É importante entender as pessoas, diz Kátia Andrade, da ABRH/AM

Em: 20 de junho de 2019
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Em entrevista ao Jornal do Commercio, a presidente da ABRH-AM (Associação Brasileira de Recursos Humanos – Seccional Amazonas), Kátia Andrade, falou da evolução cognitiva do capital humano e dos seus desafios frente à realidade da revolução tecnológica. Além disso, destacou o papel das empresas em buscar transformações para aumentar seu impacto sobre o mercado e aproveitar o potencial do seu capital intelectual.

Kátia de Andrade Barroncas  é doutora em gestão da inovação em biotecnologia, mestre em engenharia da produção e especialista em administração de recursos humanos pela UFAM (Universidade Federal do Amazonas). Professora convidada do MBA FGV(Fundação Getúlio Vargas) e consultora organizacional nas áreas de gestão de negócios, planejamento estratégico e recursos humanos. Vasta experiência no gerenciamento de processos administrativos e de RH em empresas nacionais e multinacionais.  Diretora Adjunta da FIEAM (Federação das Indústrias do Estado do Amazonas) e CIEAM (Centro das Indústrias do Estado do Amazonas) e Diretora Regional de Operações da A.P.O – Planos Odontológicos.

JC – Qual a importância de trabalhar o capital humano frente aos desafios das novas tecnologias?

Kátia Andrade – Toda importância do mundo né. Porque é o capital humano que vai fazer com que a tecnologia produza os efeitos para qual ela foi criada. Toda tecnologia ela tem por traz um ser humano fazendo a programação e dando utilidade a ela, então, se a gente não desenvolve as competências dos profissionais que vão utilizar, e inclusive os usuários, a usabilidade da tecnologia diminui muito.

JC – Fala um pouco da evolução cognitiva do ser humano e como ela se encaixa no contexto digital do mercado.

Kátia –  Quando a gente tem uma revolução tecnológica tão disruptiva como essa que estamos tendo agora as pessoas precisam se adaptar a ela e fazer também uma revolução cognitiva. E o que significa isso? Uma massa grande de pessoas precisam mudar o modelo mental para desaprender aquilo que acham que sabiam, e…deixar espaço para o novo. E o que é o novo? É exatamente toda essa gama de tecnologia de formas diferente de pensar processos, negócios, relacionamentos, metodologias de aprendizado… E hoje, estamos vivenciando iss, tudo está diferente do que agente conhecia, então, quando a gente vivencia um ambiente diferente você precisa reprogramar o seu modelo mental. É isso que a gente chama de revolução cognitiva. Você precisa pensar de forma diferente e se permitir aprender coisas novas e se permitir a olhar o outro que pensa diferente de você para que você consiga aprender, porque se você só se relaciona ou aprende, e vive com pessoas com os mesmos pensamentos que você, você vai aprender sempre as mesmas coisas. Quando o ambiente muda, muda as tecnologias, muda os processos, muda a forma de aprendizagem, muda como nos relacionamos. Se você não se permite conhecer outras fontes de saberes você acaba sendo excluído dentro desse novo momento. Né? Então, se existe uma revolução tecnológica você precisa fazer uma revolução cognitiva para que você possa se adaptar a esse novo momento tecnológico que estamos vivendo.

JC – Como as empresas podem investir nos seus colaboradores para aumentar o potencial deles dentro da realidade da inteligência artificial?

Kátia – Olha… a gente está vivendo um momento de escassez de recursos financeiros também dentro das empresas. Então, tem outras maneiras  da empresa investir no colaborador para que ele possa mudar esse modelo mental. O melhor investimento que ela pode fazer é criar um ambiente propício para aprendizagem

dentro da empresa. As empresas que não permitem erro, não dão voz ao colaborador que está fazendo a tarefa, muitas empresas por serem hierarquizadas, aquele colaborador que é quem está fazendo e está sentido a oportunidade de melhoria naquela tarefa, de repente ele não tem voz e não consegue explanar as idéias dele e também tem medo de falar e ser mal interpretado. Então, quando a empresa transforma um ambiente propício para aprendizagem e para a inovação, e… permitir testagens de outras formas de fazer as coisas. De repente ela pode trazer bons aprendizados para outros colaboradores e para a empresa como organização, que é a organização que aprende. Então se você tem uma cultura organizacional que te permite experimentar o novo, experimentar novas formas de fazer, muito mais facilmente você vai se adaptar a esse novo momento. E assim… conhecimento técnico até tem disponível on line com muitos cursos gratuitos e plataformas de educação corporativa que você acessa online gratuitas ou com preços bastante acessíveis. Mas você acessa informação, se você não tem um ambiente que possa aplicar aquela informação, estruturar e adequar ela a sua necessidade e produzir algum projeto, nunca vai transformar aquela informação em conhecimento. Então, tem muita gente com informação e pouco conhecimento porque não consegue aplicar, e a gente só aprende quando aplica. QUando a gente aplica, a gente faz as testagens, faz as ações, faz a remodelagem, porque nem tudo que funcionou em um lugar vai funcionar no outro, e assim a gente vai lapidando o conhecimento.

JC – Na prática, como as empresas podem se reinventar para aumentar o impacto delas no mercado?

