Do sumário mundo mundo vasto mundo

Em: 8 de janeiro de 2026

Esta estação de escritos semanais, aqui subscrita, posta uma profusão de citação de livros da autoria de inúmeros autores, cita-se agora unicamente Carlos Gomes novel autor da publicação acima nomeada, de apoio da União Brasileira de Escritores do Amazonas, ao lado de Cartilha do Bem Sofrer com Lições de Bem Amar, de Farias de Carvalho, e o Mostrador de Sombras, de Márcio Souza, sendo que o quarto volume, que seria o Estado de Sítio de Aldísios Figueiras, embora quase pronto na editora do saudoso José Cardoso,  não pôde ser lançado por causa da repressão política durante a ditadura militar , que se exarcebou a partir de 1968. Segue-se Resumo e Análise da Obra, ao lado da informação Biobibliográfica .

Inicialmente , segundo João Bosco Pantoja Evangelista, poeta, temos como apresentação do universo ficcional do jovem autor que ora se comenta, subordinando-se, de maneira acentuada, a dois aspectos  distintos: a preponderância da paisagem urbana e a utilização da recorrência folclórica. Naquela, surge como tônica a revitalização do cotidiano approuach  do flagrante urbano, obrigando o autor ao emprego dos valores de ambiência, nos quais a trama, longe de perder em segurança, vigor, autenticidade, muitas vezes envereda para o circunstancial e anedótico, embora sem nenhum desprezo para com o artifício dialogal, no qual o jovem estreante labora com aceitável desenvoltura. Nesta linha situamos, entre outros, os contos Antes da Nomenclatura, Madalena, Figa, Pé de Pato, Bangalô Três Vezes, como trabalhos mais significativos.

Mundo Mundo Vasto Mundo é, portanto, se olhado por essas perspectivas, um livro de estréia que tem algo a dizer: está destinado a ficar. O autor, como engenheiro do conto, longe de jungir-se à elaboração de uma narrativa tradicional, procura, sempre que possível (não obstante a timidez da província, tantas vezes responsável pelo obscurecimento de muitos talentos), o insólito da construção ficcionista. Nesse aspecto, Rosa de Carne dá-nos o exemplo flagrante da tentativa de Carlos Gomes à procura de novos modelos de realização na estrutura do conto.

Isso demonstra que o autor sabe o que fazer, ou ainda o que transmitir em sua arte: afastando-se, coerentemente, dos lugares comuns, instaura um  condicionamento seu, individual e através da captura de um estilo próprio, segura e paulatinamente, equaciona os problemas básicos da expressão e personalidade de sua obra.

Com o presente volume, a Coleção Sumaúma, lançada em ocasião tão oportuna pela União Brasileira de Escritores, do Amazonas, presta incomensurável serviço  à cultura regional, ampliando, por outro lado, o quadro de possibilidades para uma afirmação das letras amazonenses, já por sua crescente divulgação, já através da valorização dos que, no Amazonas, se integram ao valor literário, nessa literatura que no dizer de Otto Maria Carpeaux “não pode ser substituida por coisa alguma: nas literaturas não se encontram fórmulas feitas, mas homens”.

Em seguida, bem cabe o pronunciamento do político Fábio Lucena, a saber: “antes de atingir a universalidade da obra de Carlos Gomes, convém situá-lo a ele, autor, como engajado a uma geração cuja fotuna única consiste em travar, contra a monotonia dos dias provincianos, uma luta terrível e desigual. Enquanto na distante Abion a juventude, rica de História, recorre a extravagantes fórmulas de protesto deixando os cabelos crescerem e se apegando a ritmos “trajeiteiros”, nós na verde Hiléia, assistindo, como vítimas, ao insidioso diálogo das mediocridades, protestamos não concordando com as coisas na forma em que são oficialmente impostas. Não se pode conceber as coisas como elas são — argumenta o poeta Elson Farias — e muito menos deixar de mover uma palha para a sua transformação. Ninguém poderá negar à geração de Carlos Gomes esse esforço, pois foi desse esforço senhores, que nasceu Mundo Mundo Vasto Mundo

Amadurecemos nós  — os da geração de Carlos Gomes — sob o impacto de crises políticas sucessivas, às quais apesar de aprofundarem gradativamente o sofimento do nosso povo, assiste o indesmentível crédito de despertar nesse mesmo povo maior consciência histórica. A juventude brasileira, nesse particular, e sobretudo a geração de Carlos Gomes tem sido o grande vínculo entre a História e o povo. Tudo o que tem ferido o povo tem também ferido a juventude. Parece, senhores, que a prédica do Nazareno “Dia virá em que eles serão grandes pescadores” está em nossa época, mais do que aos pescadores do Rio Jordão dirigindo a juventude na sua grande tarefa histórica.

