Um livro sobre a Amazônia e com conteúdo histórico. Assim é ‘Paraíso suspeito – a voragem amazônica’, de Leopoldo Bernucci, que será lançado hoje (29), às 19h, na Banca do Largo, no Largo de São Sebastião. Bernucci é professor do departamento de espanhol e português da Universidade da Califórnia e parte de sua pesquisa para escrever o livro foi feita consultando o acervo do Jornal do Commercio. ‘Paraíso suspeito’ é uma revisita ao romance ‘La vorágine’, do escritor colombiano José Eustasio Rivera, escrito em 1924.
Jornal do Commercio: De onde partiu a ideia de escrever ‘Paraíso suspeito – a voragem amazônica’ sobre o romance ‘La vorágine’, de José Eustasio Rivera?
Leopoldo Bernucci: A ideia inicial de escrever o ‘Paraíso Suspeito’ proveio de duas necessidades: uma, de estudar esse importante e canônico romance do colombiano J. E. Rivera, a partir de um fragmento manuscrito do livro e de suas fontes históricas e ficcionais; e a outra, de colocar em relevo o que Rivera chama ‘a transcendência social’ do romance, isto é, eu quis mostrar aos leitores contemporâneos como Rivera faz de sua ficção uma poderosa arma sócio-política para acusar os responsáveis pelos abusos e crimes cometidos nos seringais amazônicos durante as décadas de 1910 e 1920.
JC: Que conclusões foram tiradas da pesquisa?
LB: Para mim foi uma grata surpresa encontrar um elo perdido entre os estudos sobre o ‘La vorágine’, romance que, diga-se de passagem, tem sido abordado pelos mais diversos críticos em extensa bibliografia. Este elo é justamente a relação intertextual entre o romance e, sobretudo, quatro obras de autores brasileiros: ‘Os sertões’ (1902) e ‘À margem da história’ (1909), de Euclides da Cunha; ‘Inferno verde’ (1908), de Alberto Rangel; e ‘Os Seringaes’ (1914), de Mário Guedes.
Outro aspecto que julgo importante durante o processo de escritura do meu livro foi poder retificar, depois de várias leituras do romance, a ‘miopia’ de alguns leitores autorizados, entre eles escritores do boom latino-americano como Carlos Fuentes, Mario Vargas Llosa e Gabriel García Márquez. Estas grandes figuras literárias criticaram este tipo de romance nas décadas de 1960 e 1970 como sendo demasiado regionalista e muito calcado na realidade histórica de seus países.
Essa limitação de não entender os pressupostos do projeto romanesco de Rivera e também de rejeitar o ‘La vorágine’ porque é um livro que, fundamentalmente, se baseia num tipo de representação autóctone, fê-los perder de vista ambas as intenções, a histórica e a estética de J. E. Rivera.
JC: ‘La vorágine’ é um romance ou um livro de denúncia?
LB: É um livro de denúncia em todos os sentidos. Trata-se de um romance que de forma geral critica veementemente os abusos e atrocidades contra os trabalhadores da floresta amazônica. Rivera entendeu muito bem as cínicas e desleixadas políticas governamentais das nações que compartilham, sem exceção, o imenso território amazônico.
Rivera soube ver com extrema lucidez o descaso dos governos pelos povos amazônicos e o estado de abandono em que se encontravam os trabalhadores que ali viviam, tanto na Colômbia, no Peru, na Venezuela quanto no Brasil. De modo mais particular, e baseando-se em documentação histórica, ‘La vorágine’ assume o papel de delator autorizado das condições subumanas de vida de índios e brancos escravizados pelo comércio impiedoso da indústria do látex.
JC: Quais fontes foram usadas por Rivera para os fatos denunciados em “La vorágine”?
LB: Foram quase dez anos pesquisando este autor e sua obra, investigando em acervos públicos e privados. Em Manaus, as pesquisas foram feitas no IGHA (Instituto Geográfico Histórico), na Biblioteca Pública do Amazonas, no Jornal do Commercio, na biblioteca particular de Joaquim Melo, na Biblioteca Samuel Benchimol, no Museu Amazônico e na Biblioteca Mário Ypiranga. Em Belém, na Biblioteca Arthur Vianna; no Rio de Janeiro, na Biblioteca Nacional; e em Bogotá, nas bibliotecas Nacional e Miguel Arango e na da Pontificia Universidad Javeriana.
