Confiança do comércio nacional recua ao nível da pandemia, mas Manaus ainda resiste

Em: 8 de outubro de 2025

A confiança do empresário do comércio brasileiro sofreu um forte abalo em setembro, retornando ao patamar observado nos primeiros meses da pandemia de Covid-19. O Índice de Confiança do Empresário do Comércio (ICEC), calculado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), caiu 5% no mês e atingiu 97,2 pontos — abaixo da linha dos 100 que separa otimismo de pessimismo. Trata-se do menor nível desde maio de 2021, o que sinaliza uma inversão de humor no setor varejista e um alerta para o desempenho do consumo no último trimestre do ano.

Em contraste, o levantamento realizado pela CNC para a capital amazonense mostra que o ICEC de Manaus encerrou setembro em 114,6 pontos, ainda acima do limiar do pessimismo. O resultado representa queda de 1,4% em relação a agosto, mas indica que o comércio local mantém uma margem de confiança positiva. A diferença de trajetória entre o índice nacional e o regional sugere que, embora o ambiente econômico adverso atinja todo o país, o empresariado manauara demonstra maior resiliência diante das incertezas macroeconômicas.

O contraste revela nuances importantes. Enquanto a confiança nacional mergulha em terreno negativo, afetada por juros altos e desaceleração da renda disponível, o comércio de Manaus parece se apoiar em fatores locais, como o fluxo de turismo regional, a retomada gradual de setores ligados à Zona Franca e um padrão de consumo mais estável. Mesmo assim, o otimismo local é cauteloso: os indicadores de condições atuais caíram (-5,7%) para 87,5 pontos, sinalizando que os empresários reconhecem as dificuldades do presente, embora mantenham expectativas mais elevadas para o futuro próximo.

Nos dois casos, o padrão estrutural é o mesmo: deterioração nas condições atuais, retração moderada nos investimentos e otimismo contido nas expectativas. No cenário nacional, as expectativas recuaram 7% em setembro, enquanto em Manaus elas aumentaram em 0,9%, alcançando 145,7 pontos. Isso demonstra que, embora os empresários manauaras percebam os desafios, ainda acreditam em recuperação no médio prazo, especialmente com a aproximação das vendas de fim de ano. O diferencial de confiança pode refletir, também, a menor exposição da economia local a oscilações do crédito e a dinâmica mais autônoma do varejo regional.

Do ponto de vista macroeconômico, os dados reforçam que a política monetária ainda exerce peso expressivo sobre o comércio. A taxa de juros segue alta o suficiente para conter o crédito e o consumo. No plano nacional, isso reduz o ímpeto de expansão e investimento; no plano regional, impõe cautela. É provável que, caso a demanda continue enfraquecendo, os sinais de desaceleração que hoje aparecem com maior força no Brasil acabem se refletindo, com algum atraso, também em Manaus e no restante do Amazonas.

Em síntese, o Brasil vive um momento de inflexão na confiança empresarial. A reversão do otimismo, após mais de dois anos de recuperação, exige vigilância e resposta coordenada. Se o país quer preservar o avanço do comércio e do emprego, será necessário acelerar a queda dos juros, estimular o crédito produtivo e reforçar políticas regionais que sustentem o poder de compra das famílias. Manaus mostra que ainda é possível resistir, mas a resistência tem limites: sem melhora concreta nas condições econômicas, até mesmo as ilhas de otimismo podem perder fôlego.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
Pesquisar