O dr. Raul Sequeira Filho é conhecido e prestigiado médico de uma grande cidade de São Paulo. Seguiu os passos do pai, o famoso dr. Raul Sequeira. Pois bem, continuando a tradição da família Sequeira, dr. Raulzinho incutiu na cabeça de Raul Sequeira Neto, o Raulito, que também ele deveria ser médico. Todos achavam que Raulito deveria ser médico. Menos ele.
Obedecendo as ordens da mãe, foi estudar Medicina. “Se queira ou se não queira, dr. Sequeira”. Por não ter passado em vestibular mais prestigiado, matriculou-se na recém-inaugurada faculdade de um tio seu, também médico, em outra próspera cidade vizinha, do interior de São Paulo.
Raulito formou-se aos trancos e barrancos. Por falta de especialização e residência médica que o habilitasse a emprego melhor, veio clinicar no interior do Amazonas, onde a falta de médicos é realidade cruel e de conhecimento de todos.
Não queria vir, mas Dr. Raul, o pai, arrumou tudo.
– E se eu não entender os sintomas, como vou diagnosticar os pacientes? Argumentou Raulito.
– Consulta o Google, contra argumentou o dr. Sequeira, já sem paciência com o filhão irascível.
– Qualquer coisa, me telefona informando os sintomas que eu dou o diagnóstico. Você precisa praticar a Medicina para entendê-la. Precisa ser mais médico.
Designado para clinicar numa aprazível cidadezinha do interior do Amazonas, Dr. Raulito encantou-se com o local. Há um fantástico lago margeando o vilarejo. Ao chegar, o doutorzinho enamorou-se de uma cabocla linda chamada Khathyenny.
Devidamente instalado em seu primeiro e único consultório, Raulito Sequeira entre nervoso e temeroso, foi obrigado a atender o seu primeiro paciente.
O caboclo dizia estar com “zum zum zum’ na cabeça. Como o Google não resolveu o diagnóstico, Raulito ligou para o pai, que de chofre disse que aquilo era uma simples cefaleia.
No dia seguinte, apareceu um senhor que dizia ter “travanca no peito”. Apavorado, Raulito diagnosticou, acertadamente, que aquilo era uma arritmia.
Na semana seguinte, quando um jovem rapaz apareceu com “lock lock” na barriga, Raulito novamente encheu-se de dúvidas e ligou para o pai.
Dr. Raul deu-lhe uma bronca por não saber diagnosticar uma simples dor de barriga, conhecida como piriri, diarreia ou como dizem os americanos “belly ache”. Aquilo era demais.
Quando o jovem médico telefonou dizendo que o paciente estava com uma coceira esquisita, o velho, dando risadas, disse ao filho:
– Se for no pé, é pereba, ou pode ser curuba. Volta imediatamente para São Paulo, antes que você mate alguém por aí. Desista da Medicina, no que Raulito respondeu:
– Da Medicina já desisti. Mas não volto mais para São Paulo. Minha companheira aqui, a Khathyenny cozinha um jaraqui que é uma delícia. Eu comprei umas terras do outro lado de um lindo lago que tem aqui. Vou construir um hotel de selva. Sou ex-médico, mas feliz. Não volto mais para o Sudeste. E estamos conversados, meu pai.
E assim dr. Raulito Sequeira tornou-se não “mais médico” e nem “menos médico”, simplesmente, um ex-médico.
Nem mais, nem menos, apenas ex-médico
Em: 28 de outubro de 2014
Nem mais, nem menos, apenas ex-médico
Redação
Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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