Ignorância uma história global

Em: 5 de janeiro de 2026

A ignorância às vezes pode ser uma benção, mas em geral é malvista – e é por isso que a obra mais recente de Peter Burke chega como uma surpresa. Burke traz toda a ignorância – ao invés de todo o conhecimento – para seus domínios enquanto classifica, com modéstia, seu livro a páginas tantas como uma introdução a um campo acadêmico em expansão.

Circulou que a ignorância pode parecer um problema contemporâneo premente, mas, como este esplendido e abrangente livro mostra, tem muitos passados. Só Peter Burke poderia ter escrito uma história da ignorância tão delicadamente sábia.

Nesta altura, ultrapassando as convenções, cabe discorrer sobre a figura do autor para dizê-lo como professor emérito de História Cultural na Universidade de Cambridge, bem como para revelar que é autor de dezenas de livros, que foram traduzidos para mais de 30 línguas, sendo que entre as traduções para o português encontram-se obras como Cultura popular na Idade Moderna, Testemunha Ocular: O uso de imagens como evidência histórica e o Polímata.

É hora do Prefácio e agradecimentos do autor, versados como segue. A ignorância, definida como ausência de conhecimento, pode não soar nem um pouco como um tópico a ser discutido – um amigo inclusive, imaginou que um livro sobre o assunto  não conteria nada além de páginas em branco. No entanto, obriga a pensar,  o assunto vem despertando um interesse crescente, estimulado pelos espetaculares exemplos de ignorância dos presidentes Trump, nos Estados Unidos, e Bolsonaro no Brasil, quando cabia, para não falar de outros governos.

Na verdade, a tarefa multidisciplinar conhecida como “estudos sobre a ignorância” vem ganhando força nos últimos trinta anos, como explicará o capítulo quatro, ainda que historiadores ramente tenham se envolvido com o assunto há até pouco tempo. Parece ser uma boa hora para uma visão geral do papel da ignorância no nosso passado, incluindo a ignorância ativa. De acreditar que seu papel tivesse sido substimado, levando a mal-entendidos, erros de julgamento e outros enganos, muitas vezes com consequências desastrosas. Esse ponto fica particularmente óbvio num momento em que as respostas dos governos às mudanças climáticas são muito poucas e muito tardias, mas, espera-se mostrar tanto os tipos de ignorância quanto os tipos de desastres que dela resultam são muitos variados.

Este livro foi escrito para dois tipos de pessoas. Primeiro, para os leitores em geral. Como cada indivíduo é uma combinação única de conhecimento e ignorância – ou, como é preferível dizer, de conhecimentos e ignorâncias – , o tema é certamente de interesse geral. Em segundo lugar, escreveu-se para outros estudiosos – não apenas os profissionais desta própria área, mas também os de todas as disciplinas nas quais a ignorância é hoje estudada. Espera-se e torce-se para que esta tentativa de apresentar um “quadro geral” do que foi e do que pode ser feito encoraje alguns etudiosos mais jovens a entrar no que ainda não é exatamente um “campo de estudo” – e claro, a criticar, qualificar e refinar estas conclusões provisórias.

Uma futura “história da ignorância” pode vir a ser organizada de forma tradicional como uma narrativa organizada século a século. Tal narrativa dependeria de se identificarem tendências gerais que fossem comuns a diferentes campos. Se este livro incentivar futuros estudos desse tipo, isso trará muita satisfação. Mas, no momento, dada a atual ignorância a respeito da história da ignorância, parece mais realista organizar um estudo geral como uma série de ensaios sobre tópico particulares.

O que se vê adiante se concentra, assim  como próprios estudos anteriores sobre o conhecimento, no Ocidente nos últimos quinhentos anos, apesar de oferecer uma série de exemplos da Ásia e da África. Tal concentração está aberta a críticas por dois motivos opostos: de um lado, por não levar em conta o resto do mundo e os séculos anteriores; de outro, por ir além  doS limites da própria pesquisa sobre a Europa de 1500 a 1800.

