Aquele impulso make-up gringo, distópico, a bordo do status quo em curso, como é de ver ganhou variante global. Por seu turno, subiu ao palco a citada sátira do ex-ministro Minc amparando-se numa passagem posta em artigo do então senador Cristovam Buarque, publicado em 2000 e de notória repercussão. É que, desafiado ao debate da ousada questão, sustentou o senador que, “como humanista era a favor, assim como era a favor de internacionalizar as reservas de petróleo do mundo, libertando-as de países que arbitrariamente diminuem a extração ou sobem o preço, ou de internacionalizar o capital financeiro global, sujeito a manobras dos especuladores.”
E nessa trilha – quem sabe levantando os olhos aos céus – dizendo como igualmente seria bem aceita a internacionalização dos museus como o Louvre, “guardiões das mais belas peças produzidas pelo gênio humano”. E também de “Nova York, como sede da ONU, e de Paris, Veneza, Roma, Londres e Rio de Janeiro, patrimônios da humanidade, sem se esquecer do arsenal nuclear americano, instrumento perigoso demais para estar sob controle de um só país.”
Nisso, uma enfática refutação catalisando um sai pra lá nas pretensões do clube yankee e associados de toda ordem, no entanto ao redor de uma distante teoria romântica que abraçasse um mundo futuro afastado das soberanias nacionais, como se tudo fosse de todos. Utopia, a se materializar neste corpo celeste que nos abriga, ainda que sem luz nem calor próprios, mas promovidos por uma estrela – o Sol em torno do qual gira – quem sabe um dia, alcançados mil, dois mil anos, ou mais, até aportarmos lá, nos moldes de anônimo poema medieval catalão, que pregava: “No mar, não há teu, nem meu. No mar, tudo é teu, e tudo é meu.”
Sucede, como ainda nada do gênero acudiu o planeta, e nem mesmo é confiável o poema catalão, já que não levou em conta a versejada demarcação dos mares territoriais, o melhor foi mesmo o Independent e Al Gore se terem acalmado, à espera de quando se cumprirem duas premissas, a saber: Primeira, que os estados nacionais sejam extintos. E segunda, que as comunidades, grupos, ou sociedades acaso restantes, passem a professar entre si relações equitativas de toda a ordem. Assim sendo, sabe-se lá tal aconteça, não? Eis a pergunta que não se cala!
Com licença; mas tais lucubrações (termo horroroso, ainda bem que tem um “b” e outras letras no meio, aliviando) não levariam esse idealismo a igualar-se a impulsos similares outros, nada bem sucedidos? Lembra das teorias totalitárias? À frente o comunismo, nada frugal como ele só, que também atenderia ao chamado como uma ideologia política e socioeconômica pretendendo promover a estabilidade de uma sociedade igualitária sem deveres sociais e apátrida, baseada na propriedade comum dos meios de produção. Deixa ver, não é trabalhoso buscar na memória o desfecho, ainda que não alcançado por todos, disque: deu no que deu!
Nem bem como da memória, mas de um acervo de anotações preciosas, colha-se dizeres a seguir. Assim, prega Aldous Huxley, sabe-se escultor de Admirável Mundo Novo e outros fascinantes engenhos literários, verbis:
“A ditadura perfeita terá as aparências da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão sequer coma a fuga. Um sistema de escravatura, onde graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão.”
Mais do mesmo, cabe aditar, verbis: “Um clássico moderno, o romance distópico de Aldous Huxley é incontornável para quem procura um dos exemplos mais marcantes da tematização de estados autoritários, ao lado de 1984, de George Orwell."
Ele mostra uma sociedade inteiramente organizada segundo princípios científicos, na qual a mera menção das antiquadas palavras “pai” e “mãe” produzem repugnância. Um mundo de pessoas programadas em laboratório, e adestradas para cumprir seu papel numa sociedade de castas
biologicamente definidas já no nascimento. Um mundo no qual a literatura, a música e o cinema só têm a função de solidificar o espírito de conformismo. Um universo que louva o avanço da técnica, a linha de montagem, a produção em série, a uniformidade, e que idolatra Henry Ford. Essa é a visão desenvolvida no clarividente romance Huxley.
Ao lado de “1984”, que criticava acidamente os governos totalitários de esquerda e de direita, o terror do stalinismo e a barbárie do nazifascismo, em Huxley o objeto é a sociedade capitalista, industrial e tecnológica, na qual a racionalidade se tornou a nova religião, a ciência é o novo ídolo, um mundo no qual a experiência do sujeito não parece mais fazer nenhum sentido, e no qual a obra de Shakespeare adquire tons revolucionários.
Entretanto, o moderno clássico de Huxley não é um mero exercício de futurismo ou de ficção científica. Trata-se, o que é mais grave, de um olhar agudo acerca das potencialidades autoritárias do próprio mundo em que vivemos. Como um alerta de que, ao não se preservarem os valores da civilização humanista, o que nos aguarda não é o róseo paraíso iluminista da liberdade, mas os grilhões de um admirável mundo novo.”
De pensar, é hora de dar a palavra ao igualitarismo que, sabe-se, busca promover a igualdade de direitos entre todos os membros de uma sociedade. A rigor, direitos e deveres, tudo igualzinho. Mas, o que dirá o cotidiano que sempre se queda submisso ao que se impõe a ele? Quer dizer, esse boa praça, solícito, nutrido apenas do que se lhe der de ocupação, repita-se, obrigado a essa circunstância acaba tendo um modo distinto de agir, único numa quase não forma de repouso e ausência de ansiedade, restando então o mesmo reflexo no viver. Não se sabe se a abordagem restou bem clara, já que o articulista sempre manteve íntima proximidade com o cotidiano, chegando a tirar liberdade, às vezes. Revele-se que em geral não o leva à sério, e pronto! (Continua).
*Bosco Jackmonth é advogado de empresas (OAB/AM 436). Contato: [email protected]






