Dia dos Pais

Em: 11 de agosto de 2026

Domingo, 9 de agosto de 2026 e comemoramos o Dia dos Pais. De fato, assim como para as Mães, todo dia é dia deles. Mas, quis o mercado definir uma data, então vamos seguir. Digito este artigo, com respeito. Muito respeito mesmo, agregado com muita saudade. Vou homenagear o melhor Pai do mundo: o meu Pai! Não vou citar nem a mim, nem meus maravilhosos filhos e netos. Eles que falem de mim, bem ou não. Meu pai, Vicente, foi registrado em 1930, no interior do sertão nordestino, em algum engenho. Minha avó, mãe dele, era escrava nesse local. E meu pai nasceu escravo. Sim, no segundo quartil do Século XX. Tento imaginar a infância do meu pai. Tento, mas não consigo visualizar. Ou melhor, imagino sim. E isso me enche de ódio social, contra o mundo todo, e respeito pelo meu pai. Um dia, ele, meu pai, fugiu da escravidão e veio tentar a vida longe daquele inferno miserável e maldito.

Chegou ao Rio de Janeiro ainda um moleque. Como chamar um negro escravo fugido de adolescente? Enfim, sabe-se lá como meu pai sobreviveu. Mas, com certeza, não foi fácil. Nada fácil mesmo. Imagine um moleque negro, sozinho, perambulando pelas ruas do Rio de Janeiro na época da 2ª Guerra Mundial. Que futuro ele teria? Mas, quis o destino e Deus que aquele jovem tivesse uma chance e um futuro decente. Então, em meados dos anos 50, meu pai, que, na oportunidade, era porteiro de edifício nas Laranjeiras, um lindo bairro do Rio de Janeiro, conheceu a minha amada mãe, uma loirinha que também havia fugido do Nordeste, mas fugiu da seca e da pobreza, junto com algumas das oito irmãs. Mamãe era a caçula. Não sei muito da história da família do meu pai. Na verdade, vi uma fotografia da minha avó e conheci um dos irmãos dele. E só. Eu perguntava, mas meus pais desconversavam.

Desde pequeno eu os entendia e respeitava. Um dia, perguntei ao meu pai sobre umas marcas feias que ele tinha na canela, ou tíbia, para os puristas.  Ele disse que havia sido coice de cavalo. Mas, tudo levava a crer que foram marcas de castigo no “tronco”, de quando ele era um menino ainda naquela amaldiçoada vida de escravo. O tempo passou e, fruto do amor dos dois, eu vim ao mundo. E desde sempre, mesmo ambos ganhando um salário mínimo, eles investiram no meu futuro. Meu pai sempre me colocou em colégios particulares. E, como filho único, meus presentes eram brinquedos, livros e gibis em quadrinhos. Daí, eu cresci gostando de aprender, de estudar, de conhecer. Mas, ainda assim, que futuro eu teria, como negro, filho de um porteiro de edifício e de uma empregada doméstica, criado em uma “cabeça-de-porco”, ou cortiço, no Rio de Janeiro, nos anos 50? Mas, meu pai sempre teve como meta na vida, me dar um futuro decente, com princípios e valores imutáveis. Foi e é um herói.

Um homem tão grande que eu nunca serei. Um ser humano maravilhoso. Nos anos 2000, ele e mamãe vieram morar comigo. Na época, o Alzheimer dele nos indicava que a missão estava próxima de ser cumprida. Um dia, no quarto, conversando com ele, me disse: Garoto, você faz mais que a sua obrigação. Foi o maior elogio que recebi nesta vida. E meu pai viu o filho dele ser promovido a Coronel de Estado-Maior do Exército Brasileiro, depois de tudo que ele passou na vida. E que nós passamos também. Tentei merecer todo o esforço dele. Espero que eu tenha sido merecedor. Hoje, a foto do meu pai e da minha mãe, ornamentam a minha mesa. E todos os dias converso com eles. Meu pai sempre me aconselha. E eu o amo muito. Parabéns pelo seu dia, meu pai. Obrigado por tudo. Por tudo!

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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