Pensa-se persuadir os leitores de que, sendo esse o caso, assim como em muitos conflitos, faz-se necessáio chegar a um meio-termo. A razão pessoal para dizer pouco ou nada sobre períodos anteriores, ou sobre muitas outras partes do globo, é simples: “Ignorância, madame, pura ignorância”, como o  escritor Samuel Johnson cera vez explicou a uma senhora que apontou um erro em um de seus livros. Por outro lado, é de se acreditar piamente que as  comparações e os contrastes entre o começo da Europa moderna e o mundo moderno atual ofereçam insights. Essa crença própria se viu fortalecida pelo exemplo de Françoise Waqu  r, que publicou vários livros sobre o conhecimento, todos concernentes aos últimos quinhentos anos.

A visão de tão extenso período revela que práticas muitas vezes consideradas recentes, tais como vazamento de dados e desinformação, na verdade remontam a séculos atrás. Ela também chama a atenção para mudanças graduais, quase imperceptíveis, naquilo que não era conhecido e que não respeita a divisão  entre períodos chamados de “moderno primitivo” (antes de  1800) e o “moderno tardio”. Cada capítulo deste livro, vai, portanto, discutir exemplos de ambos os lados dessas divisão.

A visão aqui apresentada deveria ser mais bem encarada como um prólogo para uma história futura, um reconhecimento de um terreno no qual muitos espaços ainda estão em branco. A ideia de um mapa do desconhecido pode parecer uma contradição. Mesmo assim, tal como alguns colegas da história e das ciências sociais, acredito que se trate de um projeto viável. Os críticos podem chamar essa tentativa de “prematura”. Mas, responderia que um reconhecimento desse tipo é particularmente útil neste momento de início de interesse pela história da ignorância. Olhando para o futuro, espera-se encorajar e orientar potenciais autores de estudos futuros, oferecendo hipóteses que eles podem por à prova  os encorajando a situar suas pesquisas de um quadro mais amplo. A investigação aprofundada de um especialista e a visão panorâmica de um generalista estimulam uma à outra e dependem uma da outra.

Como no caso própio dos livros anteriores, amigos e colegas foram de grande ajuda, diminuindo a ignorância pessoal a respeito da(s) ignorância(s) por meio de seus conselhos gerais, comentando os rascunhos feitos e sugerindo lacunas a serem  preenchidas e referências a serem seguidas. Calorosos agradecimentos a Richard Drayton, Tim Harris, Julian Hoppit, Joe Dermott, Alan Macfarlane, Juan Maiguashca, David Maxwell, Anne Ploin, James Raven, David Reynolds, Jake Soll, Kajsa Weber, Iro Zoumbopoulos, e Ghil’ad Zukermann. Particularmente grato a Geiffrey Lloyd, por compartilhar sua experiência a respeito da Grécia antiga e da China, e também a dois revisores anônimos por seus comentários construtivos. Agradecimentos especiais também a Cao Yijing, por sugerir a escolha pessoal a ignorância como tema das Palestras Gombrich, originalmente programadas para 2002, mas ainda não entregues; a Lukas Verburgt, colega de trabalho no “campo” da ignorância, por nossas muitas conversas sobe o assunto, bem como por ler toda a primeira versão deste texto; e, mais uma vez, à esposa, Maria Lucia, por suas referências , bem como por seus comentários incisivos sobre a primeira versão.

É advogado (OAB/AM 436). Cursou Direito, Contabilidade, Oratória, Comunicação Social (Jornalismo), Articulista, Lecionou história, Contato: bosco@jackmonthadvogados, ex-funcionário do Banco do Brasil, lotado no Rio de Janeiro, 92948544.

Bosco Jackmonth

* É advogado de empresas (OAB/AM 436). Contato: [email protected]
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