora.
“Quem ainda não criou uma marca conhecida pode perder boa parte dos clientes em semanas e até sair do mercado”, diz Aníbal Messa, sócio do fundo de venture capital Plataforma Capital. Um dos aplicativos que conseguiram chegar lá é o hoje onipresente Easy Taxi, que permite que os passageiros acionem o táxi mais próximo de onde estão.
Desde que foi lançado, em 2011, surgiram quase dez clones, como o 99 Taxis e o Resolve Aí. Para tentar se diferenciar da concorrência, o Easy Taxi expandiu suas operações para 30 países. Outras empresas estão lançando mão de estratégias alternativas para prender clientes.
Por enquanto, quase todas as empresas de compartilhamento dão prejuízo, algo que é comum no mundo da internet, sobretudo entre companhias novas que ainda estão investindo para crescer. Outros fenômenos semelhantes acabaram mal.
Há quatro anos, a grande modinha da internet eram os sites de compras coletivas, que dão descontos a grupos de compradores. No exterior, o maior deles é o Groupon.
Aqui, é o Peixe Urbano, que chegou a ter 1. 000 funcionários. Mas o negócio cresceu demais, os clientes passaram a ser mal atendidos e a demanda foi minguando. A maioria dos sites de compras coletivas fechou, e o Peixe Urbano, que está à venda, demitiu pelo menos 200 empregados.







