Indústria precisa importar

Em: 5 de agosto de 2014
baixa produção local de fibras leva setor a trazer matéria-prima da Ásia para produzir sacaria
baixa produção local de fibras leva setor a trazer matéria-prima da Ásia para produzir sacaria

A exportação brasileira de café foi a principal responsável pelo bom desempenho no faturamento do setor têxtil do Amazonas, que cresceu 58,8% nos primeiros cinco meses deste ano em relação a igual período de 2013, de acordo com Indicadores da Suframa. O setor vem ganhando impulso industrializando principalmente sacarias à base de malva e juta, destinadas a embalar café. Mas, a baixa produção amazonense de juta e malva neste ano, está levando a indústria a importar, como medida de emergência, fibras produzidas em Bangladesh.
Segundo os dados da Suframa, até maio deste ano as indústrias têxteis do Estado faturaram R$ 17,5 milhões. No mesmo período de 2013, o montante foi de R$ 11 milhões. No acumulado do ano passado, o faturamento fechou em R$ 30,5 milhões.
“A nossa empresa jamais planejou importar fibras. Estamos sendo obrigados, por conta desta situação (baixa produção de fibras e demanda aquecida por sacarias). Até porque a ideia da PPP (Parceria Público-Privada) entre o grupo Mário Guerreiro e o governo do Estado através da Afeam, que resultou na Brasjuta é revitalizar o setor de fibras. O fato de nós importarmos agora não quer dizer que a gente vai ser importador daqui para frente. A ideia é fazer uma análise da situação do setor de fibras, tomar ações emergenciais e algumas estruturantes com o objetivo de reestruturar a atividade”, disse Sebastião Guerreiro, diretor- executivo da Brasjuta, uma das maiores do setor.
Por isso, explica Guerreiro, para manter os números positivos no setor têxtil as empresas já começaram a importar fibras de Bangladesh, na Ásia, para suprir a demanda da produção local. Ele enfatiza, porém, que trata-se de uma medida emergencial e que outras ações estão sendo analisadas para reverter a situação. Ainda segundo Guerreiro, a fibra importada é mais barata e é uma fibra com características superiores às fibras regionais.
Guerreiro, que também é presidente do Sindicato das Indústrias de Fiação e Tecelagem de Manaus, explica que o bom desempenho do setor se justifica pela demanda por sacaria de malva e juta destinada à exportação de café. Segundo o executivo, na Brasjuta, o crescimento deste ano é resultado de esforços combinados entre governo e iniciativa privada com o objetivo de adensar a cadeia produtiva de malva e juta, que são as duas fibras mais produzidas no Estado.
“Nosso setor representa menos de 1% do faturamento do PIM (Polo Industrial de Manaus), mas ele teve uma ascensão neste período. Até 2011 existia só uma indústria no setor. A Brasjuta foi criada fruto de uma PPP (Parceria Público-Privada) entre o grupo Mário Guerreiro e o governo do Estado através da Afeam. Um dos objetivos principais desta parceria era adensar a cadeia produtiva de malva e juta. Já havíamos apresentado um crescimento no ano passado, mas não tão relevante como o de agora. 2014 aponta como um dos maiores crescimentos. Isso vem a confirmar que a ação da PPP em adensar a cadeia foi produtiva”, avalia o diretor.

Explicação
Com relação a produção de fibras no Amazonas, o empresário explica que parte da queda na produção de malva e juta pode ser explicada pelas características intrínsecas desde tipo de cultivo, que está intimamente ligado com o ciclo de subida e descida dos rios amazônicos.
“Desde a constituição da nossa empresa nós sofremos com seca, cheia fora da época ou subida retardada dos rios. Quando o rio enche muito, as águas pegam a planta ainda pequena e o produtor não corta. Quando o rio não enche na época devida a área cultivada fica longe da margem do rio e o produtor acaba não cortando. Este ano o rio custou a chegar e quando chegou teve uma subida rápida e também houve perdas de produção”.
No entanto, o principal motivo apontado por ele pela queda abrupta da produção da fibra é a falta de controle do governo do Estado, através da Sepror, que é quem capitania toda a cadeira.
“O maior volume de sementes distribuído foi feito pela Secretaria de Produção. Foram quase 75 toneladas de sementes. Essas sementes são distribuídas pelo Idam, que por sua vez, não controla para quem distribui, não faz mapeamento para quem distribuiu e consequentemente não faz uma fiscalização para quem recebe essas sementes para ver se plantou ou não plantou. Com isso, a gente fica à mercê do produtor, que a gente não sabe se utilizou ou não utilizou as sementes”, lamentou o empresário.
Segundo Guerreiro, a perspectiva era de uma safra de quase 10 mil toneladas em 2014 mas por enquanto esse número só chegou a 4 mil toneladas. Considerando a atual safra, foram movimentados quase R$ 10 milhões em seis meses.
O secretário de Estado da Produção Rural, Valdenor Cardoso, disse que a função da Sepror é fazer políticas públicas para o setor primário, como fomento agrícola, crédito rural, transporte e estrutura para a produção e todos os mecanismos que favorecem a produção, não cabendo, portanto ao órgão, a fiscalização.
“A Sepror não fiscaliza a produção de juta; ela fomenta, ela apoia e financia o crédito rural através da Afeam e articula com o Banco da Amazônia e com o Banco do Brasil. Oferecemos assistência técnica e fornecemos as sementes gratuitamente”, disse. O titular da pasta atribuiu a redução na safra 2013-2014 a fatores externos que fogem à competência da Sepror como ciclo das águas, mercado, preço e estrutura de produção. “São as cooperativas que estimulam a cadeia. As enchentes passadas têm desestimulado os produtores a plantar. Com o ciclo de cheias e secas recentes o sistema produtivo desorganiza”, lamentou o secretário.

Golpe
Outro duro golpe na produção da fibra no Estado foi o fechamento, em janeiro, da CTC (Companhia Têxtil do Castanhal) em Parintins, que deixou de atender a aproximadamente 250 famílias produtoras de fibras da região. Além disso, um incêndio do armazém da Coomapem (Cooperativa Mista Agropecuária de Manacapuru), ocorrido há um ano, consumiu aproximadamente 700 toneladas de malva e juta, que estavam estocadas aguardando comercialização.

Não comprou
Na Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), órgão do governo federal, que atua como regulador de preços no setor primário, o baixo desempenho da safra também foi sentida. Pelos números da Conab, a produção de juta e malva do Estado em 2014 não chega nem à metade do que foi registrado no ano passado.
“A produção de fibras neste ano de 2014 foi a mais baixa dos últimos anos. A produção de juta e malva do Estado está atingindo 4 mil toneladas, uma das mais baixas da história. No ano passado chegamos a 9 mil toneladas. Houve uma queda muito grande”, informou Meirelles.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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