A confiança do empresário do comércio brasileiro sofreu um forte abalo em setembro, retornando ao patamar observado nos primeiros meses da pandemia de Covid-19. O Índice de Confiança do Empresário do Comércio (ICEC), calculado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), caiu 5% no mês e atingiu 97,2 pontos — abaixo da linha dos 100 que separa otimismo de pessimismo. Trata-se do menor nível desde maio de 2021, o que sinaliza uma inversão de humor no setor varejista e um alerta para o desempenho do consumo no último trimestre do ano.
Em contraste, o levantamento realizado pela CNC para a capital amazonense mostra que o ICEC de Manaus encerrou setembro em 114,6 pontos, ainda acima do limiar do pessimismo. O resultado representa queda de 1,4% em relação a agosto, mas indica que o comércio local mantém uma margem de confiança positiva. A diferença de trajetória entre o índice nacional e o regional sugere que, embora o ambiente econômico adverso atinja todo o país, o empresariado manauara demonstra maior resiliência diante das incertezas macroeconômicas.
O contraste revela nuances importantes. Enquanto a confiança nacional mergulha em terreno negativo, afetada por juros altos e desaceleração da renda disponível, o comércio de Manaus parece se apoiar em fatores locais, como o fluxo de turismo regional, a retomada gradual de setores ligados à Zona Franca e um padrão de consumo mais estável. Mesmo assim, o otimismo local é cauteloso: os indicadores de condições atuais caíram (-5,7%) para 87,5 pontos, sinalizando que os empresários reconhecem as dificuldades do presente, embora mantenham expectativas mais elevadas para o futuro próximo.
Nos dois casos, o padrão estrutural é o mesmo: deterioração nas condições atuais, retração moderada nos investimentos e otimismo contido nas expectativas. No cenário nacional, as expectativas recuaram 7% em setembro, enquanto em Manaus elas aumentaram em 0,9%, alcançando 145,7 pontos. Isso demonstra que, embora os empresários manauaras percebam os desafios, ainda acreditam em recuperação no médio prazo, especialmente com a aproximação das vendas de fim de ano. O diferencial de confiança pode refletir, também, a menor exposição da economia local a oscilações do crédito e a dinâmica mais autônoma do varejo regional.
Do ponto de vista macroeconômico, os dados reforçam que a política monetária ainda exerce peso expressivo sobre o comércio. A taxa de juros segue alta o suficiente para conter o crédito e o consumo. No plano nacional, isso reduz o ímpeto de expansão e investimento; no plano regional, impõe cautela. É provável que, caso a demanda continue enfraquecendo, os sinais de desaceleração que hoje aparecem com maior força no Brasil acabem se refletindo, com algum atraso, também em Manaus e no restante do Amazonas.
Em síntese, o Brasil vive um momento de inflexão na confiança empresarial. A reversão do otimismo, após mais de dois anos de recuperação, exige vigilância e resposta coordenada. Se o país quer preservar o avanço do comércio e do emprego, será necessário acelerar a queda dos juros, estimular o crédito produtivo e reforçar políticas regionais que sustentem o poder de compra das famílias. Manaus mostra que ainda é possível resistir, mas a resistência tem limites: sem melhora concreta nas condições econômicas, até mesmo as ilhas de otimismo podem perder fôlego.







