As comunicações de massas na segunda metade do século XX sofriam grandes transformações. A televisão já se impunha como vitoriosa numa nova era: A da imagem, movimentos, voz e gestual que arregimentava espectadores ao contrário do rádio onde as informações somente via audição e voz forçava a imaginação a criar figuras ora risíveis, ora ridículas e muitas vezes quase que deificadas. É nesse contexto de mudanças sociais que João XXIII começava seu pontificado em 1958. Conta-se que uma vez eleito olhou certo dia para o espelho. Viu o corpanzil encimado pelo rosto enorme e redondo, por sua vez desfavorecido por um nariz adunco, as orelhas de abano e disse com resignação: – “Meu Deus, desta forma vou ser uma catástrofe na televisão!” Não percebia que o dom de um semblante plácido, sempre com sorriso afável, atitudes inéditas para um papa (como a de conhecer sempre os problemas de perto, saindo repentinamente da residência papal para desespero dos seguranças, a visitar paróquias, hospitais, creches, presídios e zonas de calamidades e necessitados) o seu perene e bom humor, fizeram de Giuseppe Angelo Roncalli o papa mais querido da História da primeira metade do século vinte. Porque a profundidade de sua fé transpirava no brilho do olhar. Ultrapassava barreiras geográficas e diferenças de credo. Sua sede por diálogo foi a mola propulsora para convocar o Concílio Ecumênico Vaticano II em 1962.
O Ecumenismo foi o método usado para o catolicismo encontrar laços comuns com outras crenças. Curaram-se assim feridas seculares. Abro um parágrafo imprescindível para a explicitação do significado do sínodo: São como as pedras angulares da Igreja porque assinalam as etapas de seu caminhar durante os séculos. Eles influenciam sua vida com a doutrina, com as reformas litúrgicas, disciplinares e com a indicação dos meios mais eficazes para a missão evangelizadora do Cristo. O 1º Concílio Ecumênico Vaticano I foi em 1870 tendo como pontífice Pio IX. Foi marcado pela intransigência, conservadorismo e refratário a flexibilização do “modus attuandi”. Logo num mundo a sofrer mutações principalmente de ordem política onde a democracia iniciava seus passos firmes para o futuro. Já o Concílio Vaticano II do “Bom João” principiava com sua determinação de ser um “concílio pastoral, para abrir as janelas da Igreja para o mundo e nunca erguer barricadas ao seu redor”. Por isso foi o “acontecimento cristão mais revolucionário desde a Reforma.” O ponto alto de suas idéias renovadoras do encontro estava na inclusão de representantes de todas as crenças: Lá estiveram delegações oficiais dos coptas do Egito; ortodoxos sírios, armênios russos do exílio e da União Soviética, anglicanos, luteranos, calvinistas, congregacionistas, “quakers”… Segundo João XXIII, o sínodo deveria ressaltar reformas mais positivas do que punitivas, mais de exortação do que de condenação. Mais de maleabilidade do que caráter autoritário. Em seu “Diário da alma” tinha uma frase emblemática. Era um “slogan” que estava de boca em boca em sua juventude; “Posso quebrar, mas não me dobrarei.”
No livro afirmava a preferência em adotar para si a frase ao contrário: “Posso dobrar-me mas não me quebrarei”. Aí encontrava-se a quintessência para a solução do dilema da Igreja; Adaptação ou Intransigência. Aceitação foi o que fez nos poucos anos de papado. Via-se como pastor de todos os homens para além de todas as fés. Um instrumento de Deus no mundo. Convencia multidões. Inclusive não-católicos. As nações o aceitaram como grande líder e pacificador. Mas sua personalidade imutável nos pontos teológicos que fossem substanciais. E dizia a verdade com doçura. Assim a verdade é muito mais verdade. Simplicidade sempre. E humor simpático desde quando promulgou o seu nome pontifício: “Este nome me é caro porque é o nome de meu pai. Também o nome do padroeiro da igreja em que fui batizado. E também o nome de 22 papas que me antecederam e vejam só quase todos tiveram pontificado curto! Meu nome é João…” (NOVO LIVRO “APARECIDA”)







