Bosco Jackmonth*
Continuando por ora este assunto, posto em inúmeros textos aqui nesta mesma estação de escritos semanais, resta anotar que, no entanto, tão logo a tecnologia permitir a reengenharia das mentes humanas, o Homo sapiens vai desaparecer, a história humana caminhará para seu fim, e um tipo de processo completamente novo vai surgir, incompreensível para pessoas comuns. Muitos estudiosos tentam prever qual seria o aspecto do mundo em 2010 ou em 2200. É uma perda de tempo. Qualquer previsão, para ser válida, deve levar em conta a capacidade de reengenharia das mentes humanas, e isso é impossível. Há muitas respostas sensatas para a pergunta: O que as pessoas com mentes esclarecidas fariam com a biotecnologia?” Porém, não há boas respostas para esta: “O que seres com um tipo diferente de mente fariam com a biotecnologia?” Tudo o que podemos dizer é que pessoas normais provavelmente usariam a biotecnologia na reengenharia das próprias mentes e que nossas mentes atuais não conseguem captar o que pode acontecer depois.
Os detalhes, ainda que sejam obscuros, podemos ter uma noção correta da direção geral da história. A propósito, no século XXI, o terceiro grande projeto da humanidade será adquirir poderes divinos de criação e destruição e elevar o Homo sapiens à condição de Homo deus. Esse terceiro projeto obviamente engloba os dois primeiros e é por eles alimentado. Queremos ter a capacidade de fazer a reengenharia de nosso corpo e mente acima de tudo para escapar à velhice, à morte e à infelicidade, mas, uma vez dispondo disso, o que o que mais poderíamos fazer com tal capacidade? Assim, bem podemos pensar que a nossa agenda humana na realidade consiste em um único projeto (com muitos ramos): alcançar a divindade.
No decorrer da história acreditou-se que a maioria dos deuses não era onipotente, mas possuía supercapacidades específicas, tais como a de projetar a criar seres vivos; transformar o próprio corpo; controlar o meio ambiente e o clima; ler mentes e se comunicar à distância; movimentar-se a velocidades muito altas e obviamente escapar da morte e viver infinitamente. Os seres humanos estão tratando de adquirir todas essas capacidades, e outras mais. Certas aptidões tradicionais, que durante milênios foram consideradas divinas, tornaram-se tão comuns que quase não pensamos nelas. Hoje, uma pessoa mediana se move e se comunica a grandes distâncias com muito mais facilidade do que antigos deuses, hindus ou africanos. Por exemplo, o povo Igbo da Nigéria acredita que no início Chukwu, o deus da criação, quis as pessoas imortais. Ele mandou um cão dizer aos humanos que deveriam borrifar o corpo dos mortos com cinzas e com isso o corpo voltaria à vida. Infelizmente o cão estava cansado e demorou-se no caminho. O impaciente Chukwu enviou então uma ovelha, dizendo-lhe que se apressasse em levar essa importante mensagem. Mas quando chegou a seu destino, a ofegante ovelha confundiu as instruções e disse aos humanos que enterrassem seus mortos; por essa razão a morte tornou-se permanente. Por isso, até hoje nós humanos temos de morrer. Se Chukwu, em vez de se valer de cães morosos ou ovelhas obtusas para transmitir suas mensagens, ao menos tivesse uma conta no Twitter! Em antigas sociedades agrícolas, a maioria das religiões não girava em torno de questões metafísicas e do pós-vida, mas da mundana questão da produção agrícola. Assim, o Antigo Testamento nunca promete nenhuma recompensa ou punição após a morte. (Continua)
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É advogado empresarial (OAB/AM 436.) [email protected]






