“Ainda fazemos políticas de vaidades”

Em: 4 de setembro de 2017
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O professor, escritor e historiador Aguinaldo Figueiredo contou fatos, que se perderam com o tempo, sobre os tempos em que o Amazonas ainda era uma simples comarca do Pará e porque a separação dos dois Estados gigantes tornou-se um feriado no Amazonas. Até as raízes das rusgas entre amazonenses e paraenses foram esclarecidas por Aguinaldo.

Jornal do Commercio: Se perguntarmos para um aluno do ensino médio por que dia 5 de setembro é feriado, eles não vão saber responder. Por que é feriado?
Aguinaldo Figueiredo: É lamentável mas é verdade. Pouquíssimos são os alunos que de fato conhecem o significado dessa data, não apenas por desinteresse pessoal, mas também por conta da falta de esclarecimento do fato nas escolas. Quando o fazem dão muita ênfase aos espetáculos exibicionistas de desfiles coloridos e de pouca representação histórica.
A própria sociedade tem pouco interesse em saber o aconteceu mesmo nesse dia, quer mesmo é folgar do trabalho e curtir o lazer do verão amazônico. Traduzindo a ‘elevação do Amazonas à categoria de província’ significa dizer que o Amazonas, então uma comarca, foi elevado ao status de província (hoje Estado) politicamente independente do Pará.

JC: Quem eram as pessoas que moravam aqui em Manaus antes de 1850 e por que queriam ficar ‘independentes’ do Pará?
AF: Já havia expressivo número de ‘amazonenses’ (pessoas nascidas aqui), que queriam a autonomia da província por querer dar encaminhamento aos negócios e ter suas próprias políticas públicas sem depender das autoridades paraenses as quais estávamos subordinados.
Até esse momento o Amazonas era uma mera comarca de segunda ordem na jurisdição do Pará e isso atrapalhava o seu desenvolvimento econômico e social bastante, atrasado e desorganizado pela ação da revolução cabana. Eram funcionários públicos de alto escalão, políticos, religiosos, comerciantes, militares e até gente do povo que pugnavam por esse objetivo.

JC: E por que o Pará, durante décadas, não quis dar essa ‘independência’ e depois, de uma hora para outra, resolver ‘se livrar’ do Amazonas?
AF: A princípio os paraenses negaram a autonomia por conta da repressão ao movimento autonomista de 1832, entretanto, depois do desastre da Cabanagem, a situação estava fora de controle. Os paraenses não podiam administrar um vasto território que incluía o Amazonas.
Além do mais havia ameaças de invasões de nossas fronteiras no norte, bem como os paraenses também pleiteavam a criação de sua província. Depois de vencidas resistências de paulistas e mineiros foi criada a nossa província. Mas essa decisão dependia da Assembleia Nacional e do governo imperial e não do governo do Pará.

JC: Mas o Pará se livrou, realmente? É verdade que Tenreiro Aranha não tinha um centavo para administrar a nova, e gigantesca província e o Amazonas continuou dependente do Pará?
AF: De fato, até sua viagem à cidade da Barra do Rio Negro deu-se por cortesia da Marinha de Guerra, que cedeu espaço no navio Guapiaçu para que este viesse assumir seu posto de primeiro presidente (hoje governador) da Província (hoje Estado) do Amazonas. Os poucos recursos que trouxe mal deram para se acomodar decentemente. Pouco mais de oito meses depois ele retornou ao Pará e nunca mais veio ao Amazonas. Quem deu início à organização dos aparelhos públicos e jurídicos da província foi o vice-presidente, doutor Correa de Miranda.
JC: Conte essa história do navio americano que subiu o rio Amazonas naquele período. O que eles queriam?
AF: Sim, uma belonave americana navegou sem autorização do governo brasileiro em águas da Amazônia, fazendo acender um alerta acerca da necessidade de se criar mais uma província autônoma para resguardar a soberania nacional no Norte do país. Os americanos queriam marcar territórios e demonstrar poder de força por conta da valorização da borracha nos mercados internacionais e de transações nebulosos com os vizinhos peruanos. Tudo foi resolvido depois nas mesas das diplomacias.

JC: Essa rixa entre amazonenses e paraenses veio dessa época?
AF: Essa briguinha não é recente. Desde os tempos da rebelião autonomista de 1832, que ficou a rusga entre paraenses e amazonenses. Os amazonenses não engoliram as humilhações impostas pelos políticos paraenses rebaixando ainda mais a condição política do Rio Negro. Já na fase áurea da borracha as querelas xenofóbicas se exacerbaram. Com a riqueza fluindo tanto para o Amazonas quanto para o Pará, as duas capitais se rivalizavam em querer se superar em qualidade e beleza.
Isso foi muito bom, pois assim foram construídos os bonitos prédios que ainda hoje estão aí, embora mais de 50% do patrimônio desse tempo, tenha sido destruído pela ação da incúria geral. Com a debacle da economia gomífera a rivalidade ficou por conta das rinhas
futebolísticas.

JC: O que mudou desde 1850 até os dias de hoje em termos políticos e econômicos? O Amazonas continua dependente de outros Estados em quase tudo.
AF: Desde esse tempo para cá, é lógico que as mudanças foram muitas. Algumas profundas outras apenas aparentes. Politicamente, na minha opinião, as mudanças foram apenas circunstanciais e cosméticas, porque a mentalidade continua caudilhesca, autoritária e oligárquica. Mudam-se os atores, mas o enredo continua pequeno, por isso o verdadeiro desenvolvimento que tanto queremos, pleno e participativo não acontece. Nossa democracia é uma piada, os fatos que o digam. Ainda fazemos políticas de vaidades, personalistas.
Economicamente, fora o polo industrial que produz o que o Estado não consome, o Estado consume aquilo que não produz. Falta visão de economia global e investimentos em potencial regional. Temos uma das mais ricas regiões em biodiversidade e a política de exploração desse material é emperrada por questiúnculas ambientais duvidosas e desleixo político. A política de turismo local é uma falácia, uma fraude, os órgãos de gerenciamento do setor não passam de sinecuras a apaniguar compadres políticos, triste mesmo.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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