Segundo reportagem da revista Época, número 513 de março passado, a Polícia Federal deflagrou 216 operações entre 2003 e 2006. Crimes cometidos no Amazonas, Pará e Rondônia, aparecem, com igual participação, como atores principais de pelo menos 21 das investigações da PF. Os Estados de Roraima, Amapá, Acre e Tocantins também têm aparições de destaque no cenário da bandidagem nacional. Fazendo, portanto, um cálculo por alto, no mínimo 10% de toda a ladroagem praticada no país é proveniente da região Norte. Tem caboclo querendo ser doutor a qualquer custo.
Os campões de audiência, naturalmente, estão no centro econômico do Brasil, o eixo Centro-Sul, parque de diversões para fraudadores, sonegadores e golpistas de toda natureza. São Paulo e Rio de Janeiro lideram o ranking, pois pelo menos 25 esquemas ilegais foram desmantelados nos dois Estados, no mesmo período.
Tudo isso parece análise do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Deveria, a medida que ser corrupto torna-se uma atividade econômica lucrativa, pois o país perde, a cada ano, cerca de 5% do seu PIB (Produto Interno Bruto) com os impactos da corrupção, R$ 130 bilhões, de acordo com estudo feito pelo economista Marcos Fernandes, professor da FGV (Fundação Getulio Vargas). Segundo Fernandes, o Brasil poderia crescer dois pontos percentuais a mais todos os anos, caso não fosse a doença da negociata ter sido impregnada na alma das organizações públicas e privadas dessa terra de gente impune.
Impunidade é a conclusão óbvia a qual se chega quando feito o balanço de quanto foi surrupiado da população em relação ao número de punidos. Ainda segundo a reportagem de Época, entre 2003 e 2006, R$ 18 bilhões foram usurpados do governo federal, Estados e municípios. Conforme estimativas da própria PF e do Ministério Público Federal, até que fossem pegas, as quadrilhas descobertas pela polícia nas operações movimentaram cerca de R$ 50 bilhões, enquanto R$ 298,7 milhões foram apreendidos das mãos dos bandidos entre jóias, pedras preciosas e dinheiro. Mas depois de tudo, dos 3.712 detidos nas investigações, 432 foram condenados e apenas 265 ficaram presos. De lá pra cá é possível que os ótimos advogados da elite ladroeira tenham mostrado seu valor e alguns já estejam dando o ar da sua graça por aí.
Então, o discurso não é mais “quem vai pagar por isso?” Quem paga sempre somos eu, você, o João, a Maria… porque o dinheiro tirado do brasileiro significa menos investimentos nas áreas da saúde, segurança, educação e moeda roubada contribui para manter a alta carga tributária, calcanhar de Aquiles do consumidor e das empresas nacionais. A pergunta agora é: como curar essa doença social?
Leis mais rigorosas ajudariam no combate à corrupção, dizem alguns. Leiga, brasileira e indignada, eu simplesmente diria que o cumprimento das existentes já seria de grande valia. O rigor da lei é claro, mas a aplicação dela é deficiente, pois o sistema jurídico está contaminado pela burocracia, pelo sucateamento (não no nível dos magistrados que ganham muito bem, obrigado) e, muitas vezes, pelo próprio vício do favorecimento em troca de miúdos ou graúdos, como é fácil acompanhar nas manchetes dos jornais.
O buraco além de ser mais em baixo é mais profundo. Especialistas apontam para uma série de ações cujo provável resultado seria o controle eficaz do Estado brasileiro sobre as verbas públicas. Entre elas está a transparência – os governos deveriam deixar o cidadão ciente do planejamento orçamentário, com base na visibilidade das licitações. A internet mostra-se como ferramenta importante, mas ainda mal aproveitada nesse sentido. Lembrando: o contribuinte deve tomar para si a responsabilidade de posse e passar a ter o hábito de fiscalizar a ferramenta estatal.
Outra medida seria investir em gestão. A principal característica do serviço público brasileiro, em todos os níveis, é o descaso com o cidadão. Esse é um reflexo de profissionais desqualificados, mal remunerados, e, em
Corrupção, atividade econômica lucrativa
Em: 4 de abril de 2008
Segundo reportagem da revista Época, número 513 de março passado, a Polícia Federal deflagrou 216 operações entre 2003 e 2006.
Redação
Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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