Acordar mais cedo e só chegar no trabalho de voadeira. Durante o período de cheias, as famílias ribeirinhas precisam adaptar sua rotina para as condições que a natureza impõe. A cada ano, a Comunidade Vila Nova –localizada no município de Iranduba e cercada pelo rio Solimões enfrenta diversos problemas por causa da água que insiste em invadir as palafitas. Com serenidade e bom humor, as 85 famílias ‘ilhadas’ contam com companheirismo de sobra para lidar com as perdas. Que não são poucas.
Francisco Ferreira Gomes chegou na comunidade há mais de 20 anos. Aos 35, ‘Chiquinho’ é presidente da Associação de Moradores e tenta organizar o caos com a colaboração dos vizinhos. “Minha família morava no Lago do Jari, no município de Beruri (localizado distante 172 quilômetros da capital amazonense), quando soubemos da Madeireira Gil, que acabara de ser inaugurada nessa região, ainda sem nome. Mesmo na ilegalidade, com 12 anos eu já trabalhava e consegui construir nossa primeira casa”, lembra o barqueiro, que chegou com a mãe e quatro irmãos e hoje vive com a esposa e seus três filhos.
Essa é a história de mais de 80% dos habitantes da ilha onde todo mundo se conhece –e todo mundo se ajuda.
Segundo Chiquinho, o problema são as embarcações grandes que passam muito próximas à comunidade e formam o banzeiro. “Quando a água bate no açoalho, destrói aos poucos a estrutura das casas”, explica, e acrescenta que, com a cheia, o ribeirinho esbarra numa outra questão: a compra de madeira. “Se for para comprar produto legal, é muita burocracia, então ele acaba comprando aqui, pagando para cerrar ali…”, descreve o processo.
Em média, cada família gasta R$ 2 mil para se preparar para o período. “Isso só a manutenção, porque se precisar de maromba (quando levanta um segundo andar sobre o açoalho), custa bem mais”, lamenta o representante da comunidade, que pede ajuda dos outros moradores quando alguma das casas começa a alagar. “Já estamos acostumados e nós mesmos construímos a maromba”, diz Chiquinho enquanto manobra a voadeira e exibe uma das marombas recém-levantadas por eles. A obra é concluída em dois dias e, com o fim da cheia, a madeira que ficou exposta a água é totalmente descartada.
O barqueiro João Nascimento Rodrigues vive na comunidade desde a fundação, há mais de 25 anos e ‘passa um sufoco’ anualmente. “Sempre alaga e, quando seca, precisamos reformar o que a água devastou e esperar a próxima cheia”, descreve. Por lá, o rio Solimões começa a subir em março e seca meados de junho.
‘Tio João’, que viu uma casa sua ser ‘engolida’ pelo banzeiro, não pensa em sair do local. Pai de quatro meninos, dois deles vêm estudar em Manaus todos os dias acompanhado da mãe, que também trabalha na capital como auxiliar de serviços gerais. Os dois filhos mais novos, 14 e 16 anos, ainda estudam na escola da Comunidade. “Apesar das dificuldades, eu prefiro morar lá, onde tudo é mais calmo e sem violência. Só isso já compensa”, defende.
Na página C7, você confere a história do casal Margareth Veríssimo e Diego Monteiro. Duas pessoas –como muitas do lugar –que doam seu tempo e disposição para que as aulas sigam o calendário letivo e que a merenda não falte à mesa dos alunos. Para informações e doações: (92) 9 9329-2477.
Emyle Araújo
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