O ministro da economia, Paulo Guedes, e o governo do qual faz parte, é alvo de críticas severas do presidente do Cofecon (Conselho Federal de Economia), Wellington Leonardo da Silva. Titular da autarquia responsável pela fiscalização profissional de 230 mil economistas brasileiros, Silva avalia que o ministro está preso a ideologias abandonadas até mesmo pelo FMI, não dando a devida atenção ao combate ao desemprego e ao empobrecimento do país. Na conversa com o Jornal do Commercio, o economista defende uma guinada completa nas reformas e um papel central do Estado na condução da economia, além de ressaltar que, diante do panorama atual, o Amazonas e a ZFM precisam se reinventar para sobreviver. Leia a entrevista completa, a seguir.
Jornal do Commercio – O ministro da Economia está fazendo um bom trabalho? Onde ele acertou e onde está errando?
Wellington Leonardo da Silva – O ministro Paulo Guedes esta fazendo um péssimo trabalho para o Brasil e para seu povo. Todas as suas promessas se revelaram mentirosas, a exemplo a de que a Reforma Trabalhista e a destruição dos direitos sociais dos trabalhadores frente aos seus empregadores criariam um milhão de empregos. Ele erra ao vender os recursos naturais do país, a exemplo das reservas do pré-sal, da Embraer, das refinarias e gasodutos da Petrobrás, a preço de banana para multinacionais estrangeiras, comprometendo o futuro dos brasileiro e qualquer possibilidade de tornar o país desenvolvido. Até o FMI [Fundo Monetário Internacional] e o Banco Mundial já abandonaram as teses dos “Chicagos Boys”, que ele defende e utiliza.
JC – A propósito do ministro, sua posição em relação à Zona Franca de Manaus tem sido inconstante ao longo do ano, principalmente dependendo do público para o qual ele fala. A que se deve isso, em sua opinião?
WLS – O ministro defende os interesses de empresas, banqueiros e rentistas nacionais e internacionais. Por certo, deve haver interesses de seus patrões em inviabilizar a Zona Franca de Manaus para tornar o Brasil ainda mais dependente tecnologicamente de empresas transnacionais. Quando muda de opinião, dependendo do público, revela tendência a tergiversação para minimizar o desgaste político para o governo.
JC – Os meios de comunicação de maior audiência e circulação, todos situados no Sudeste, costumam apontar “privilégios” na ZFM e perdas para a União, apesar de diversos estudos apontando o contrário. É essa a visão majoritária da opinião pública do Centro-Sul do país? O que fazer para muda-la?
WLS – Considero que esta seja a visão majoritária no Centro Sul do país e que ela se deve a desinformação sobre o que significa a Zona Franca, mas também à postura de algumas dessas empresas que se tornaram apenas montadoras de produtos e ainda não cumpriram seu papel fundamental, que seria desenvolver tecnologia e equipamentos 100% nacionais. Curioso é observar que, em relação aos bancos, suas taxas de juros estratosféricas, seus lucros cada vez maiores, falta de programas de crédito decentes para as empresas e o vampirismo por eles realizado sobre o Produto Interno Bruto brasileiro, via agiotagem praticada em relação ao financiamento da dívida pública, quase ninguém ousa falar que isto constitui inexplicáveis privilégios.
JC – Como diversificar a economia do Amazonas para torna-la menos dependente do modelo ZFM? Fala-se nas potencialidades do turismo, da pesca, da mineração e de outras atividades, mas sempre acabamos esbarrando em problemas políticos e carência de infraestrutura.
WLS – O turismo, a pesca e a comercialização dos produtos típicos da região constituem alternativas importantíssimas para o Amazonas. Para viabilizá-las, sugiro agir como está fazendo o Nordeste. Fundar um consórcio com os demais Estados da região e aproveitar a sinergia derivada de suas vantagens comparativas individuais.
JC – Há muito tempo se fala na necessidade de uma Reforma Tributária para o Brasil. Existe uma reforma “ideal”? Em caso positivo, em que moldes seria e por que ela não saiu até hoje?
WLS – A reforma ideal seria a de caráter progressivo. Ou seja: quem ganha mais, pagaria mais impostos, e os mais pobres seriam isentos. É um absurdo quem ganha R$ 4.664,68 pagar 27,5% de imposto de renda e quem tem R$ 1 milhão aplicados em renda fixa não pagar nada. É preciso taxar as grandes fortunas e as heranças. Em países mais civilizados, o imposto sobre heranças pode chegar até a 50% do valor do bem, a partir de uma escala predefinida. No Brasil, este imposto é estadual e chega, no máximo, a 4%. A reforma não saiu até hoje porque banqueiros, empresários e rentistas querem pagar menos impostos, enquanto a população é sobrecarregada de tributos quando compra farinha, arroz e feijão. O Cofecon coordena o Fórum Nacional pela Redução da Desigualdade, do qual participam mais de 30 entidades e, a partir dele, apoiamos a elaboração de uma proposta denominada “A Reforma Tributária Necessária”, que foi distribuída a todos os parlamentares e tem caráter absolutamente progressivo. Vamos ver a quem de fato eles representam.
