A natureza que se transforma

Em: 11 de novembro de 2015
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O professor de educação física e fisioterapeuta Vanderlan Santos Mota, ainda está cursando arquitetura e
urbanismo, mas já produz peças em madeira que são verdadeiras obras de arte, também pudera, teve como mestre um homem simples, mas profundo conhecedor do que fazia, o pai, Venícius Menezes Mota, hoje com 98 anos, aposentado há dez, mas que sustentou a família como vimeiro ou, pra quem não sabe, produzindo móveis e outras peças com vime. “No livro ‘Ruas, fachadas e varandas’, do artista plástico Moacyr Andrade, ele cita o meu pai como sendo um dos vimeiros mais conhecidos da cidade a partir da década de 1940. Ele aprendeu essa arte nos livros de uns alemães que conheceu, e não parou mais de fazê-la. Ganhou a vida com isso”, falou Vanderlan.
Na infância, no início da década de 1970, Vanderlan começou a aprender a arte do pai. “Ele colocava todos nós pra trabalhar, eu e meus irmãos. Eu ia entregar as cadeiras, mesas e sofás que ele fazia. Com o tempo fui vendo e aprendendo a trançar o vime”, recordou.Mas Vanderlan e os irmãos cresceram. O pai colocou todos pra fazer cursos técnicos. Talvez não quisesse que eles fossem vimeiros. Talvez não visse futuro naquele trabalho. Todos os filhos de Venícius estudaram e se formaram e cada um seguiu sua profissão. “Me formei em educação física, em fisioterapia, cheguei ao doutorado, mas nunca esqueci a arte do vime e nem de fazer móveis como meu pai. Nas minhas folgas dos estudos e do trabalho, me pego passando o tempo trabalhando num móvel. Por isso resolvi cursar, agora, arquitetura e urbanismo”, explicou. O ‘cemitério’ de árvores Trabalhando na UEA, como professor, em viagens pelo interior do Amazonas, Vanderlan começou a observar nas matas, próximas às cidades, a quantidade de árvores caídas, seja derrubadas pelo vento, por um raio ou pelo peso da idade. Mad e iras, hoje proibidas por lei de serem tiradas das matas, que são consumidas lentamente pelo tempo.
O lago de Balbina, no município de Presidente Figueiredo, é um exemplo desse desperdício de madeiras, sendo que nesse caso o próprio homem foi o causador da morte daquelas árvores após a construção de uma hidrelétrica, inaugurada em 1980, e o represamento das águas para a formação do lago. Uma área imensa da floresta ficou submersa. “Já conhecia esse ‘cemitério’ de árvores há muito tempo. Quem viveu aquela época da construção da hidrelétrica sabe do imenso crime ecológico que foi cometido naquela região e que, até hoje, mais de 30 anos depois, ainda apresenta resultados negativos”, comentou. Mas é desse ‘cemitério’ de árvores que, desde 2012, Vanderlan retira a matéria-prima para
a produção de seus móveis. “Tenho autorização do Ibama e da Secretaria do Meio Ambiente para fazer a coleta das peças de madeira que preciso para fazer meu trabalho, realizado no lago do Cacaia, junto à comunidade Rumo Certo. Na época da vazante a retirada é um pouco mais fácil, porque as árvores estão à mostra, mas mesmo na cheia vou até lá com o mateiro e, de bote, andando entre as árvores mortas, vou escolhendo as peças que vou precisar e ele vai cortando com a moto serra”, contou. De volta a Manaus, na oficina de Vanderlan, as peças são lavadas, secas (apesar de já terem sido secadas previamente pela exposição ao tempo), recebem um antifungicida, selador, os cortes de acordo com o design, lixamento e acabamento. “Olhando as peças, imagino o tipo de móvel em que ela poderá ser transformada. Rabisco um desenho e depois ela começa a ser trabalhada até virar uma pequena obra de
arte”, completou. Dependendo da peça, o trabalho pode demorar em torno de três (uma cadeira) a sete dias (um sofá) até ela ficar completamente pronta. “Pronto o móvel, ele recebe um certificado confirmando a origem legal da madeira, o que facilita a entrada e venda na Europa. Um móvel desse,
como é feito em madeira de lei, pode durar séculos. Vejo como uma forma de a natureza dar o seu recado. O homem se acaba logo, mas ela não acaba nunca, apenas se transforma”, concluiu.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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