Amor platônico (3ª parte)

Em: 24 de junho de 2025

Quinze anos se passaram desde aquele primeiro dia de aula. Eu já não era mais o menino de doze anos com o coração disparado.
Agora, formado em Letras, dava aulas em uma escola pública no interior do Amazonas, onde o som da chuva competia com a voz dos estudantes.
O tempo me ensinou muitas coisas, mas algumas lições continuam marcadas como tatuagens invisíveis no meu peito.
Numa tarde chuvosa de março, fui convidado para participar de um congresso sobre Educação e Afetos, tema que, para mim, fazia todo sentido.
Falei sobre como o carinho e o respeito constroem pontes entre alunos e professores, sobre como a escola é, muitas vezes, o primeiro lugar onde a gente aprende a se conhecer.
Depois da minha fala, enquanto eu organizava meus papéis, ouvi uma voz que parecia vinda do passado:
— “Muito bonita a sua palestra. Sensível, inteligente, direta e apaixonada”.
Virei lentamente. E lá estava ela. A minha primeira professora de Ciências.
O tempo tinha passado, sim, mas ela ainda carregava aquele mesmo olhar firme e doce, como quem lê o mundo com paciência.
Estava diferente, claro, alguns fios de cabelo grisalhos, óculos de armação discreta, um sorriso mais calmo. Mas era ela.
— “Professora!”, eu disse, com um entusiasmo quase juvenil.
— “Agora é você quem ensina, não é?”, respondeu ela, rindo.
Conversamos por longos minutos. Relembramos histórias, rimos das travessuras da turma, falamos sobre a importância dos professores na formação emocional dos alunos. Em algum momento, ela disse:
— “Você tinha um olhar sonhador. Lembro bem. Era bonito ver alguém tão novo se apaixonar pelo conhecimento”.
Sorri.
“Será que ela não desconfiava que aquele amor aos estudos tinha nome, perfume e voz?” — pensei com os meus próprios botões:
Antes de irmos embora, ela colocou a mão no meu ombro, do mesmo jeito que fizera anos atrás, e disse-me:
— “Você se tornou um homem bonito e inteligente. Platão ficaria orgulhoso”.
Despedimo-nos com um abraço cheio de afeto e respeito. Não havia mais confusão, nem desejo escondido. Apenas a certeza de que aquele amor platônico, nascido entre carteiras escolares e folhas de caderno, havia me moldado.
Hoje entendo que alguns amores não vêm para ficar, mas para revelar quem somos. Eles não precisam de promessas nem de finais felizes, bastam-se naquilo que despertam em nós.
E, se nunca mais nos falamos, é porque já havíamos cumprido nossa missão: ser uma presença formadora na ausência, um afeto que não prende, mas ensina que amar também é permitir que o outro siga seu próprio caminho.
Por fim, nunca mais cruzamos os mesmos caminhos, mas, vez ou outra, seu nome surgia no canto de uma boa e saudável lembrança, como quem acena de longe, sem querer atrapalhar o curso da vida. E isso bastava.

Luís Lemos

É filósofo, professor universitário e escritor, autor, entre outras obras, de "Filhos da Quarentena: A esperança de viver novamente", Editora Viseu, 2021.
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