Ora, Mundo Mundo Vasto Mundo, saúdo-te como uma vitória da minha geração. Credito ao teu criador a categoria de intérprete da minha época, dos mais autênticos, do porte, inclusive, do comandante que chorou no mar a camiho do exílio, para voltar algum dia, quando será milhões…

Os teus defeitos, que por certo já estão anotados no caderninho dos “donos da arte”, igual àqueles caderninhos que deram ao cristão, segundo Cony, a idéia do purgatório, são anulados pela profunda mensagem que transmitirá ao teu povo, porque a este em nada faltaste. Tu sabes, Vasto Mundo, que o teu povo pouco ou nada entende de purismo literário, do rigor de forma, etc. O que teu povo entenderá, e talvez me conteste a tua  excessiva modéstia, é a cruel mas verdadeira resposta de Dr. Estevão na página trinta.

Talvez descubram em ti em certas construções machadianas. Mas, que mais querias Vasto Mundo? De quantos Machados não estamos ainda precisando? Lembra-te de Voltaire: esmagou a ignorância e deu ao Homem o que há séculos este procurava para fazer a Revolução Mundial na França.

…

Sim, posta-se o entendimento de Arthur Engrácio, no artigo Um Contista Estreante, inserido em Berlinda Literária “(…) Constitui esta obra (Mundo Mundo Vasto Mundo) a nosso ver, um passo avançado na nossa prosa de ficção;  é uma afirmativa de que não estamos longe de atingir a maturidade nesse gênero, considerado, hoje, como o mais importante de quantos possui a Literatura.

Carlos Gomes nos chega nessa hora de efervescência literária (na ficção) e nos chega bem. Seu livro não mais apresenta aquela feição rigorosamente peculiar aos livros de estréia, mas, ao contrário, nos impõe, já, um ar adulto; oferece-nos o aspecto de obra que sofre os últimos retoques ou acabamento. Acrescente-se que os contos deste volume denotam uma ampla vivência dos fatos quotidianos; uma arguta observação da psicologia humana, a que se junta uma técnica narrativa das melhores que se encontram em ficcionistas de maior evidência, no Brasil, atualmente.

Dentro dessa linha podemos colocar, entre outros, o conto “Rosa de Cane”, o mais bem construido da coletânea, onde um pai ignorante, para reprimir má tendência do filho, queima-lhe a mão com uma moeda incandescente. O tom trágico e um profundo toque humano são a constante neste conto, que o envolvem do começo ao fim, levando o leitor a participar da angústia da pobre criança.  “A rosa de carne doia na mão do menino. As pétalas apodrecidas efervesciam, se lhe deitassem hipoclorina (…) . Ele chorava quando iam trata´-la (…).” Coitadinho do meu filho,” dizia a mãe, mas era preciso que a rosa voltasse ao botão de onde desabrochara e deste ao nada, deixando embora na mão do menino o estigma de sua passagem.

Adotando em alguns contos a narrativa linear, na qual se sai muito bem, devemos acrescentar, entretanto, que é na técnica introspectiva, intimista, que Carlos Gomes melhor se realiza como ficcionista, dando-nos trabalhos realmente bons, como  ‘Vó Hermengarda”, “Reconstrução”, “Assunto Perdido” e outros.

