As padarias do Amazonas não sabem até quando será possível segurar o preço do pão e, principalmente de produtos associados ao segmento e de maior valor agregado. A alta da matéria prima e a aproximação da data do dissídio dos trabalhadores do segmento, somam-se ao fraco movimento dos últimos meses para dilapidar os lucros.
No primeiro trimestre, as 80 empresas associadas ao Sindpam (Sindicato das Indústrias de Panificação e Confeitaria do Amazonas) cresceram 3%, em média, na comparação com os resultados obtidos no mesmo período do ano anterior. Na média brasileira, o segmento amargou quedas de até 9% nos anos de crise, até obter alta de 2,7% em 2018.
O presidente do Sindpam, Carlos Azevedo, ressalta que, embora sirva como termômetro para o setor de panificação do Amazonas, o número de crescimento não reflete inteiramente a realidade da atividade, que hoje conta com 1.400 empresas de variados portes atuando no Estado e um total de 15 mil trabalhadores. Com a diferença de que o incremento de custos afeta a todos.
“Tivemos um leve crescimento nas vendas e trabalhamos com uma meta maior para o ano. Mas, o preço da farinha subiu em torno de 5%. E, como o Brasil não é autossuficiente na produção de trigo, sofremos ainda com as variações cambiais. Outras insumos, como fermento, material de embalagem e energia também ficaram mais caros”, lamentou.
Outro fator de pressão nos custos é o reajuste dos salários do segmento de panificação e confeitaria, programado para 1º de julho. A diferença entre o que é pedido e oferecido, entretanto, é menor neste ano. A categoria pede 5% de reajuste e as empresas oferecem, assim como nos anos anteriores, o correção pelo INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) – que acumulou alta de 4,67%, em março. Em 2018, os salários subiram 3,5%.
Para se defender dos aumentos e não afugentar a clientela com repasse de custos, as panificadoras vêm segurando os preços do pão francês nos últimos anos. Mas, os repasses não pouparam os produtos premium de confeitaria, como bolos, salgados, sonhos e demais itens de maior valor agregado.
“O custo é usualmente incorporado aos preços desses produtos de imediato. No ano passado, não fizemos isso, porque o poder aquisitivo do consumidor estava muito baixo. Vamos ver o que pode ser feito agora”, ponderou o presidente do Sindpam.
Consumo baixo
De acordo com o dirigente, o consumo per capta de pão no Amazonas permanece baixo, quando comparado ao de outros países e regiões. Nações como o Chile, que têm extensão territorial bem menor do que a nossa, consomem 90 quilos por habitante ao ano. No Brasil, esse número cai para 30 e, no Norte e Nordeste, para 27.
Azevedo atribui a fraca elevação das vendas não apenas à resiliência da crise econômica brasileira, mas também a aspectos culturais da região. “O consumidor amazonense de raiz ainda prefere macaxeira e tapioca ao tradicional pão francês. Em países europeus, o pão é presença obrigatória nas mesas dos domicílios”, comparou.
Crise e investimento
O proprietário da Nego Bom – Padaria & Confeitaria, Rodrigo Souza, diz que o crescimento de sua empresa acompanhou a média dos associados do Sindpam no primeiro trimestre, mas ressalta que sua expectativa é crescer pelo menos 5% ao final de 2019.
O diferencial deste ano, segundo o empresário, é que as vendas, que costumam se recuperar só depois do Carnaval, aqueceram no período. Em compensação, a Páscoa esfriou o consumo, já que a clientela preferiu os produtos achocolatados e ficou sem dinheiro para a padaria. Mas, segundo Souza, as vendas mais fracas se devem não apenas à crise, mas ao fato de o cliente estar mais exigente.
“Alguns estão com pouco dinheiro mesmo, mas outros passaram a escolher mais antes de comprar. Tem gente, por exemplo, que vinha aqui todos os dias e agora só vem duas ou três vezes por semana. Alguns costumavam comprar sanduíche e agora passaram a levar frios para fazer em casa”, contou.
Apesar dos reveses de mercado, Rodrigo Souza conta que não se arrepende de ter investido na reforma de sua padaria, há dois anos, embora o retorno não tenha sido o projetado inicialmente. Tanto é que ele já planeja abrir uma filial, nos próximos meses.
“Esperava que o crescimento fosse dez vezes maior do que o conseguido. Mas, se não tivesse investido, as vendas não conseguiriam nem empatar com as do ano passado. Ainda estou estudando o local para a próxima loja. O empresário não pode ficar de braços cruzados, nem mesmo diante das dificuldades econômicas”, finalizou.






