Nos últimos dias a venezuelana Zaida Marcano, 49, se tornou o assunto principal no meio educacional. Professora de química e biologia do ensino médio, e de metodologia em duas universidades na Venezuela, mestre em investigação educativa e doutora em ciência da educação, Zaina está refugiada no Brasil desde 2018, tentando emprego de professora, mas aqui, seu diploma não valia nada, situação que mudou em outubro passado quando ela se tornou a primeira venezuelana a ter seu diploma revalidado.
“Sou professora há 15 anos. Pouco antes de sair da Venezuela dava aula em dois liceus, de manhã num e à tarde noutro. À noite lecionava na Universidade Politécnica Santiago Mariño”, lembrou.
Pedro Rodrigues, marido de Zaina é engenheiro eletricista; o filho Rainer, 28, engenheiro elétrico; a filha Alejandra, 20, técnica em contabilidade; e o filho mais novo, Regnier, 17, apenas estuda.
“Até 2010 todos vivíamos muito bem na Venezuela. Em 2011 as coisas começaram a mudar. Notávamos que a economia não estava indo bem. Em 2013, com a morte de Hugo Chávez e a subida ao poder de Maduro, a situação piorou a olhos vistos”, contou.
Zaina recorda que a partir de 2015 começou a faltar comida nas prateleiras dos supermercados, sem falar que a inflação fazia com que o dinheiro que ganhavam não desse para comprar os itens que ainda continuavam à venda.
“De 2015 até 2018, quando resolvi sair do meu país, a situação ficou insuportável. Pouco a pouco os meus alunos foram sumindo da sala de aula. Eu chorava junto com eles quando vinham me dizer que não viriam mais porque não tinham nem o que comer em casa”, lagrimou.
Nunca ouvira falar
“Eu, meu marido e meus filhos juntávamos o nosso dinheiro e saíamos de comércio em comércio vasculhando o que ainda restava de comida, mas cada vez tinha menos coisas e tudo era disputado por muitas pessoas”, disse.
Em agosto de 2018, na hora do almoço, Zaida e seus familiares reunidos em torno da mesa, ela falou que chegara a hora de irem embora do país. O marido concordou. O salário da professora, naquela ocasião, era um dólar. Ficou decidido que ela viria na frente, com a filha, e Pedro se encarregaria de vender os bens da família, encerrar a escola dos filhos e vir atrás. E assim foi feito.
Em setembro Zaida se despediu de sua cidade Puerto Ordaz, seguiu para Santa Helena, na fronteira com a brasileira Pacaraima, e rumou para Boa Vista.
“Eu não sabia o que iria encontrar pela frente. Tinha o dinheiro de meu carro, que vendera. Eu e Alejandra usávamos só para comer, o mínimo possível, e nos hospedar em algum quarto”, falou.
“Minha vontade era ir para São Paulo, Brasília ou Curitiba, que eu conhecia através da internet e achava muito bonitas, mas um dia, já em Boa Vista, pelo celular, vi que a próxima cidade era Manaus, que eu nunca ouvira falar. Observei que era uma cidade grande e bonita. Rumamos para cá”, explicou.
Em março do ano passado, já acolhida como refugiada, Zaida mandou chamar o marido e os dois filhos e começou a procurar emprego como professora.
“Fui a muitas escolas, públicas e particulares, mas em todas diziam que eu tinha que revalidar meu diploma, o que eu comecei a fazer”, revelou.
Com o apoio da Acnur (Agência da ONU para Refugiados) e da Associação Compassiva, depois de sete meses de análise do documento, num processo oneroso e burocrático, em outubro, a UEA revalidou o diploma de Zaida, que novamente voltou a procurar emprego como professora. Uma segunda conquista obtida pela venezuelana foi ser contratada pela Unicef e Aldeias SOS como educadora social, atuando atualmente no Pitrig (Posto de Interiorização e Triagem de Manaus), espaço localizado na Torquato Tapajós, que oferece informação, acesso a documentos, vacinas e outros serviços para a comunidade venezuelana na cidade.
Conhecer São Paulo
Em Manaus, o marido e o filho mais velho de Zaida fazem ‘bicos’, a filha trabalha como manicure e o mais novo apenas estuda. A família mora numa quitinete, na Cachoeirinha.
“Nunca havia saído da Venezuela, mas sonhava em conhecer São Paulo. Por enquanto vamos nos firmar, em Manaus. Quero retribuir tudo de bom que me fizeram e à minha família”, avisou.
Somente em 2019, 60 processos de revalidação foram submetidos para análise e estão em andamento, em Manaus. A UEA foi a primeira a dialogar com a Acnur e Compassiva para aceitar processos de revalidação de venezuelanos. A Ufam também conta com uma solicitação de revalidação em tramitação.
“São engenheiros, advogados, médicos, entre várias outras profissões, que deixaram tudo para trás e estão tendo que começar do zero, aqui no Brasil. Eu tenho o título de doutora, mas gosto de dizer que estou sempre aprendendo. Em Manaus, logo que cheguei, tive que vender pastéis na rua para conseguir sobreviver. Tudo isso, para mim, é aprendizado”, finalizou.
O que é o Revalida?
Para obter a revalidação do diploma no Brasil o estrangeiro precisa submeter uma série de documentos junto às universidades públicas, que fazem a análise da equivalência da titulação segundo os critérios educacionais locais. Ao revalidar o diploma, esta pessoa passa a ter condições legais para trabalhar em sua área de formação.






