Folia engajada

Em: 27 de fevereiro de 2026

Ao longo de toda a minha vida — e lá se vão mais de quatro décadas — ouvi, aqui e acolá, que o brasileiro seria politicamente alienado, desprovido de espírito público e de caráter cívico. A sentença, repetido com ares de evidência sociológica, sustentava que este “mau brasileiro” seria simultaneamente vítima das elites e algoz de si mesmo, fruto da ignorância e da precariedade educacional atávica.

 O saber convencional, difundido nas mais diversas camadas sociais, gostava de ilustrar essa percepção com um contraste já clássico: o brasileiro saberia de cor a escalação da seleção, mas permaneceria apático diante da política e da ainda jovem democracia.

 A solução proposta pelos advogados desse “bom selvagem” brasileiro era sempre a mesma tábua de salvação: a educação. Bastaria educar, diziam, e o país despertaria para a cidadania substantiva.

 O tempo passou. A educação universal e de qualidade não chegou como prometido. Mas, por razões que merecem análise mais cautelosa, o brasileiro politizou-se; e o fez de maneira intensa e radical. O que se observa hoje não é apatia, mas um quadro generalizado de politização, partidarização e polarização nas mais diferentes esferas públicas.

 O velho arranjo partidário que estruturou a disputa política por quase duas décadas, o conflito relativamente moderado entre petistas e tucanos, arquitetos da ordem democrática de 1988, foi substituído por uma abordagem mais extrema em que lulistas e bolsonaristas entraram em rota de colisão. De um lado, uma esquerda que se pretende reformista e institucional; de outro, uma direita que se apresenta como populista e antissistema. Mais do que divergência programática, consolidou-se uma lógica identitária de pertencimento.

 Uma das características mais marcantes desse novo ciclo é a capilaridade da polarização em todas as esferas de opinião pública. Ela não se restringe aos parlamentos ou às redes sociais: infiltra-se no cotidiano de cada brasileiro. Manifesta-se nas conversas familiares, nas salas de aula, nos ambientes de trabalho e até nos espaços religiosos. As pessoas tendem a interpretar a realidade a partir das lentes ideológicas de seus grupos de referência.

 Temas outrora consensuais — como campanhas de vacinação, por exemplo — transformam-se em verdadeiras batalhas simbólicas nas arenas da opinião pública. O debate público fragmenta-se em bolhas de confirmação mútua, nas quais fatos disputam espaço com crenças, valores, identidades e preferências partidárias.

 Assim, identificar-se como “de esquerda” ou “de direita” deixa de ser apenas uma posição programática e passa a significar adesão quase tribal a comunidades políticas em disputa pela hegemonia do que se convencionou chamar de “regime de verdade”.

 Mais do que uma metáfora, trata-se de uma chave interpretativa: quando a política se organiza primordialmente em torno de antagonismos existenciais, o espaço para mediação, compromisso e pluralismo tende a se estreitar.

 À luz dessa perspectiva, não surpreende que nem mesmo a maior festa popular brasileira tenha permanecido imune ao clima de engajamento e luta política. O Carnaval, historicamente celebrado como espaço de inversão, crítica social e catarse coletiva, também foi progressivamente atravessado pela lógica da polarização.

 Nas avenidas do samba, nos trios elétricos e nos bloquinhos de rua, lulistas e bolsonaristas passaram a disputar corações, mentes e o suor de cada folião. O que antes era majoritariamente festa da carne e dos alienados tornou-se repentinamente também arena dos antagonismos.

 O engajamento pró-Lula encenado pela Acadêmicos de Niterói, escola de samba do Rio de Janeiro, explicitou como a cultura popular pode ser mobilizada como instrumento de legitimação política. Para simpatizantes, tratou-se de expressão legítima da tradição celebrativa do Carnaval. Para adversários, especialmente setores bolsonaristas, a leitura foi outra: denunciaram suposto uso eleitoral e propagandístico do samba-enredo.

 A controvérsia revela algo mais profundo do que uma disputa episódica. Ela indica que o Brasil ingressou definitivamente numa fase de alta afetividade política, na qual praticamente nenhum espaço social permanece neutro por muito tempo. A politização difusa é, ao mesmo tempo, sinal de vitalidade democrática e fonte potencial de erosão do convívio plural.

 O desafio que se impõe não é desejar o retorno impossível a uma sociedade “despolitizada”, mas compreender como administrar o conflito sem permitir que a lógica amigo–inimigo devore os mecanismos de mediação que sustentam o nosso precário regime político.

 A folia pode e talvez deva ser engajada. Mas, se a festa se transformar apenas em trincheira, corre-se o risco de que o país perca justamente aquilo que o Carnaval sempre simbolizou de mais valioso: a capacidade de conviver nas diferenças, ainda que provisoriamente, sob o mesmo ritmo, sob a mesma toada.

 

*é cientista político.

Breno Rodrigo

É cientista político e professor de política internacional do diplô MANAUS. E-mail: [email protected]
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