A guerra no fim do mundo

Em: 15 de janeiro de 2026

A operação militar que resultou na captura e extração do presidente Nicolás Maduro da Venezuela marcou um dos episódios mais dramáticos da geopolítica sul-americana das últimas décadas. Independentemente do juízo de valor sobre a legalidade ou a legitimidade da operação militar, o fato é que se tratou de uma vitória tática de Donald Trump contra o regime bolivariano. Em um único movimento, Washington conseguiu decapitar o comandante do regime chavista, o seu presidente, enfraquecer a influência russo-chinesa em Caracas e reabrir, sob novas condições, o acesso ao mercado das maiores reservas de petróleo do mundo.

Como quase sempre na história, a ação militar não foi um fim em si mesmo, mas um instrumento a serviço de objetivos político-diplomáticos amplos.

A política das grandes potências raramente se orienta por princípios abstratos. Ela opera, antes de tudo, segundo uma lógica de poder hegemônico, na qual Estados fracos são frequentemente sacrificados no tabuleiro de disputas regionais e globais. O que torna esse tipo de intervenção possível não é apenas a vontade das potências, mas a vulnerabilidade estrutural dos países-alvo: dependência tecnológica, isolamento diplomático, fragilidade econômica e baixa capacidade de dissuasão. Quando essas variáveis se combinam, a soberania torna-se uma ficção jurídica diante da força bruta e do imperativo bélico.

Nesse sentido, a Venezuela de Maduro era um caso clássico de Estado geopoliticamente exposto à agressão. Submetido a sanções prolongadas, isolado de boa parte do Ocidente e cada vez mais dependente de Rússia, China, Irã e, em menor grau, de Cuba, o regime chavista sobreviveu menos por sua força intrínseca do que pela fragmentação do sistema internacional e pela cautela de seus adversários. Quando essa equação mudou, o regime revelou sua real limitação estrutural.

Do ponto de vista militar, a Venezuela possui um aparato numericamente relevante, mas operacional e tecnologicamente limitado. As Forças Armadas Nacionais Bolivarianas (FANB) contam com algo entre 120 e 125 mil militares ativos, distribuídos entre Exército, Marinha, Força Aérea e Guarda Nacional Bolivariana. A isso se soma a Milícia Nacional, oficialmente inflada a milhões de integrantes, mas que, na prática, funciona mais como instrumento de mobilização política e controle territorial policial do que como força de combate convencional.

O arsenal venezuelano reflete o ciclo de grandes compras realizado entre 2000 e 2013 (período de Hugo Chávez e do boom do petróleo venezuelano), sobretudo de equipamentos de origem russa, como caças Sukhoi, sistemas de defesa aérea, blindados e armamentos leves. No papel, trata-se de uma força militar respeitável; na realidade, sanções, escassez de peças de reposição, degradação logística e perda de pessoal qualificado corroeram profundamente sua capacidade de operar em um cenário de guerra moderna. O resultado é um poder militar essencialmente defensivo, politizado e estruturalmente frágil: grande demais para ser ignorado, mas fraco o suficiente para sustentar um conflito prolongado contra uma superpotência como os Estados Unidos.

Esse aparato não existia para projetar poder regional, muito embora as ameaças à Guiana fossem constantes por conta do território de Essequibo, mas principalmente para garantir a sobrevivência do regime. A lealdade política das forças armadas — comprada por privilégios, controle sobre atividades econômicas e imunidades — é ainda o verdadeiro pilar do regime bolivariano, e por isso mesmo Trump ainda o considera um poder legítimo nas negociações diplomáticas.

O papel do Brasil nesse processo tampouco pode ser ignorado. Paradoxalmente, foi justamente o Palácio do Planalto — tradicional mediador e defensor do princípio da não-intervenção em assunto internos — que contribuiu decisivamente para o isolamento diplomático de Caracas. O breve ensaio de reaproximação no início do governo Lula III deu lugar à desconfiança aberta após as eleições venezuelanas. Ao exigir a apresentação das atas eleitorais como condição para reconhecer o resultado e, sobretudo, ao vetar o ingresso da Venezuela no BRICS+, o Brasil sinalizou que o regime de Maduro havia ultrapassado uma linha vermelha do ponto de vista da sua legitimidade. A partir daí, Caracas deixou de ser apenas um problema ideológico e passou a ser, também, um problema de credibilidade institucional no subsistema sul-americano liderado pelo Brasil. Tal como Pôncio Pilatos, Lula lavou as mãos.

O desfecho que se seguiu — a intervenção estrangeira e a queda forçada de Maduro — é a culminação trágica de um processo mais longo: o da erosão gradual da soberania venezuelana, corroída por má gestão, autoritarismo e dependência externa, principalmente de potências distantes da região sul-americana. A guerra, nesse caso, não começou com mísseis, mas com o esvaziamento das capacidades do próprio Estado venezuelano de resguardar o seu aparato de defesa.

Em A Guerra no Fim do Mundo, romance sobre o conflito de Canudos que inspira a letra deste artigo, Mario Vargas Llosa escreve: “Um dia a palavra pátria vai desaparecer (…). As pessoas vão olhar para trás, para nós, cercados de fronteiras, matando-nos por causa de linhas nos mapas, e dizer: como eram estúpidos”. Enquanto esse dia não chega, o mundo segue organizado em Estados desiguais, alguns condenados a viver sob a ilusão da soberania, outros com poder suficiente para violá-la quando lhes convém. A tragédia venezuelana, como a de Canudos em outro século, lembra que, no fim, os que mais pagam o preço dos grandes conflitos não são os estrategistas que movem as peças, mas as populações que vivem sobre o tabuleiro. Não nos esqueçamos que o sacrifício de Antônio Conselheiro também foi o de seu povo.

*é cientista político.

Breno Rodrigo

É cientista político e professor de política internacional do diplô MANAUS. E-mail: [email protected]
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