Muitas vezes imagino o que seria de escritores famosos se não fossem suas cidades natais? Sim, porque observando a obra de alguns deles vejo tomarem o território que conhecem perfeitamente, transpondo-o para o papel em palavras poéticas ou em narrativas dando-me a impressão que o binômio terra-escritor possuem uma sinergia tal para instigar a inspiração gerando obras-primas. Existem cidades tão ligadas a obras de determinados autores que a paisagem real perde força frente a intensidade da literatura. Se não vejamos: José Saramago o escritor português e prêmio Nobel de literatura em 1998, em seu livro “Minha Aldeia”, faz uma viagem literária ao seu torrão natal. Num dos trechos mais ternos diz “…o menino que fui gozou de tempo para pisar no barro do solo de Azinhaga e para receber dele indelevelmente a marca da terra”. “…Já não existe a casa de meus avós, mas graças ao poder da memória posso levantar suas paredes, plantar a oliveira que dava sombra, abrir e fechar a cancela da horta, ir à cozinha e tomar água do pote de esmalte e dizer à minha avó: Vou dar uma volta por ai!”. Fernando Pessoa também português diz sobre a cidade que inspirou sua busca de liberdade: “Ó amargura revisitada,Lisboa de ontem e de hoje! / Nada me dais, nada me tirais, nada que eu sinta, sois”. Miguel de Cervantes em seu “Don Quijote” passeava por toda Castilla de La Mancha mostrando ao mundo os contornos do solo natal. Marcel Proust no “Em busca do tempo perdido” apresenta Paris e nela coloca suas paixões por Albertina e a dor de seu abandono. Praga, impregnou todos os escritos personalíssimos de Franz Kafka. James Joyce exibiu ruelas, restaurantes e odores de uma Dublin numa perigrinação literária guiada por Leopoldo Bloom – “Ulisses”. Na América Latina, Otávio Paz retratou seu México num olhar lírico com reflexões políticas. Jorge Luis Borges exibiu uma Buenos Aires com seus tangos, arrebaldes e boemia. Gabriel Garcia Marques em “Gabo” (1927) mostrou estórias do calor caribenho colombiano, seus bananais e o seu povoado Aracataca. Rosalia de Castro poeta gallega (Espanha) símbolo da Galícia em seus “Cantares Gallegos” fala: “Adiós, gloria! Adiós contento! / Deixo a casa onde nacín / deixo a aldea que conoso / por un mundo que non vin / Xá se oie lonxe / moi lonxe / as campanas do Pomar; para mim; ai! Coitadiño / Nunca mais han de tocar…” Jorge Amado, para apresentar um dos exponenciais brasileiros louvou sua Bahia como ninguém. Agora regionalmente falando, citarei dois que tiveram certos pontos em comum: Álvaro Maia e Plínio Ramos Coelho ambos falecidos. Os dois foram escritores de relevo e também foram governadores do Amazonas. Demonstraram através da pena certos anseios, certezas, e sentimentos diversos dirigidos ao Amazonas e a sua capital. Mas há um outro ponto em comum, entre os dois que minha ótica do sentimento propõe-se a enxergar: Tinham o igarapé de Manaus a seus pés. Visto das portas e janelas abertas do Palácio Rio Negro. Esse mesmo, que foi berço de seus governos e presenciou o glebarismo da “Canção de Fé e Esperança” de Álvaro Maia. Esse mesmo que por certo inspirou a poesia plangente, mas decisiva de Plínio Coelho nos anos pós-governo em “enchente”. “Nas margens dos igarapés das cidades / palafitas, pernas e pés / de casas sobre esterqueira e turistas fazem fitas / mas que cegueira! / Na várzea queremos criar / esquecendo os meses d’água / Certo é plantar! No igarapé: decisão! Indo que causando mágoa / Casas no chão! / …Na cidade o saneamento / civilizará a margem / Alagação?” O Palácio Rio Negro que serviu de berço aos seus governos, também velou seus corpos. A cidade desses dois poetas continua aí, viva, palpitante, em pleno século XXI. Mas, carente das Canções de fé e de esperança”. E à espera do ressuscitar os igarapés. Porque para ti manauense legítimo, nunca haverá outra terra ou outro rio. A cidade irá sempre em ti. Seja que destino for. Ah! Esses escritores de hoje não precisariam desses titulos “modernosos” que agora os pós-pândemicos inventaram. Hieróglifos cuja pequena sigla tem poderes de torná-los melhores. para serem longevos basta ter espiritualidade, fé genuína! (continua…
CARMEN NOVOA SILVA, é Teóloga e membro da Academia Amazonense de Letras e da Academia Marial do Santuário Nacional de Aparecida-SP















