Dos tópicos da ignorância (2)

Em: 22 de janeiro de 2026

Ao cabo de dias passados nesta mesma estação de escritos semanais discorreu-se sobre a Ignorância, resumindo-se ao título “A ignorância , uma história global”, passando-se agora a abordar cada tópico e não mais uma visão geral, começando pela definição de Michael Smithson: A ignorância é uma criação social, tal como o conhecimento. Pomos a seguir:

DENUNCIANDO A IGNORÃNCIA

Sucede, os falante de árabe falam do período pré-islâmico como a “Era da Ignorância” (al-jahiliyya). Os humanistas, durante a Renascença enxergaram o que eles foran os primeiros a  chamar de “Idade Média” como uma era da escuridão. No século XVII, Lorde Claredon, o historiador da Guerra Civil inglesa, descreveu os Pais da Igreja cono “grandes luzes que surgiram em tempos muito escuros… tempos de tanta barbárie e ignorância”. Durante o Iluminismo, a ignorância foi apresentada como um suporte ao “depotismo” ao “fanatismo” e à “superstição”, todos os quais seriam varridos em uma era de conhecimento e razão. George Washington, por exemplo, declarou que “a fundação de nosso império (os Estados Unidos da América) não foi lançada na era sombria da ignorância e da superstição.”

Visões como essas continuaram a ser atuais muito tempo depois. Por exemplo, o termo “al-Jahiliya” foi aplicado mais recente por muçulmanos radicais, como o intelectual egípcio Sayyd Outb, visando particularmente os Estados Unidos. A igorância foi um dos “cinco gigantes” que o político liberal William Beveridge prometeu matar (junto à pobreza, à doença, á miséria e à ociosidade). O relatório de Beveridge serviu como fundamento do Estado do bem-estar social britânico pelo governo trabalhista de 1945.
Mais recentemente, nos Estados Unidos, Charles Simic escreveu que “a ignorância generalizada, beirante a idiotice é  objetivo nacional,” enquanto Robert Proctor, hIstoriador da ciência, declarou nosso  próprio tempo como sendo uma “era de ouro da ignorância”.

Embora estejamos bem cientes de que sabemos muita coisa que as gerações anteriores não sabiam, estamos muito menos cientes das coisas que eles já sabiam e que hoje nós não sabemos. Tal  a serem discutidos mais adiante — vão desde a familiaridade com os clássicos gregos e romanos até o conhecimento cotidiano da história natural.

No passado, uma das principais razões para a ignorância dos indivíduos era o fato de  que muito pouca informação circulava em sua sociedade. Parte do conhecimento era do tipo que o historiador Martin Muslow chama de “precário”, registrado apenas em manuscritos e mantido escondido, porque as autoridades, tanto da igreja como do Estado, rejeitavam–no.

Hoje, paradoxalmente, a abundãncia se tornou um problema que é conhecido como “sobrecarga de informação”. Os indivíduos experimentam um dilúvio de informações e muitas vezes não conseguem selecionar o que querem ou do que precisam, uma condição que também é conhecda como “falha de filtro”. Como consequência disso, nossa assim chamada era da informação “permite a difusão da ignorância tanto quanto a difusão do conhecimento”.

ELOGIANDO A IGNORÃNCIA

Respondendo à tradição de denunciar a ignorância, encontramos uma contradição: um número relativamente pequeno de pensadores e escritores que ousaram sugerir que o entusiasmo pelo conhecimento “epistemofilia” tem seus perigos, enquanto a ignorância é uma bênção, ou pelo menos apresenta algumas vantagens. Alguns desses autores reviviam a tradição clássica do falso elogio.

O clero do início da era moderna, fosse católico, fosse protestante, era geralmente hostil à curiosidade, “tratando-a como um pecado geralmnte venial, mas âs vezes mortal. Foi apresentado como um pecado mortal na lenda de Fausto, que inspirou peças, óperas e romances.

Quando Kant usou a frase “Ouse saber” (Sapere Aude) como lema do Iluminismo, estava reagindo contra a recomendação bíblica “Não pretenda saber do que é superior, apenas tema” (Noli altum sapere, sed time), parafraseada pelo poeta Alexander Pope como “não presuma conhecer a Deus”.

Alguns argumentos seculares complementram os argumentos religiosos. Michel Montaigne sugeriu que a ignorância era uma receita melhor para a felicidade do que a curiosidade. O filósofo naturalista Henry Thoreau desejava fundar uma Sociedade para a Difusão da Ignorância Útil como um complemento à já existente Sociedade para a Difusão do Cohecimento Útil.

