Bosco Jackmonth*
Quando posível sempre em busca de subsídios históricos desta feita voltamo-nos para levar o relato colhido dos eventos que cercam os hábitos culturais de civilizações outras que não os da nossa, pelo menos num caso, tal com o intento de averiguar o quanto sempre nos louvamos provir dessa aludida fonte. Esse dito, é fato, não carrega nenhum teor de novidade. São notórios os vários modelos ou costumes alheios que bem muito adotamos por aqui.
Vamos então. Ocorre, ao se andar pelas nossas ruas e outros locais públicos, passamos a nos deparar com a visão de duplas masculinas notadamente homossexuais, nisso não se quedando em crítica azêda, ainda que exibam posturas como beijo na boca e palavreado nada aceitáveis no âmbito dos bons costumes consagrados. Calha que um dos membros (referimo-nos à pessoa…) costuma ser mais atirado nos gestos afetados, pondo-se com cabelos tingidos e esvoaçantes, além do uso de trajes algo femininos, o que leva a indicar quem é o passivo ou o ativo, se interessar à curiosidade.
Além do mais a figuração quando exibida na televisão, programas de auditório, reportagens, novelas e, já se disse, o mais do gênero, também chama a atenção. Mas no nosso meio sabe-se não se tratar de crime, ao contrário das citadas outra fontes, o que se aludirá melhormente linhas a seguir. Contudo, localmente sempre se reagiu apenas a atirar alcunhas, a princípio mais fortes como “frescos, bichas, veados, baitolas,” passando a pederastas e por fim a homossexuais que se quedou em voga.
Sucede, a questão obriga a estampar o caso dos mais buliçosos e alcançado como desvio legal, por isso punido com prisão, certamente ocorrido no exterior sendo condenado Oscar Fingal O’Flahertie Wills Wilde, o famosíssimo escritor Oscar Wilde, que nasceu em Dublin em 1854, e morreria em Paris, no ano de 1900, isto é, cinco anos após o início do seu processo criminal, supondo-se que o estilo de vida por ele escolhido, vício que dormitava a muitos anus, quer dizer a muitos anos, apesar de casado e pai, afora o principal antecedente de sua condenação, que estoutro seria a inveja, o mal-estar que o sábio provocava nas pessoas, sobretudo no meio literário, dada a excelência de sua obra, pela fulgurante inteligência de que era possuidor, mais ainda, pelo talento que irradiava. A propósito, tudo isso seria posto na sua frase única: “Somente os medíocres não despertam inveja”.
Nesta altura, convém reservar espaço para em seguida listar algumas de suas mais notáveis produções, tais como as postas na coleção “Memórias do Direito e da História I”, tomo “Julgamentos Históricos – Oscar Wilde, Glória e Suplício de um Gênio”, página 80, da autoria de Sérgio Habib, que cita o pensamento do personagem: “Todos os julgamentos são julgamentos da vida de uma pessoa, assim como todas as sentenças de morte, e fui julgado três vezes. A sociedade, da maneira como a constituimos, não terá lugar para mim, nem nada a me oferecer”…
Esse leitor certamente já divisou aonde o articulista quer chegar: Ao ponto em que uma inteligência e cultura extraordinárias, nisso merecendo admiração incontáveis, e que sucumbe a um procedimento amoroso dado como criminoso ao vezo de uma época em que a moral vitoriana inglesa predominava, traduzindo-se no móvel tão desejado pelos inimigos do escritor e poeta para alcançar a sua destruição. Acresce, algum tempo antes, a Revisão da Lei Criminal, editada em 1885, tornava típica a conduta homossexual, sujeitando os seus autores à pena de prisão de até dois anos, com possibilidade de trabalhos forçados, inclusive.
Por fim, como anunciado, o rol das consagradas obras literárias: ” O Retrato de Dorian Gray”; “O Leque de Lady Windermere”; “Um marido Ideal ou a Importância de ser Prudente”; sendo que essas três últimas peças alcançaram um retumbante sucesso naquela época e espaço, mas aqui permanecem notórias ainda hoje. Portanto, quando se iniciou o processo-crime contra ele, Oscar Wilde vivenciava o auge de sua glória, eis porque a sua queda foi vertiginosa, e o percurso da fama à lama deu-se em pouquíssimo tempo.
Há pouco se disse que o estilo de vida foi o vício que dormitava até vir à tona. E isso se deu quando Oscar Wilde conheceu, no ano de 1891, o Lord Alfred Douglas, que seria depois por ele carinhosamente apelidado de Bosie, sem jamais imaginar que a sua glamourosa vida viesse a ser transformada no inferno em que se converteria a partir dos anos que se seguiram a 1895, por força do arrebatado amor que os unira, numa época quital, como já se asseverou.
Pregam as nossas fontes que a citada lei draconiana que passara a viger por suposto casuismo, segundo se anotou linhas acima, somente alcançou o poeta em cheio visto este proceder de forma acintosa, sem qualquer recato ou dissimulação quanto ao seu encantamento pelo Lord, com quem se encontrava nos mais diversos locais públicos, fosse em Londres, em St. James, no Café Royal ou no Berkeley, fosse em Torquay, Goring, em Florença ou em qualquer outro lugar.
Verdade é que ele não escondia o seu amor por Bosie, o que em Wilde seria algo assim coerente, uma vez que ele abominava a hipocrisia social, por certo alvo preferido em suas obras já que as pessoas optavam por espelhar virtudes publicamente enquanto se dedicavam aos vícios no recôndito da vida privada. Não haveria de ser assim com o poeta. Daí porque os seus críticos mais ferrenhos o acusavam de práticas extremamente liberais para a época, dado a frequentes orgias e excessos sexuais, sempre envolvendo mancebos fortes e galhardos, pois ele apreciava o belo em tudo, assim como na arte, o que se apresentava como coerente sob a sua visão homossexual. Afinal, era essa a sua opção e ele se achava no direito de expressá-la, até porque inadmissível para ele seria escondê-la como faziam os medíocres.
Ocorre, tamanha ousadia haveria de lhe custar tudo na vida, honra, fama, dinheiro, amizades, a sua própria família, inclusive Wilde perderia tudo, tudo o que conquistara ao longo de uma carreira promissora, desde o aprendizado no Trinity College, em Dublin, até o momento mais elevado de sua trajetória triunfal, com a publicação de suas obras literárias mais famosas, aliás listadas acima. (Continua).
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É advogado (OAB/AM 436) Contatos:[email protected].






