Ambiguidades

Em: 29 de janeiro de 2023

Daniel Nascimento-e-Silva, PhD

Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)

A ambiguidade é um problema sério nas publicações constantes de periódicos científicos brasileiros. Ela, de fato, é a manifestação exterior do desconhecimento de autores e editores das regras elementares de redação científica. É fato que são menos comuns nas áreas chamadas pesadas, hard, como as engenharias e física, talvez devido ao grande peso auferido a elementos não discursivos. Realmente, esses elementos, como fórmulas e equações, cumprem o papel obrigatório das explicações e exemplificações, que quase sempre estão ausentes dos textos de outras áreas, predominantemente nas chamadas ciências humanas. Se são exteriorizações, é provável que a mente do autor que usa e abusa da ambiguidade também seja assim, imprecisa, especulativa, instintiva. De uma forma geral pode-se tomar a ambiguidade como uma recusa inconsciente à clareza, precisão e compreensão exata do que se quer comunicar. O termo inconsciente é decorrente da alta probabilidade de desconhecimento da regra da ciência e da ignorância acerca da detectação de frases, orações, períodos e parágrafos ambíguos. A consciência da ambiguidade, por outro lado, é uma obrigação das redações literárias como romances, contos, crônicas e principalmente na poesia. Grandes autores nestas produções são mestres na arte da ambiguidade.

O grande desafio de quem quer publicar em periódicos científicos de alto impacto é escrever de uma forma tal que haja apenas um único entendimento do que é escrito. A ambiguidade, por outro lado, é a arte de escrever de uma forma tal que múltiplos entendimentos sejam possíveis. Na ciência, portanto, a ambiguidade é inadmissível porque não permite que o leitor compreenda o que está sendo transmitido de uma maneira tal que seja capaz de reproduzi-lo ou aferir sua validade. Vale dizer que um dos objetivos do entendimento é a reprodução do que o texto científico explica. A leitura científica não é informativa e muito menos formativa. Ela visa sempre ao manuseio, à operação. Produções científicas são, portanto, matérias-primas utilizadas para gerar outros produtos, outras produções científicas ou produções tecnológicas. Se o entendimento não é exato, da mesma forma que as tecnologias ficam comprometidas, novos conhecimentos serão também contaminados com a inadequação da compreensão.

A multiplicidade de possibilidades de compreensão começa com a escolha das palavras utilizadas na composição das orações. (Os cientistas não trabalham com frases que não tenham verbos. Aliás, a falta de verbo é uma origem de ambiguidade.) Palavras como desenvolvimento e seus derivados são extremamente ambíguas e precisam ser evitadas. A não ser, naturalmente, que venham acompanhadas do sentido exato em que são utilizadas no texto. Esse sentido não pode mudar, para não romper a regra da definição conceitual e constitutiva de variável.

A ambiguidade aumenta com as chamadas frases de valor ou juízos valorativos. Termos como bom, ruim, fraco, muito forte, pouco atraente, bonito, feio e assim por diante são extremamente imprecisos, incompreensíveis. Ainda que venham acompanhados de explicações e exemplificações, a multiplicidade interpretativa ainda permanece. A estatística utiliza alguns valores padronizados, como é o caso das correlações, que podem ser baixas, medianas, altas e muito altas. Mas este é um caso raro de consenso da comunidade científica.

Orações ou grupo de orações soltas (orações coordenadas ou subordinadas). O exemplo mais corriqueiro desse tipo de ambiguidade são os famosos e muito comuns parágrafos com um único período. Parece que quem escreve dessa forma é quem lê muito os jornais populares atuais, aqueles jornais de fofocas, ou quem lê as mensagens de internet. Esses exemplos são compostos de mensagens curtas, com duas ou três linhas. Quem quiser entender alguns dos sentidos de um parágrafo precisa ler o parágrafo seguinte e ter a sorte de estarem relacionados. Mas quase sempre é o leitor que tem que inventar o sentido para o parágrafo. Esse costume crítico, infelizmente, é muito comum em dissertações e teses de quem tem baixo conhecimento científico.

Uma fonte de ambiguidade que tem crescido muito nos últimos anos é originária do que se chama de criticismo. São textos que se pretendem críticos, ainda que não façam ideia do que isso quer dizer. Geralmente começam com uma afirmativa vaga, própria ou de um autor idolatrado, e depois sofre uma ruptura brusca, deduzindo ou inferindo coisas que nada têm a ver com a afirmativa. É algo mais ou menos assim: “Água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Por isso, é uma grande covardia comer banana com tucupi de madrugada, a não ser que o sacogrudo esteja tenso”. A ideia de crítica, para esses autores, é quase sempre sinônimo de falar mal ou denegrir alguém ou alguma coisa, coisa se a ciência admitisse isso.

A subjetividade é, talvez, a grande causa das ambiguidades. Aqui há uma inversão das coisas: ao invés do autor falar do comportamento do fenômeno da realidade, passa a falar de sua impressão sobre o fenômeno. Ele quase sempre não percebe que está descrevendo o seu pensar e não o comportamento da realidade da coisa. Em síntese, ele fala dele mesmo (sujeito) e não do objeto do conhecimento. Se estiver irado, a ira vai aparecer no texto, encoberta ou declarada; se estiver feliz, é a felicidade que tomará esse lugar.

Alguém poderia argumentar com toda razão que é praticamente impossível um texto sem alguma ambiguidade. É difícil não concordar com essa posição. A linguagem humana ainda é muito insuficiente para dar conta da coisa-em-si, para utilizar um termo kantiano. Contudo, o domínio das regras da ciência e a habilidade constante redacional reduzem essa deficiência a um ponto tal que as comunicações científicas podem ser feitas sem ambiguidades comprometedoras da compreensão da descoberta e suas comprovações.

Daniel Nascimento

É Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)
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