“Vó Hermengarda”, aliás, se destaca por uma fina ironia que o autor maneja com desenvoltura e muita segurança, lembrando-nos ligeiramente alguns mestres nessa forma de escrever. “Um poeta descobriria aqui matéria para um soneto, quem duvida? Experimento fazer o mesmo.  Num tempo hoje longinquo, quis construir com versos. Nunca consegui. Olho a ficha à procura de expressão. Olho-a, mas tudo o que vislumbro é que ela representa um dia de ordenado bruto. Ora bolas… `As favas os poetas. Conheço um –grande poeta! — que fez um soneto a um penico — sim senhor! Chamou-lhe esmaltada ânfora, comparou as asas do dito a asas de libélulas (…) No final de contas, o penico do poeta estava tão alcandorado, tão dignificado, que seria até capaz de comer pudim servido nele.” Mais adante: “Os Estados Unidos — louvados sejam — continuariam aqui pondo governos e dispondo deles como acabou-se de ver, e se morreria de fome, coisa que, aliás, entre nós, não é lá muito singular.”

É forte o senso de procura em Carlos Gomes. O contista já não se conforma com as velhas fórmulas e padrões; envereda por outros caminhos, imprime aos seus trabalhos uma nova técnica, onde, fugindo do lugar comum, pode apresentar-nos uma linguagem apurada e autenticamente ficcional, rica de expressão e inovação estilísticas, na qual a metáfora tem lugar destacado. “Bateu nos bolsos procurando despertar a caixa de fósforos”.  “O gato franziu a cara, tirou da maciez as unhas afiadas, deu um tapa na meia claridade de filme velho em preto e branco e se fundiu na escuridão”. “Os olhos de retina escorrida borrando a iris”. “Quando olha é com tamanha indiferença que a gente se presume ainda mais pequenino e enfermo”. “Mil olhos de raios X penetram a intimidade das células, prescrutam-nas como loucos faróis dentro da noite”.

De “Mundo Mundo Vasto Mundo”, concluindo, podemos dizer que é um livro bom, sério, escrito com inteligência e talento, estando por isso com o seu lugar garantido entre os melhores, no gênero, já publicados entre nós”.

Agora, manifesta-se Márcio  Souza, em Expressão Amazonense, dizendo que o autor Carlos Gomes é um contista que tem humor, adora essa verve irreverente, rara e pouco comum numa cidade de tradição dramática como Manaus. É o que acha. O livro de contos em questão confirna isto, posto que é o escritor mais bem-vindo. Contista da cidade, parece não se interessar pelos dramas ribeirInhos, isto é, a tradição extrativista.

Mas tomando suas personagens do cotidiano posaico da província, ele quer refletir sobre o mundo medíocre, um mundo que se cola ao tema do extrativismo pelo reverso. Se na contradição extrativista o homem luta com a impossibilidade, na capital reina a mediocridade; o medíocre sempre é um homem de certeza, daí nunca reconhecer os limites. “Antes da Nomenclatura”, por exemplo, abre as portas de uma repartição pública, esse cadinho de burrices que alimenta as pretenções cretinas da classe média.

Por incrível que pareça, o contista não faz absurdo, é um quadro comum, uma especialidade provinciana. O contista brinca com seu tema, sem deixar de colocar certos tons sombrios, como  no conto “Rosa de Carne”, o mais conhecido do livro. Destacando as pétalas da ferida, como o seu pequeno personagem de “Rosa de Carne” sofria na pele, essa literatura parece liberta. O tempo confirmará este presentimento.

Segue-se Antônio Paulo Graça, em artigo publicado no jornal Amazonas em Tempo, assim posto: “Em seu livro, Mundo Mundo Vasto Mundo, a mesquinhez burocrática, o provincianismo, a falsa cultura são estraçalhadas pelo humor de Carlos Gomes. Além disso, as misérias cotidianas de uma sociedade injusta são expostas sem retórica, sem discursos bombásticos e demagógicos. E para mostrar sua sintonia com as questões filosófico-existenciais do tempo presente o autor reuniu alguns contos em que personagens se vêem perdidos às voltas com um mundo absurdo. Um mundo (não vasto, mas vazio), cuja lógica é a dominação econômica e política.”

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É advogado (OAB/AM 436). Cursou Direito, Contabilidade, Comunicação Social (Jornalismo), Lacionou História, Foi funcionário do Banco do Brasil. Articulista.  Com.Br. 992948544.

Bosco Jackmonth

* É advogado de empresas (OAB/AM 436). Contato: [email protected]
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