Crentes e Ateus (Padre Fábio de Melo e Leandro Carnal) (P.1)

Em: 7 de agosto de 2026

De certa feita perguntaram a Diderot, ( in Pensamentos filosóficos), se havia ateus verdadeiros. Você acredita, respondeu ele, q    ue haja cristãos verdadeiros?

Há precedentes, mas este caso é absolutamente encantador, seja pela temática, seja pela inteligência militante da dupla em sereno e denso diálogo no qual, mais do que procurar provar quem está certo, há o desejo latente de provar que não deve haver desrespeito às crenças nas crenças nem às crenças nas descrenças.

Poderia ser um debate, um combate, mas tornou-se de fato em debate, no qual ambos, fundamentados, apresentam as razões de suas razões, isto é, os sentidos de suas crenças no crível e no incrível.

Há também momentos de alegria e humor sagaz, o que nos permite não perceber em tecnicismos conceituais  nem em enfadonhos maneios intelectuais  que servem mais para arrogante sapiência do que para exercer humilde paciência .

O modo como o debate termina é a expressão maior do prazer arguto e da arrogante astuciosa de ambos. Ora, sabemos que a primeira grande obra no Ocidente a tratar das bases raciionais para uma concepção que  admita uma realidade que vá além da materialidade é a Metafísica, de Aristóteles.

Pois bem, qual é a última frase do Padre Fábio nesse livro?  “A  quem não tem Deus, que tenha, pelo menos, Aristóteles”. Conclusão de Karnal (e do debate): “Amém”!

Agudeza pura, de ambos!  Padre Fábio reafirma suas conficções durante toda a conversa, isto é, a fé que carrega e partilha não é apoiada em delírios infundados; enquanto Karnal usa o amém, antiga fórmula de encerramento e concordância em muitos “atos religiosos”, sem chancelar serem “fatos religiosos” o que é menos uma anuência e mais a reafirmação do que nos contou durante o debate  sobre a apreciação que, como pesquisador da história e da arte, tem por ritos, mitos e liturgias.

A aclamação amém se origina de vocábulo hebraico que carrega a noção de solidez, de consistência e, portanto, indica que quem o diz concorda com a veracidade  e firmeza do que antes veio, e é claro que Karnal aprova a recomendação do Padre Fábio. Afinal, ele diz logo no princípio da conversa: “Eu creio em Deus, mas creio humanamente”. Ou: “Quando fui apresentado à fé sobrenatural ela me soou razoável. Um ser superior cuida de mim”;  Karnal, por outro lado, conta:  “Meu ateismo não foi um fato ou uma decepção, mas um processo muito natural.”. Ou: Fé é entrega e, para entrega , deve existir uma disposição interior que eu não tenho mais,”

Nem o sacerdote nem o historiador dizem amém a tudo!

Padre Fábio professa uma fé consciente, livre do que seria a mera superstição ou, até, da hipocrisia que pode criar um vale entre o proclamado e o vivido, marcada muito mais pela prática dos princípios originais da crença religiosa que protege do que somente pelo alardeamento dissimulado de prescrições eclesiais.

Karnal nos conta sobre o percurso que o conduziu ao ceticismo sem torná-lo avesso às inspirações que, por exemplo, o cristianismo comporta nos valores humanistas e fraternais: aliás, um momento estupendo do debate é quando ele acautela sobre o risco de ser católico sem ser cristão e Padre Fábio destrincha as agruras e os desvios que essa possibilidade acarreta.

Padre Fábio não teme falar em Deus, não teme confirmar sua crença nem professar que é com esse Deus (e porque nEle crê) que faz seu percurso de vida; pessoa muito estudada, desnorteia os que acreditam ser a religião fruto da ignorância.

Karmal não teme declarar seu ateismo e, menos ainda, colocar-se na postura de alguém que não é anticlerical ou rancoroso com a Igreja da qual fez parte e preparou-se quando jovem para trilhar o sacerdócio; também muito estudado, desnorteia os que acreditam ser o ateismo fruto da ignorância.

Ganhamos bastante ao acompanhar as induções  e deduções  que ambos desenvolvem para sustentar suas condutas; é uma contenda impregnada de referências eruditas  e relatos pessoais e que, ademais, fica envolvida em uma afetividade de quem deseja ser rigoroso no pensamento e opinião sem ferir quem discorde.

Padre Fábio é um “crente virtuoso”;  Karnal é, como nomearam Diderot na sua época, um “ateu virtuoso”.  Por coincidência, lá pelo século XVIII o filósofo francês estudou com os jesuitas preparando-se para o sacerdócio  (tal como ambos no nosso tempo), o que não o impediu de escrever em Les Éleuthéromanes o verso: “E suas mãos arrancarão as entranhas do padre/na falta de uma corda para estrangular os reis.”

Essa invectiva, usualmente traduzida como cerne do ideário libertário e ateísta, é com frequência atribuida como conceito original de Diderot ou, em outra variante, ao seu contemporâneo Voltaire; porém, Diderot está citando uma obra que teve exatamente Voltaire como seu primeiro editor, cuja autoria é de um padre ateu, anterior aos dois e confessa isso em seu livro de memórias publicado postumamente, Memórias dos pensamentos e sentimentos do Abade Jean Meslier, com a frase: “Eu gostaria , e este será o último e o mais ardente dos meus desejos, eu gostaria que o último rei fosse estrangulado com as tripas do último padre.”

Padre Meslier, pouco antes de morrer, em 1729, passou seus últimos anos construindo arrazoados contra a sua própria fé; no dizer dele mesmo, para demonstrar a “falsidade de todos os deuses e religiões do mundo”.  Essa foi a maneira de expiar seu arrependimento e amargura . Ainda bem que Padre Fábio e Karnal não denotam arrependimento algum pelas crenças e descrenças que suportam; assumem com perspicácia  aquilo em que creem e defendem com elegância aquilo de que descreem. (Continua).

É advogado de empresas (OAB/AM 436) e articulista de jornal. Ex-func.Bco.Brasil, Contato [email protected].

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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