Carnaval dos manauaras, antigamente, era na rua e cheio de pegadinhas

Em: 21 de fevereiro de 2019
Passaram-se as décadas, mas os brincantes de Carnaval de hoje são como os de tempos antigos
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Passaram-se as décadas, mas os brincantes de Carnaval de hoje são como os de tempos antigos

“Pedimos a polícia providências”. Esse bem poderia ser o pedido de alguém inconformado com as bagunças provocadas por brincantes alterados durante as comemorações do Carnaval em alguma das bandas de rua de Manaus. O pedido é verdadeiro, só que foi feito em 1867 pelo redator do jornal A Voz do Amazonas e se referia aos mascarados que saíam às ruas promovendo o entrudo pelas vilas da província do Amazonas.

Estas e várias outras curiosidades sobre o Carnaval no Amazonas foram descobertas por Fábio Augusto de Carvalho Pedrosa, acadêmico de história e criador do blog História Inteligente, depois de vasculhar em jornais publicados no Estado, entre 1859 e 1905.

“Interessante como muito do que fazemos hoje, já se fazia naquela época, de outra forma, é claro, mas com as mesmas intenções. Em muitos dos casos nos soa engraçado e curioso, como uma crônica publicada dez anos depois, em 1877, por um redator do Amazonas, também inconformado com as brincadeiras: ‘O carnaval com o seo cortejo de folias, caretas e momices, nos bate á porta; mesmo já nos parece ouvir um desconchavado você me conhece, d’algum ratão coberto de trapos e burundangas, cujo espirito o barometro gradua zero’. Até hoje o Carnaval provoca esse tipo de reação em muita gente”, disse Fábio.

Todos anos, em Manacapuru, no Carnaval, acontece a Banda da Maisena, quando uma grande quantidade de pessoas de reúne no Parque do Ingá para… um jogar pó de Maisena no outro. “Em Manaus, após 1850, ocorria nas ruas o entrudo mais popular, uma verdadeira guerra em que participavam tapuios, brancos e escravos, arremessando uns nos outros pó de arroz, trigo, tinta, água, ovos podres e o que tivessem em alcance”, contou. “Até uma lei, a de nº 101, de 08 de julho de 1859, foi aprovada para considerar feriados os dias do entrudo, de segunda a quarta-feira, mas sendo praticado mesmo em outros dias pelos mais afoitos”, completou.

Ou paga, ou vai preso

Até o ano passado, as bandas de rua de Manaus deveriam encerrar às 23h. Este ano, a pedido dos organizadores, elas poderão se estender até meia-noite. Depois disso a ordem é desligar o som alto.

Quanto ao entrudo de fins do século 19, à medida que a população da província do Amazonas foi se ‘civilizando’ devido ao contato mais frequente com a Europa, principalmente com o França e seus bailes de máscaras, a prática foi sendo excluída, ainda que à força das leis.

“Em 1870, na Vila de Serpa, hoje Itacoatiara, o entrudo foi proibido, como ficou estabelecido no Art. 20 do Código de Posturas: ‘Á ninguém é permittido andar pelas ruas e lugares publicos jogando o entrudo, nem das casas lançar cousa alguma sobre os viandantes, sob pena de incorrer cada um dos infractores na multa de cinco mil réis, ou dous dias de prizão’. Penalidades severas, mas não parava por aí”, contou.

“Os escravos que fossem encontrados na rua a partir das 21 horas até o amanhecer, se não estivessem com as autorizações escritas de seus senhores, com a declaração do nome do escravo, seriam presos”, falou.

Manaus só endureceria suas leis dois anos depois, quando o Código de Posturas determinou que: ‘É prohibido andar-se pelas ruas e logares publicos á jogar entrudo ou lançar alguma cousa sobre os transeuntes. Pena de dez mil réis de multa ou tres dias de prisão; Permitte-se as mascaradas e danças carnavalescas, de modo que não se offenda a moral tranquilidade publica e não contenhão allusão as autoridades ou a religião; Pelas ruas, praças e estradas da cidade não transitarão pessoas mascaradas depois do toque de – Ave Maria – salvo os que tiverem para isso licença da autoridade policial. Os infratores incorrerão na multa de cinco mil réis ou dous dias de prisão’.

Ou se brincava direitinho, ou a coisa ‘pegava’. Igual hoje.

Início e fim

Até alguns anos atrás o Carnaval em Manaus encerrava à meia-noite da terça-feira anterior à quarta-feira de Cinzas, mas alguém teve a infeliz idéia de continuar com as festas por mais alguns dias. Naqueles idos anos da segunda metade do século 19, parece que tinha gente também interessada em ficar por semanas, carnavaleando pelas ruas da cidade e foi preciso uma lei para literalmente acabar com a graça.

“A partir de 1879, as festas passaram a ter início e fim, como ficou estabelecido nas alterações no Código de Posturas daquele ano, indo ‘desde a Dominga de Quinquagesima até as 11 horas da noite de terça-feira, véspera de quarta-feira de Cinza’. E com endurecimento nas regras: ‘Todo aquelle que insultar com palavras ou acções á qualquer pessôa, será multado em 20$000 rs ou 5 dias de prisão’. Era Carnaval, mas para os legisladores não tinha brincadeira”, revelou.

“Os Códigos de Posturas já não são mais uma ameaça aos brincantes, mas, assim como o entrudo foi mal visto no passado por parte dos dirigentes e das elites, o Carnaval é alvo da reprovação por parte de alguns paladinos da ‘moral e dos bons costumes’ até os dias de hoje”, concluiu.

 

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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