Moacir Couto de Andrade conseguiu, com pinceladas multicoloridas, deixar seu nome marcado na história das artes da Amazônia. Em dezembro, de 2015, ele comemorou os 80 anos de uma carreira prodigiosa e repleta de sucesso e se prepara para comemorar os 89 anos de vida (no próximo dia 17 de março), ainda que o peso da idade e a pouca visão já não o deixem mais produzir como antigamente.
“Minha mãe, Jovina Couto de Andrade, era professora normalista e desde cedo me ensinou a escrever e a desenhar. Lembro que, com cinco anos, já fazia os meus primeiros rabiscos. E não parei mais”, recordou.
Em 1935, Moacir então com oito anos, a economia em Manaus estava praticamente estagnada. A mãe, desempregada; o pai, Severino Galdino, empreiteiro, também. Tomaram uma decisão radical. Saíram da capital e foram morar numa fazenda, no Solimões, pertencente à família. “Foram tempos difíceis. Se ficássemos em Manaus não teríamos dinheiro nem para comprar comida. Na fazenda, plantávamos, caçávamos e pescávamos para comer. No ano seguinte, já estávamos de volta a Manaus”, falou.
Foi a partir desse momento que o Jornal do Commercio teve uma grande importância para o futuro artístico de Moacir Andrade. “Não tínhamos dinheiro para comprar cadernos onde eu pudesse escrever minhas aulas, então meu pai ia até o Jornal do Commercio, o mais importante jornal da época, e pedia aos amigos que tinha lá, pedaços de papel, as sobras que não serviam mais para nada. Essas sobras minha mãe transformava em cadernos que eu utilizava para escrever e desenhar. Meus primeiros desenhos foram feitos nesses papeis do jornal”, disse.
Inspiração amazônica
O ano de 1942 marcou a entrada de Moacir Andrade, então com 15 anos, no mundo da pintura. “Da mesma forma como comecei a rabiscar e depois desenhar, iniciei na pintura das telas, sem professor me ensinando. Aprendia fazendo. Meus motivos sempre foram amazônicos, barcos, rios, flora, fauna, o homem ribeirinho e o homem da cidade. O tempo que vivemos às margens do Solimões também me serviu de inspiração”, lembrou.
Até hoje Moacir Andrade guarda uma grande quantidade de seus primeiros desenhos quando contava apenas poucos anos de idade, assinados e datados. Alguns são verdadeiras raridades, pois retratam os moradores de uma Manaus que não existe mais como o vendedor de palhas, de 13 de janeiro de 1936; o vendedor de pirulitos, de 16 de junho de 1936, o vendedor de tartarugas, de 27 de fevereiro de 1937; o menino vendedor de bonecas de pano, de 2 de setembro de 1937; o teque-teque, vendedor ambulante de artigos de costura, de 6 de outubro de 1937, entre vários outros, como as palafitas, elementos de vários de seus quadros famosos, encontrado num desenho de 1934, quando Moacir tinha apenas sete anos.
Em 1945, novo encontro com o Jornal do Commercio. “Teve um concurso para ser revisor do jornal. Um monte de gente se inscreveu. Eu passei. Tinha apenas 18 anos e foi meu primeiro emprego. O Jornal do Commercio ficava ali na Eduardo Ribeiro. Era um prédio caindo aos pedaços, com um porão imenso. A impressora ficava no térreo. Trabalhei lá até 1946”.
Amigo dos grandes intelectuais
Em 1948, Moacir Andrade deu início à sua trajetória artística. “Fiquei amigo do Luiz Maximino de Miranda Corrêa, filho de um dos homens mais ricos de Manaus naquela época. Ele me apresentou a amigos do Ministério das Relações Exteriores, no Rio de Janeiro, e a alguém que me ajudou bastante, Vinícius de Moraes, que era diplomata. Como eu era funcionário federal, professor da ETFA (Escola Técnica Federal do Amazonas), consegui que o Ministério patrocinasse várias exposições minhas no exterior”, recordou.
“Minha viagem pioneira foi para Montevidéu, no Uruguai, onde realizei minha primeira exposição internacional. Depois não parei mais”. Em 60 anos, Moacir expôs em 197 países, divulgando a Amazônia e o Brasil, pois além dos quadros, ele também fazia palestras. Quando estava em Manaus, exercia sua profissão de professor de Artes, dando aulas na ETFA, no Colégio Dom Pedro II, na Escola Normal e no Colégio Militar. “Cheguei a dar aulas em todos, num mesmo dia”, garantiu, e nas horas vagas produzia seus quadros.
Durante as décadas de 1950, 60 e 70, Moacir Andrade conheceu os principais intelectuais em evidência. “Fui amigo do Di Cavalcanti e do Portinari. Jorge Amado e Gilberto Freyre almoçaram aqui em casa. Em Portugal, morei um tempo na casa do Ferreira de Castro. Em Paris, Vinícius de Moraes me apresentou ao Picasso, isso para citar apenas alguns. Foram muitos os grandes nomes que conheci pessoalmente”.
Centenas, talvez milhares de quadros depois, além de vários livros escritos, quase todos com contexto histórico, pois ele conta fatos sobre Manaus ocorridos ao longo de sua vida, Moacir Andrade não consegue mais desenvolver sua arte plenamente. “Minha vista está muito ruim. Não consigo mais ver direito nem com óculos, nem sem óculos, ainda assim, continuo pintando”, completou. E pintando, quando não mais existir, Moacir terá deixado sua obra para as próximas gerações como o primeiro artista plástico amazonense a se consagrar internacionalmente. “E até hoje nenhum outro conseguiu chegar aonde eu cheguei”, finalizou.







