Organizações formais especializadas de EPT

Em: 27 de abril de 2018
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As organizações formais especializadas de educação profissional e tecnológica (EPT) foram assim catalogadas porque têm foco em uma ou poucas áreas de atuação. Organizações especialistas, quase sempre representam congregação de profissionais de alta qualificação em torno de um aspecto da realidade e sobre o qual criam as suas produções científicas, técnicas e/ou tecnológicas. Como consequência, essas organizações conseguem, muitas vezes, padrões de desempenho cujas repercussões e contribuições ultrapassam em muito o seu ambiente de atuação. Aliás, seus desempenhos têm servido de fundamentos de benchmarking, por exemplo, para que as organizações formais integrais mudem suas configurações estruturais, transformando-se em aglomerados de organizações formais especializadas. Este artigo tem como objetivo explicar como funcionam esse tipo de organização.

No universo de organizações de educação profissional e tecnológicas, há aquelas que, ao invés de se diferenciarem horizontalmente, abarcando inúmeras áreas do conhecimento, resolveram fazer a diferenciação verticalmente, aprofundando inúmeros aspectos de uma única área ou uma única perspectiva. Ainda que atuem em diferentes áreas, portanto, seu foco é sempre uno. Os institutos de pesquisas tecnológicas são exemplos desse tipo de organizações, que apesar de se dedicarem a outras esferas de ação, escolheram o mundo da tecnologia como a arena onde passaram a atuar, mantendo-a conectada, contudo, com praticamente todas aquelas com as quais seja necessário. Isso quer dizer, por exemplo, que apesar desses institutos fazerem pesquisas básicas, suas preocupações são com a transformação de conhecimentos em artefatos tecnológicos. Especializaram-se em produções tecnológicas.

Outro tipo de especialização é decorrente da atuação em uma área propriamente dita. Há instituições especializadas em propaganda e marketing, como a Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), enquanto outras são especializadas tecnologias aeronáuticas, como é o exemplo do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). Nesse rol também poderiam ser adicionadas praticamente todas as faculdades isoladas que atuam única e exclusivamente no ensino. Neste caso, a especialização se dá justamente no foco de atuação, o ensino. Como não fazem pesquisa, extensão, empreendedorismo tecnológico nem inovação, concentram suas atenções e esforços em uma única forma de atuação.

As organizações formais especializadas de EPT, ao concentrar recursos e atenção para uma área determinada, têm a possibilidade de se tornar referências, paramétricas, em relação àquelas não especializadas. Especialização tem justamente esse sentido denotativo: capacidade de adquirir conhecimentos e habilidade de uma forma tal que dificilmente outras organizações não especializadas conseguiriam alcançar. A concentração em um único objeto, por consequência, permite a essas organizações conhecer as diferentes interfaces que estão a ele vinculados, de maneira que podem incorporar os conhecimentos dessas conexões para gerar respostas mais consistentes ao atendimento das demandas de suas áreas de atuação.

Tome-se o caso do ITA, no Brasil. O foco, ali, é a tecnologia de aeronáutica. Para isso, a organização procurou obter e gerar conhecimentos sobre as diferentes áreas do conhecimento que estivessem intrinsecamente relacionadas com o seu foco de preocupação, como física, engenharia aeronáutica, aerodinâmica, negócios e assim por diante. Com o tempo também necessitou vincular áreas mais distantes ao escopo de seu foco, como é o caso das negociações internacionais e diplomacia, para que alguns dos seus produtos pudessem superar desafios mercadológicos que as técnicas normais de negociação não surtiam efeitos.

Organizações especializadas agem assim. O que importa é que os seus produtos estejam em conformidade com as necessidades de suas áreas de atuação e que eles cheguem até o consumidor final, como qualquer organização. Sua especialidade (e especialidades adjacentes) é uma estratégia em que uma das finalidades é ganhar em competitividade ou em institucionalização, considerada esta como o esforço que a organização faz para se tornar imprescindível, essencial, para a sua área de atuação e que deseja, como resultado de seus esforços, ser assim percebida pelos atores sociais (organizações e indivíduos) que compõem aquele ambiente.

Muitas vezes as organizações especializadas de EPT são criadas para aproveitar um nicho de mercado ou suprir necessidades não supridas pelas suas concorrentes ou parceiras. Noutras vezes, contudo, são atores que entram em determinada área de atuação altamente competitiva justamente pelo seu potencial competitivo. Veja um exemplo do primeiro caso: uma organização se instalou em certa mesorregião para capacitar pessoal para a área de saúde comunitária, há muito tempo desejado. Exemplo do segundo caso: uma instituição altamente conceituada, com sedes no Rio de Janeiro e São Paulo, se instalou em Brasília para atuar com gestão pública, espaço geográfico habitado por instituições altamente competitivas. Esta última só entrou naquela arena competitiva devido à especialização em sua área de conhecimento e foco de atuação.

Para finalizar, mas isso não significa que seja o aspecto menos importante, ser especialista é, financeiramente falando, menos oneroso do que ser global. Universidades, por exemplo, têm custos pré-operacionais e operacionais muito mais elevados do que faculdades que operam com um único curso ou institutos centrados na formação técnica de nível médio. Como a estratégia segue a visão de futuro e a missão, ser especialista faz parte do corpo de decisão que as organizações tomam para que cumpram com adequação o seu papel e consigam se institucionalizar.

Daniel Nascimento

É Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)
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