Kátia – Primeiro, como eu falei anteriormente, criando esse ambiente propício para aprendizagem. Porque a empresa estrutura física não é ela que se relaciona com o mercado, quem se relaciona com o mercado são os colaboradores e liderança daquela empresa, ou seja, o capital humano e o capital intelectual que faz com que a empresa dê certo ou não. A estrutura física é importante…. maquinário e tecnologias é importante. Mas, se você não tiver pessoas e lideranças que crie esse ambiente para aprendizagem você não consegue atender as demandas do mercado. Então, o que as empresas devem fazer para ter um impacto positivo no mercado? Primeiro, falar com o mercado e conversar com o cliente. Não pressupor que de repente é isso que o cliente quer e não é, tem muitas empresas que perdem clientes exatamente por conta disso, por achar que sabe sem ouvir a demanda efetiva do cliente. É preciso ter um capital humano e intelectual que consiga responder às demandas do cliente.

JC – Como estimular o conceito de competitividade do colaborador para ele atingir seu potencial no mercado e ajudar a própria empresa?

Kátia – Todo nós temos… todo o ser humano tem um potencial que ele mesmo desconhece, então o papel da liderança é descobrir esse potencial e fazer aflorar esse potencial dando oportunidades para que esse potencial venha a tona. Dando desafios, dando apoio, dando suporte e dando qualificação para esse colaborador. Agora não adianta enviar esse colaborador fazer uma serie de qualificações se dentro da empresa ele não consegue usar e nem aplicar aquilo que ele foi aprender e a empresa pagou. Então, quando o colaborador começa a utilizar e ver o resultado daquilo que ele aprendeu na prática, ele mesmo se motiva a ir buscar mais. Às vezes, até com seus próprio recursos né, porque é apaixonante você aprender alguma coisa que na prática funcionou e viu o quanto era capaz daquilo e não sabia, isso é apaixonante e a pessoa se motiva a ir buscar mais conhecimento. Quando a pessoa vai buscar conhecimento e é tolhida de aplicar esse conhecimento em seu ambiente de trabalho isso acaba frustrando, e a pessoa resiste a buscar novos conhecimentos.

JC – Como conectar esse capital humano com as empresas para promover um novo modelo organizacional frente às transformações digitais do mercado?

Kátia – Esse papel de conexão entre as novas necessidades advindas da revolução tecnológica e a lacuna de competências existentes de colaboradores de empresas A, B e C, de qualquer empresas que existem lacunas de competências – porque o ser humano tem essas lacunas de competências, por isso vamos envelhecer sempre com a necessidade de aprender – o papel de fazer essas conexões é da liderança. Não só as lideranças de recursos humanos, porque elas podem atuar como consultores internos e estabelecer políticas e roteiros, mas quem faz essa conexão do colaborador é sua liderança imediata. Essas lideranças de setor dentro da organização, seja de engenharia, manufatura, de projeto, ou logística, elas precisam estar presentes. Neste momento de revolução tecnológica nunca foi tão importante entender de pessoas, porque as pessoas que vão fazer a diferença nessa revolução tecnológica. A gente precisa trabalhar dentro das organizações como a gente vai humanizar esse ambiente tão tecnol´gico para que as pessoas continuem felizes, continuem produtivas e continuem se sentido desafiadas a cada vez produzir melhor.

JC – Quais as plataformas de negócios para atingir novas profissões e aprendizados?

Kátia –  A gente está cheio de modelos de negócios novos, existem hoje empresas que não têm uma estrutura física e são empresa milionárias. Temos visto vários exemplos de empresas que têm modelagem totalmente das empresas tradicionais que a gente conhece, e são empresas milionários. Então as pessoas que estão nessas empresas têm um modelo mental totalmente diferente do modelo tradicional de carteira assinada, registro de ponto, férias e décimo terceiro. São equipes de profissionais mais autônomas que trabalham com projetos. A gente precisa começar a desenvolver essas competência de ser auto gerenciável. A gente precisa tomar conta da nossa carreira, cada pessoa é uma empresa. Cada vez mais esse modelo está se espalhando no mundo inteiro e vai continuar existindo com modelagem tradicional, mas elas não vão dar conta de gerar tantos empregos assim. Então, as outras pessoas que ficaram fora do mercado de trabalho por algum motivo, principalmente pelo fato das empresas com essas revolução tecnológica, elas otimizam seus processos com muita inteligência superficial e estão automatizada. Antes você precisava de 100 (mão de obra), agora você só precisa de 50. Esses outros 50 precisam  continuar produtivos, ele precisam se recapacitar que eles têm o talento, precisam descobrir qual o melhor talento e o que os deixa feliz fazendo, como vai conseguir uma entrega melhor. Não adianta ver o colega do lado se dando bem fazendo alguma coisa e querer fazer o mesmo, se esse não é o talento dele. Então eu preciso descobrir qual é o meu talento e onde eu vou me inserir onde eu possa fazer uma entrega diferente do que já tem. Qual o meu diferencial competitivo nesse mercado? Aí eu consigo, ou abrindo uma empresa ou sendo um prestador de serviços, ou sendo um colaborador efetivo da empresa e tal, eu tenho que ir com esse modelo mental. O que eu tenho de diferente que eu possa me destacar naquilo que eu escolhi para fazer?

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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