O Amazonas tem água de sobra. O que falta é abastecimento para quem vive aqui

Em: 26 de setembro de 2026

Poucas contradições brasileiras são tão evidentes quanto a do Amazonas diante da água. Vivemos no centro da maior bacia hidrográfica do planeta, cercados por rios que atravessam cidades, comunidades e territórios inteiros, mas ainda convivemos com famílias que não conseguem ter acesso regular à água tratada dentro de casa. O problema amazonense, portanto, não pode ser explicado pela escassez do recurso. Ele está na incapacidade histórica de transformar uma riqueza natural abundante em serviço público permanente, seguro e compatível com a dimensão do território. É difícil aceitar que, onde a água é parte da própria paisagem, beber água tratada ainda seja uma dificuldade para tantos amazonenses.

Os números ajudam a dimensionar essa distância. O Censo Demográfico 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostrou que 73,2% dos domicílios do Amazonas tinham a rede geral como principal forma de abastecimento de água, percentual inferior à média nacional de 85,5%. Dados mais recentes do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA) também mostram que o Norte permanece abaixo da média brasileira no atendimento por redes de abastecimento. No recorte regional, 62,8% da população era atendida por rede, contra 84,1% no país. A situação se torna ainda mais desigual quando saímos de Manaus e olhamos para os municípios do interior. Levantamentos baseados no Censo mostram que 31 dos 62 municípios amazonenses tinham menos de 70% dos domicílios com água canalizada, enquanto São Gabriel da Cachoeira, São Paulo de Olivença, Tonantins, Atalaia do Norte, Maraã e Santa Isabel do Rio Negro não chegavam a 50%.

Não é possível continuar tratando a geografia como uma desculpa para a falta de soluções. A distância, os rios e as características das comunidades ribeirinhas tornam o desafio maior, mas também exigem que o poder público tenha mais criatividade, planejamento e disposição para investir. O Amazonas precisa de soluções diferentes das adotadas nos grandes centros urbanos do Sul e do Sudeste. Em uma comunidade ribeirinha, uma rede convencional de dezenas ou centenas de quilômetros pode ser inviável. Um sistema simplificado de tratamento, um poço, uma estrutura de captação adequada ou uma solução híbrida podem produzir resultado muito mais rápido e com custo compatível com a realidade local. A própria experiência do Estado demonstra isso. Entre 2021 e 2025, o Projeto Água Boa alcançou 46 comunidades em 15 municípios e beneficiou aproximadamente 24 mil pessoas, mostrando que existem alternativas capazes de funcionar na realidade amazônica.

O que não pode acontecer é transformar essas iniciativas pontuais em justificativa para a falta de uma política de alcance muito maior. O Amazonas precisa discutir uma política de segurança hídrica concebida para a Amazônia, com metas específicas para comunidades rurais, ribeirinhas e indígenas, critérios técnicos para cada realidade e recursos capazes de garantir não apenas a implantação, mas também a operação e a manutenção dos sistemas. Não basta instalar um equipamento e inaugurar uma estrutura. É preciso assegurar que ela continue funcionando quando a equipe responsável deixar a comunidade, quando o rio baixar, quando uma bomba apresentar defeito ou quando a estiagem alterar as condições de captação. O cidadão não pode receber uma solução provisória para um problema que é permanente.

Essa discussão ganhou uma dimensão ainda maior depois das secas extremas enfrentadas pelo Amazonas. Em 2024, durante o período de estiagem, o Estado instalou 41 purificadores e 13 sistemas simplificados de tratamento de água e distribuiu mais de 4,7 mil caixas-d’água em municípios atingidos. São medidas importantes diante de uma emergência, mas a emergência também revelou uma questão estrutural. Quando os rios baixam, as dificuldades de abastecimento se multiplicam e comunidades que dependem diretamente deles ficam ainda mais vulneráveis. Foi diante dessa realidade que o debate chegou novamente ao Congresso Nacional, com cobranças por água potável para comunidades afetadas pela seca e por medidas capazes de enfrentar o problema antes que a crise se instale. Esperar a água faltar para depois procurar uma solução não pode ser planejamento.

O problema também não termina na torneira. Água tratada é saúde pública. É proteção para as crianças. É condição mínima para o funcionamento de uma escola, de uma unidade de saúde e de uma comunidade. Em Anamã, por exemplo, moradores denunciaram em 2026 problemas graves no abastecimento, com relatos de água escura, forte odor metálico e imprópria para o consumo. A situação levou a cobranças por providências junto ao Ministério das Cidades. Quando uma família precisa escolher entre consumir uma água de qualidade duvidosa ou ficar sem água, não estamos diante de uma questão secundária de infraestrutura. Estamos diante de uma falha que atinge diretamente a dignidade das pessoas.

O Brasil costuma olhar para a Amazônia como a região que guarda água para o futuro do planeta. É uma visão que não pode ignorar o presente de quem vive aqui. Antes de discutir como o mundo poderá depender dos recursos hídricos amazônicos nas próximas décadas, precisamos responder a uma pergunta muito mais simples e urgente. Como pode uma família que vive às margens de um dos maiores rios do mundo ainda não ter água potável em casa? O Amazonas não pode continuar sendo conhecido pela abundância de seus rios enquanto parte de sua população enfrenta a escassez de água segura. Temos água. O que falta é garantir que ela chegue a quem vive aqui.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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