A vida de Rivera é contada de forma correta e elegante na sua melhor biografia que é a de Eduardo Neale-Silva, ‘Horizonte humano: vida de José Eustasio Rivera’. Já neste livro encontramos dados preciosos sobre a retidão e a ética de Rivera, quando em tempos anteriores ao romance, ele, que era também advogado, já tinha colidido com um poderoso e imoral terratenente colombiano.
Astuto, consciente e sempre interessado pelas questões dos direitos humanos, Rivera foi um atencioso leitor de Roger Casement e de suas denúncias realizadas no período 1910-1911 dos crimes cometidos nas regiões do Putumayo/Iça e Caquetá/Juruá. Leu também outras acusações como as de Benjamín Saldaña Rocca, Vicente Olarte Camacho, W. R. Hardenburg, Sidney Paternoster e outros, cujas obras estão todas contidas na seção bibliografia do meu livro.
Além desse conhecimento por via livresca, Rivera testemunhou, em conversas e observações realizadas por ele próprio na Amazônia por zonas de seringais que visitou em 1923, abusos contra os seringueiros (índios e caboclos) semelhantes aos que haviam sido perpetrados por seringalistas cruéis, mais de uma década anterior à sua viagem oficial às zonas do rio Negro, em São Marcelino, por exemplo.
JC: Que importância teve ‘La vorágine’ na literatura latino-americana?
LB: É um dos romances mais canônicos e lidos pelo público-leitor hispânico. Dado o seu caráter híbrido de romance que assimila as poéticas do Romantismo, Naturalismo e Regionalismo, ‘La vorágine’ tem suscitado diferentes leituras. Por um lado, esta obra pode ser lida como uma narrativa de viagens, porque trata de uma fascinante aventura pela selva amazônica, na qual se registram dados etnográficos inclusive. Por outro lado, ela pode também ser apreciada como obra de denúncia social, da forma como agora eu procuro ressaltar no meu livro.
Do ponto de vista técnico, é um romance sofisticadíssimo e moderno porque combina modos narrativos complexos atribuídos aos vários narradores da saga vivida pelas personagens; e o que é mais sensacional, pela primeira vez na história do romance latino-americano, este livro estabelece um diálogo muito rico entre texto e fotografia, tema discutido num dos capítulos do meu livro.
JC: E “Paraíso suspeito – a voragem amazônica”? Quais expectativas com a obra?
LB: É difícil prever o futuro. Minha intenção ao escrevê-lo foi reconfigurar o modo de se ler a obra de Rivera, abrindo outras possibilidades de leitura para os que se interessarem por esse magnífico romance. Acredito que minha tarefa como crítico, professor de literatura e leitor foi também tocar um capítulo da nossa história continental que, lamentavelmente, é pouco abordado entre nós -o genocídio cometido na Amazônia durante o boom da borracha -e revivê-lo para as novas gerações, com a esperança de que isso possa conscientizá-las sobre os erros cometidos ao longo dos anos de expansão da indústria da borracha e, finalmente, para que semelhantes erros possam ser evitados.
Quem foi Rivera?
Em 1922, José Eustasio Rivera (1888-1928), um advogado recém-formado pela Faculdade de Direito e Ciências Políticas da Universidade Nacional de Bogotá, foi nomeado membro de uma Comissão encarregada de efetuar a demarcação das fronteiras entre a Colômbia e a Venezuela. Rivera partiu então para o sul colombiano e de tudo que viu e ouviu nessa viagem, veio a redação de um dos mais extraordinários romances da literatura latino-americana “La vorágine” publicado em 1924.
Com o feito, Rivera é considerado o primeiro escritor a revelar o estado calamitoso com que eram tratados os seringueiros na floresta amazônica, antecipando em seis anos a obra “A Selva” do português Ferreira de Castro (1898-1974), este desenvolvido no lado brasileiro da Amazônia.