Em seus Estudos da natureza (1784), o romancista e botânico Bernardin de Saint-Pierre elogiou a ignorância porque ela estimulava a imaginação.  Nadando contra a corrente das histórias publicadas durante o Iluminismo, a feminista francesa Olympe de Gouges argumentou, em Le Bonheur primitif de L’homme, ou Les Rêveries patriotiques (“A felicidade primitiva do homem, ou devaneios patrióticos”  em tradução livre, de 1789), que ‘”os primeiros homens’ eram felizes porque eram ignorantes, enquanto, nos tempos da própria autora, “o homem estendera seu conhecimento para longe demais.”

No que tange à lei, a Deusa da Justiça é frequentemente representada desde a Renascença como cega por uma venda, o que simboliza a ignorância no sentido da abertura do espírito e da falta de preconceito. De acordo com esse ponto de vista, os júris devem ser isolados, a fim de mantê-los afastados de informações que possam distorcer seu veredito. As discussões sobre o que é chamado de “ignorãncia virtuosa” estão se tonando cada vez mais frequentes. O filósofo John Rawls defendeu o  que ele chamou de “o véu da ignorância”, uma cegueira a raça, classe, nação ou gênero que nos ajuda a ver os indivíduos como seres moralmente iguais.

Ignorância virtuosa é um termo que já foi usado para descrever a recusa de se descrever a de se pesquisar sobre armas nucleares, por exemplo, ou pelo menos de se divulgar publicamente os resultados. Outras características positivas de diferentes tipos de ignorância têm sido enfatizadas por sociólogos e antropólogos, que escreveram sobre suas diversas “funções sociais” ou”regimes”. Os sacerdotes, por exemplo, são obrigados a guardar segredos do confessionário, enquanto os médicos juram respeitar a privacidade de seus pacientes. A democracia é protegida no sigilo das células de votação. É o anonimato que permite aos examinadores avaliar trabalhos sem preconceitos e aos participantes da revisão por pares dizer exatamente o que pensam sobre o trabalho de seus colegas. As negociações secretas permitem que os governos façam concessões ao outro lado que seriam impossíveis sob as luzes da publicidade. A informação poduz não apenas benefícios, mas também perigos.

No final do século XIX, a ignorância era recomendada como uma resposta ao problema cada vez mais agudo de “haver muito a se saber”. Por exemplo, o neurologista norte-americano George Beard alegou que “a ignorância é um poder, assim como a alegria” e um “remédio para o nervosismo”. A ignorância já foi tratada como um “recurso” ou um fator “para alcançar o sucesso’ por  aqueles que escrevem sobre negócios e administração.

Antony Tjan, por exemplo, recomenda “abraçar a ignorância” uma vez que os empresários que “desconhecem suas limitações e as realidades externas” estão  mais suscetíveis a “gerar ideias livremente”. Mais tarde, e com mais cautela, ele explicou que “a chave é reconhecer os momentos críticos na trajetória de uma empresa quando uma abordagem a partir do zero gera maior impacto positivo”.  A expressão “ignorância criativa” implica o reconhecimento de que muito conhecimento pode inibir a inovação, não apenas nos negócios, mas  também em outros domínios.

Essa expressão foi cunhada por um escritor da revista New Yorker para se referir ao que impediu Beardsley Ruml, diretor de uma grande fundação de pesquisa” de ver as placas de ‘proibido seguir adiante’, ‘não pise na grama ‘, ‘proibida a entrada’ e ‘rua sem saída’, no mundo das ideais”, avisos que agiriam como obstáculos interdisciplinaridade que ele apreciava. Em um nível mais prático, diz-se que Henry Ford certa vez comentou: “Estou procurando um punhado de pessoas que tenham uma capaciadde infinita de não saber o que não pode ser feito”

A alegação de que a ignorância tenha seu uso leva a insights pelo menos se tivermos cuidado suficiente para perguntar: ela é útil para quem? No entanto, os exemplos aqui discutidos sugerem que as consequências negativas da ignorância geralmente superam as positivas  — daí a dedicatória do livro aos professores que vêm tentando remediar a ignorância de seus alunos. O desejo de não saber (ou de que outras pessoas não saibam) o que quer que nos ameaçe ou nos envergonhe, seja no âmbito individual, seja no organizacional, é compreensível, mas suas consequências são muitas vezes negativas, pelo menos para outras pessoas. Ignorar ou negar fatos incômodos será um termo aqui recorrente. (Continua)

 

É advogado (OAB/AM 436)e articulista.Ex bancário BEA e Bco.Brasil, no Rio,  Cursou Direito,Contabilidade, Comunicação Social Jornalismo),Lecionou  História, Contacto. bosco@jackmonth.advogados.com.br.9294-8544.

Bosco Jackmonth

* É advogado de empresas (OAB/AM 436). Contato: bosco@jackmonthadvogados.com.br
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