Em tempos de alto índice de desemprego no país, ainda que seja um livro de humor, a leitura de “101 profissões fora do comum para pessoas nada normais”, dos irmãos Anderson e Emerson Couto, lançado recentemente, é indicado tanto para desempregados quanto para empregados pois, segundo os autores, traz muitas reflexões importantes sobre nossa relação com o emprego. Quem sabe você não decide seguir alguma das 101 profissões listadas pelos irmãos. De São Paulo, Anderson deu a seguinte entrevista ao Jornal do Commercio na qual falou mais sobre o livro.
Jornal do Commercio: Por que vocês resolveram escrever o livro “101 profissões fora do comum para pessoas nada normais”?
Anderson Couto: Nosso primeiro livro, “A vida de jornalista como ela é”, tratava exclusivamente dos sabores e dissabores da vida de jornalista. O “101 profissões fora do comum para pessoas nada normais” foi o desafio de ir além das redações de jornal. A linguagem é muito semelhante à do primeiro livro, com humor e deboche, mas agora falando de outros profissionais. A questão do “fora do comum” é que a gente não queria fazer um guia de carreiras convencional, sério, todo certinho. Ser subcelebridade, por exemplo, seduz muito mais do que estudar agronomia. A gente queria também inventar carreiras, brincar com a história da escolha da profissão, ironizar seus clichês.
JC: Ainda assim, nesse momento de crescente desemprego, a leitura do seu livro seria indicada?
AC: Por mais que o livro não seja um guia 100% real, ele traz muitas reflexões importantes e uma delas é a nossa relação com o emprego. Ao mesmo tempo em que a crise fecha postos de trabalho, ela nos dá a oportunidade de enxergar novas alternativas de trabalho. Mais do que emprego, hoje as pessoas precisam ter projetos. E esta transformação do mercado de trabalho já é anterior à crise. O mundo precisa de gente criativa, inovadora, e este livro, sem dúvida, nos ajuda a pensar nossa carreira profissional de uma forma completamente diferente.
JC: Onde pesquisaram e descobriram essas profissões?
AC: O livro teve um trabalho de pesquisa mais informal, não tem um perfil científico. Ao longo de meses, fomos coletando histórias curiosas de profissões em jornais, revistas, na internet. O livro é esta mistura de carreiras reais com ficção. Gostamos dessa mistura do real com o inventado. Algumas profissões não existem “oficialmente”, mas são uma tendência, como administrador de morte digital, o sujeito que assume um blog ou uma rede social de alguém que morreu. Mesmo as profissões mais malucas nos fazem refletir sobre nossas motivações, sobre o mundo em que vivemos.
JC: Nas suas opiniões, das 101 profissões listadas, qual a mais inusitada?
AC: Político honesto é uma profissão muito fora do comum. Poderia ser a profissão do futuro, não? Ser honesto neste meio é um enorme diferencial competitivo hoje. Ouvidor de histórias que ninguém quer ouvir também é insólita porque vivemos num mundo em que todos querem falar, mas ninguém quer prestar atenção no outro. Outra profissão inusitada que gostamos muito é a de organizador de casamentos da Gretchen, mas pode ser do Fábio Júnior também.
JC: As profissões fora do comum são fenômeno recente, ou sempre existiram?
AC: Muita coisa já existia, mas não era vista como profissão. Ocupações ligadas a questões sociais ou ambientais, por exemplo, como gestor de ONG ou lixólogo (aquele que cuida do lixo do mundo). Hoje, já dá para pensar em ter uma carreira mais estruturada nestas áreas. A questão do tempo também é engraçada. Falamos muito de profissões clássicas no livro, mas que precisam ser reinventadas ou resgatar sua essência. Um exemplo é o médico de família, aquele que era capaz de fazer um bom diagnóstico clínico, sem recorrer a complexos exames, que fazia uma consulta de porta fechada, olhando nos olhos, que tinha empatia pelo paciente.
JC: O seu livro é uma obra de humor mas, além de fazer rir, ele tem um algo mais de útil.
AC: Humor não é só para fazer a gente se divertir, humor é coisa séria quando faz a gente pensar nosso mundo, nossos valores. Não necessariamente o leitor vai escolher a profissão X ou Y lendo o livro, mas, com certeza, vai refletir sobre motivações profissionais: o que me leva a escolher este ou aquele caminho? O que me move? O que me faz sentir vontade de acordar cedo para trabalhar? O livro também nos ajuda a entender o dinamismo atual do mercado de trabalho, as transformações, as novas relações. A carteira assinada, independentemente de crise, está na UTI.
JC: Deixe uma mensagem para os milhões de desempregados brasileiros.
AC: Descubra sua motivação, descubra o que realmente lhe dá satisfação em fazer e busque um projeto nesta área. Tenha coragem para criar. Não fique esperando o velho emprego cair do céu.







