Ninguém ama os realistas

Em: 27 de fevereiro de 2025

Um dos causos mais conhecidos do futebol nacional aconteceu na Copa de 1958, na Suécia. Reza a lenda que, durante a preleção que antecedeu a partida contra a poderosa União Soviética, o técnico da seleção brasileira, Vicente Feola, reuniu os jogadores para definir as instruções táticas. O plano de Feola para a vitória era brilhante: o craque Didi passaria a bola para Garrincha, que driblaria dois ou três defensores soviéticos e cruzaria para Vavá marcar o gol.
Ao ouvir o plano tático – insiste a lenda futebolesca –, Mané Garrincha teria perguntado ao técnico: “Tá bom, seu Feola, mas o senhor já combinou isso com os russos?” A ingenuidade fleumática e cética do gênio das pernas tortas reluz com absoluta clareza a mentalidade dos realistas no campo de batalha das ideias sobre o poder.
O modo realista de pensar o mundo parece-me um porto seguro fundamental para quem deseja compreender a dinâmica da ordem internacional, seja em tempos recentes ou em um passado não tão distante assim.
No conjunto, a visão realista do mundo parte do pressuposto de que o sistema internacional é estruturalmente anárquico e hierárquico. Ou seja, não há uma autoridade globalmente legítima e coesa capaz de impor seus termos na edificação de uma ordem entre os Estados nacionais. Assim, cada Estado age internacionalmente de forma autônoma, orientado notadamente pelo interesse nacional e pela lógica da sobrevivência em um mundo incerto e imprevisível.
Do ponto de vista metodológico, os realistas se preocupam sobremaneira com categorias contingentes da política internacional, das quais podemos destacar quatro. Primeiro, buscam explicar o comportamento dos Estados em termos de tomadas de decisões estratégicas, segurança nacional e defesa. Segundo, supervalorizam o poder e sua influência na definição da posição de um Estado na hierarquia internacional. Terceiro, veem os conflitos e alianças como formas essenciais de análise de guerras, disputas territoriais e competições geopolíticas, assumindo que os Estados estão constantemente preocupados com sua segurança e equilíbrio de poder. Quarto, mas não menos importante, acreditam que a ordem internacional liberal – baseada em regras, cooperação e instituições multilaterais – é, na verdade, uma ilusão, pois os Estados frequentemente agem à revelia dessas instituições multilaterais.
Os principais pontos de convergência entre Donald Trump e Vladimir Putin para encerrar a Guerra da Ucrânia giram em torno de interesses estratégicos e de uma abordagem isolacionista por parte dos EUA. Com base em declarações públicas de ambos, é possível identificar algumas áreas de alinhamento na nova parceria. Um ponto fundamental é a negociação direta, sem intermediários ou organizações multilaterais.
Trump e Putin compartilham a visão de que negociações diretas entre líderes podem ser mais eficazes do que longos processos diplomáticos tradicionais. Em uma de suas bravatas, Trump já afirmou que poderia resolver a guerra “em 24 horas” caso reeleito, sugerindo sua disposição para intermediar um acordo com concessões rápidas. Putin, por sua vez, demonstrou interesse em negociar com um governo norte-americano menos alinhado ao regime de Kiev.
A redução do apoio militar dos EUA à Ucrânia é outro fator essencial. Trump é um crítico ferrenho da ajuda militar dos EUA ao governo ucraniano e já indicou que pode reduzir ou cortar o financiamento dentro de algumas semanas. Putin enxerga essa possibilidade como uma oportunidade para forçar a Ucrânia a negociar em desvantagem, dado seu alto grau de dependência do suporte ocidental. Tal estratégia remete ao processo de vietnamização da Guerra do Vietnã, sintetizado na frase: “Vamos declarar vitória e cair fora” (Let’s declare victory and get out).
A garantia de neutralidade da Ucrânia é outro ponto decisivo na redução das tensões. Trump poderia aceitar um acordo em que a Ucrânia se comprometesse a não ingressar na OTAN, algo essencial para Putin. Esse modelo se assemelha à posição da Finlândia antes de 2022, quando mantinha neutralidade para evitar tensões com Moscou.
Possível reconhecimento de conquistas territoriais russas é o ponto mais polêmico. Trump já demonstrou, em outras ocasiões, uma postura mais flexível em relação à Rússia, podendo aceitar a manutenção do controle russo sobre partes da Ucrânia ocupadas, sobretudo a Crimeia e a região do Donbass. Esse ponto seria altamente controverso, mas poderia estar na mesa de negociações, especialmente se Trump buscar uma solução rápida. Em paralelo, haveria a possibilidade de flexibilizar as sanções contra a Rússia, especialmente no setor energético.
Embora um acordo entre Trump e Putin possa acelerar o fim da guerra, os obstáculos políticos e geopolíticos são enormes. A Ucrânia, a União Europeia e setores da política americana resistiriam fortemente a concessões territoriais ou à retirada do apoio militar. No entanto, um eventual segundo mandato de Trump pode criar um novo cenário de negociações, com foco em pragmatismo e afastamento da estratégia de confronto direto dos EUA contra a Rússia.
A aposta realista nos ensina que os russos venceram a guerra; a Rússia voltou a ser uma superpotência; a Europa perdeu capacidade estratégica; os EUA estão em declínio relativo; a China ascende como líder econômico global; e a ordem multipolar já é realidade. Felizmente para o Brasil, Garrincha não combinou com os russos – e vencemos.

*é cientista político

Breno Rodrigo

É cientista político e professor de política internacional do diplô MANAUS. E-mail: [email protected]
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