JC – E quanto à Reforma da Previdência? Os chamados problemas estruturais do sistema estão sendo corrigidos? Da forma como ela está encaminhada, vai resolver os problemas das contas públicas do país?
WLS – Em primeiro lugar, a denominação correta é “a destruição da previdência pública no Brasil” e não reforma, pois esta dá a impressão de se tratar de algo bom, o que não é o caso. Ela faz parte do processo de precarização da qualidade de vida dos trabalhadores mais pobres e só interessa aos banqueiros, que aumentarão suas vendas de planos de previdência complementar privada e seus lucros de bilhões já atualmente indecentes. Faz parte da estratégia do desgoverno Bolsonaro a difusão de mentiras, tais como a de que o problema das contas públicas será resolvido a partir dela. Ora, vamos falar sério: o problema é derivado dos altos juros cobrados pelos banqueiros para financiá-la, e não da Previdência Social. Aliás, foi descoberto recentemente que sequer cálculos confiáveis foram apresentados pela equipe do “chicago boy” Paulo Guedes. Outra inverdade é a afirmação de que serão criados milhões de empregos. Esta mentira já foi contada na época da Reforma Trabalhista, lembram?
JC – Por falar em contas públicas, qual o papel do Estado no andamento da economia brasileira? Ele deve ser um indutor de desenvolvimento?
WLS – A boa técnica econômica recomenta aos Estados Nacionais a firme injeção de recursos na economia quando se vive uma recessão. Isto porque, neste momentos, só o Estado tem a ousadia de investir para a geração de empregos e desenvolvimento, dado que os empresários não o fazem quando não há garantia de lucro. Sem a criação de empregos que decorreriam destes investimentos do governo, não sairemos da atual situação econômica no Brasil. O desgoverno Bolsonaro faz exatamente o contrário, cortando gastos, inclusive, básicos.
JC – O Brasil caiu mesmo na chamada “armadilha da renda média”? Em caso positivo, como sair dela, quando levamos em conta que o bônus demográfico do país está acabando?
WLS – A chamada “armadilha da renda média” é uma tese levantada por aqueles que pretendem manter os brasileiros ganhando menos de R$ 2.000, em média. Fazem parte desse grupo os defensores da tese de que o salário mínimo de R$ 988 é muito alto. O que devemos corrigir é a enorme concentração de renda no Brasil e no mundo, onde 1% dos mais ricos detém o equivalente à renda total dos 60% mais pobres. Para confirmar isso, recomendo a leitura dos trabalhos elaborados pela Oxfam Brasil. Não há sentido em haver tanta riqueza concentrada nas mãos de poucos, enquanto grande parte da população vive com fome e na miséria.
JC – Qual o papel dos indicadores econômicos? Eles são escassos em regiões como a nossa. Por que isso ocorre e o que pode ser feito para reduzir essa carência?
WLS – Os indicadores econômicos são fundamentais para a análise e a elaboração de política econômica voltada ao desenvolvimento. Deveríamos investir pesado em pesquisa para obtê-los sobre todo o território nacional. Lamentavelmente, o atual desgoverno prima pelo desrespeito à ciência, ao conhecimento, à técnica e à educação, pois sem estes creem ser possível enganar o povo por mais tempo. Trata-se de um desgoverno obscurantista e amante da ignorância.
JC – Quais são os desafios e oportunidades para a carreira de economista no Brasil. Levando em conta as novas tecnologias e o estado de crise permanente do país, o mercado está bom para a profissão?
WLS – Se houvesse um governo sério, este seria um momento excepcional para os economistas, pois estariam buscando soluções, não só para a crise econômica mundial deflagrada em 2008, mas também para o enorme número de desempregados que existirá com a implantação da denominada revolução 4.0. De toda sorte, mesmo com o atual desgoverno, é hora de os economistas brasileiros analisarem nossos problemas atuais e os que virão, e prepararem propostas capazes de superá-los, ainda que no futuro. Isto, por si só, já representa grande desafio e oportunidade para nossos profissionais.
WELLINGTON LEONARDO DA SILVA
IDADE: 59 anos
QUALIFICAÇÃO: Bacharel em Ciências Econômicas pela Universidade Gama Filho, em 1985,
EXPERIÊNCIA: Trabalhou no setor privado de 1977 a 1990 na área de comércio internacional de indústrias dos segmentos têxtil, de maquinaria pesada e de química fina. Atualmente, é consultor em Planejamento Estratégico Situacional e diretor do Sindicato dos Economistas do Estado do Rio de Janeiro. Foi eleito presidente do Cofecon em 2018, e reconduzido ao cargo neste ano. Foi conselheiro da autarquia de 2009 a 2014 e passou pela vice-presidência em 2014.
ÁREA DE ATIVIDADE: Economia






