Marcos Apolo Muniz de Araújo, 45, não chegou a ser uma surpresa como o escolhido para ocupar uma das secretarias estaduais mais cobiçadas, a de Cultura, afinal, ele começou a atuar, aos dez anos, no teatro, com o icônico titio Barbosa e há mais de 20 está envolvido diretamente com a secretaria a qual agora é o responsável em traçar os destinos. Em entrevista ao JC, Marcos Apolo contou um pouco sobre sua vida e sua visão de cultura.
Jornal do Commercio: Conte um pouco de sua infância e juventude e quando começou a se envolver com as artes?
Marcos Apolo: O meu pai era mecânico de trator do DER (Departamento de Estrada de Rodagens) e com isso eu viajava pelos interiores do Amazonas com ele, pelos acampamentos que o departamento montava para poder abrir as estradas, pavimentar municípios. Assim, eu conheci boa parte do Amazonas. Aos oito anos, parei em Manaus, onde nasci, para estudar e, aos dez anos, comecei a fazer teatro com o titio Barbosa. Em alguns eu atuava, em outros operava a sonoplastia, ainda em fita cassete com aparelho de som caseiro que a gente montava no Teatro Amazonas. E assim se estendeu toda a minha experiência até o final da década de 1980 quando comecei a conviver com outros artistas, no então Teatro dos Artistas e Estudantes, que hoje é o Teatro Américo Alvarez, e lá comecei a fazer cursos e oficinas. Fui me aprimorando tecnicamente como artista, dando aulas de teatro, sendo animador cultural, animando festas e tudo que era possível fazer no ramo cultural.
JC: Como enveredou para ser humorista no trio Os Birutas?
MA: Em 1987, ainda atuando com o titio Barbosa, eu e o Mário (Cocada), resolvemos fazer uma dupla. Eu tinha 14 anos, a gente começou a fazer umas festinhas de aniversário para poder ter alguma receita e, a partir de então, a coisa foi tomando corpo. As pessoas gostavam. Logo depois, viramos um trio e seguimos com esse projeto até 1997, quando eu passei a integrar o corpo técnico do Teatro Amazonas. Aí eu não consegui mais conciliar. O nome do grupo era esse mesmo, ‘Os Birutas’. Meu personagem era Palito, era um grupo de humor, um grupo de humoristas.
JC: Quando começou a trabalhar na SEC, há 20 anos, imaginou que um dia chegaria a secretário de Cultura?
MA: Eu comecei a trabalhar na SEC, diretamente, em 1998. Antes disso eu já fazia muita coisa para o Teatro Amazonas e alguns serviços esporádicos. Fiquei como funcionário entre 1998 e 2012. Certamente nunca passou pela minha cabeça ser secretário, eu não pensava em ser secretário até a hora de receber o convite. Eu não tinha essa vaidade, não tinha essa pretensão. Mas fiquei feliz com a proposta e a possibilidade.
JC: A secretaria de Cultura é uma secretaria 'espinhosa', já que tem de atender a uma gama de artistas?
MA: Não considero assim. Ao contrário, eu acho que é uma secretaria extremamente complexa, evidentemente, por toda capacidade que ela tem de ação e por todos os equipamentos culturais que abrange, um patrimônio histórico que precisa ser preservado. Em relação aos artistas, vejo que estão lutando pelo seu espaço. Como artista, produtor e gestor cultural, sei que não é fácil. O mais importante é haver um diálogo e a compreensão do que é o papel da secretaria diante de todo esse quadro artístico e cultural do Estado. Eu estou sempre aberto ao diálogo e tenho uma relação muito próxima com todos eles. Isso realmente não me preocupa, ao contrário, eu acho muito prazeroso ter essa relação com os artistas.
JC: Qual sua opinião a respeito da extinção do Ministério da Cultura?
MA: Penso que é ainda muito cedo para dizer de que forma essa reformulação, de transformação em secretaria, impacta na cultura do país. Estou percebendo a manutenção de alguns projetos, o que já permite que a gente continue trabalhando. Eu compreendo que o governo pretende fazer um ajuste dentro da máquina, mas independentemente da nomenclatura, o importante é a sua capacidade de ação e a forma como vai contracenar com as secretarias de cultura. Nós sabemos a força dos artistas e a força que a cultura tem. Certamente, a própria opinião pública não vai permitir que ela seja menor do que aquilo que merece e precisa ser.
JC: Por que os amazonenses usufruem tão pouco da Lei Rouanet? Acha que ela deve continuar?
MA: Certamente, é muito importante. Se você vir os números, perceberá que ela tem um impacto significativo, uma importância enorme para as produções culturais. Evidentemente eu acho justo e correto qualquer tipo de análise cabível para que ela seja executada dentro da lei. Quanto à participação dos amazonenses, a gente percebe que no Amazonas não há política de marketing cultural, de propaganda voltada ao produto cultura. Existem muitos projetos no Amazonas aprovados pela Lei Rouanet, mas poucos conseguem captar recursos. Essa é a grande questão, até porque há muitas grandes empresas instaladas no Estado, mas com escritório no eixo Rio/São Paulo. A base financeira, de decisão, muitas vezes está longe, limitando a autonomia de decidir sobre a adesão aos projetos. Isso é algo que precisa ser estudado, mas acredito que a gente consegue reverter esse quadro e usufruir de tudo que é possível com a Lei Rouanet.
JC: Que eventos culturais podemos esperar para 2019?
MA: Será um ano de construção de um novo alicerce cultural no Estado, baseado em três pilares: potencialização da cultura do interior, diversificação e descentralização da cultura na capital e a valorização do artista amazonense. Apesar de estarmos saindo de uma crise nacional, a economia está, aos poucos, retomando sua capacidade, e, com isso, a gente pode ver um futuro mais promissor. Certamente, tudo que fizermos neste ano vai ser com o objetivo de ampliar as ações para o ano seguinte. Mas podem acreditar na manutenção, com uma reestruturação e reformulação, de alguns eventos já consolidados, como o Festival Folclórico do Amazonas, Festival de Parintins, Carnaval e Festival de Ópera, dentre outras expressões que precisam ser valorizadas. Vamos promover um diálogo próximo aos artistas e, acima de tudo, a valorização de todas as artes e a preservação de algo muito importante, que é o nosso patrimônio histórico. Estamos muito focados nisso para que a gente possa se tornar referência no país no que diz respeito à cultura.







