O universo, em sua escala macro sistêmica, opera em uma harmonia que beira a perfeição matemática. Das órbitas planetárias aos ciclos biológicos, tudo parece seguir um fluxo de equilíbrio e interdependência. No entanto, como estudiosos de processos, sabemos que a eficiência de qualquer sistema complexo depende da calibração exata entre suas partes. Quando inserimos o elemento humano nessa equação, a previsibilidade cede lugar à complexidade: o que deveria ser sinergia frequentemente se converte em conflito, alimentado por uma busca míope e voraz pela felicidade estritamente individual.
Como administrador e advogado, observo com crescente preocupação que a estratégia de sobrevivência contemporânea se tornou refém de uma cultura de “aconchavos”, mentiras e leviandades. Esse fenômeno não é um evento isolado das esferas de poder; ele infiltra-se capilarmente nos lares, nas escolas, nas associações de classe, nas igrejas e, de forma latente, dentro das nossas organizações. Vivemos uma era em que o “eu” atropela o “nós”, ignorando o princípio básico da gestão: um subsistema que tenta brilhar sozinho, drenando os recursos do entorno para benefício próprio, acaba inevitavelmente por colapsar todo o organismo a que pertence.
A experiência traumática da pandemia de coronavírus deveria ter sido o grande catalisador de uma mudança de rota, forçando-nos a compreender que ninguém se salva sozinho. Contudo, o que vemos no período pós-crise é, muitas vezes, o recrudescimento de um individualismo exagerado. Na Engenharia de Processos, aprendemos que gargalos não resolvidos geram prejuízos em cascata. Na sociedade, o “gargalo ético” produz miséria, fraudes e um desrespeito sistemático aos profissionais e à dignidade humana.
Estamos presenciando a individualidade prevalecer na maioria das tomadas de decisão, criando desastres de difícil correção. Enquanto o interesse privado suplantar o bem coletivo, estaremos condenados a reviver ciclos de crises. O resultado é a transformação do indivíduo em um “robô” social — alguém que executa tarefas e busca o sucesso material de forma automática, desrespeitando tudo e todos na busca de uma felicidade que, quando alcançada, revela-se amarga. Afinal, qual é o valor de uma conquista que não pode ser compartilhada? A felicidade buscada individualmente costuma trazer consigo um isolamento que gera infelicidade com força dobrada e prejuízos emocionais incalculáveis.
Não se trata aqui de uma visão utópica ou romântica, mas de uma gestão estratégica da realidade. Os conflitos são inerentes à convivência humana e, em certa medida, são motores de crescimento pessoal e profissional, desde que administrados com maturidade. O erro de muitos gestores e líderes é criar estratégias já antecipando o conflito como uma arma de manipulação, em vez de desenhá-las para o equilíbrio.
Como articuladores de processos e aplicadores do Direito, temos a obrigação de pautar nossas decisões na razão, sem ignorar a emoção que nos move. Para que o sistema funcione, precisamos de uma “reengenharia” das nossas condutas:
A Substituição da Mentira pela Verdade: O erro assumido e a transparência são os primeiros passos para a melhoria contínua de qualquer processo social ou empresarial.
Articulação Coletiva: As alianças e negociações (as “articulações”) são legítimas e necessárias, desde que o objetivo final seja o benefício do todo. A imoralidade reside no ganho exclusivo à custa do prejuízo alheio.
Responsabilidade Compartilhada: Precisamos nos conscientizar de que somos corresponsáveis pela felicidade e pelo bem-estar de nossos colaboradores, familiares e da comunidade. O sucesso de um gestor é medido pela saúde do ecossistema que ele lidera.
Viver no mundo real exige a coragem de abandonar o conforto das ilusões e enfrentar a frieza humana que o egoísmo produz. O desinteresse pelo próximo não é apenas um desvio moral; é uma falha técnica de convivência que trava o desenvolvimento do nosso Amazonas e do país.
As melhores estratégias são aquelas que reduzem ruídos, eliminam gargalos éticos e criam condições para que a coletividade prospere. Podemos, sim, manter nossas particularidades e sonhos individuais, desde que o custo disso não seja a erosão do bem comum. No tribunal da vida e nas planilhas da administração, a conta do individualismo nunca fecha. A verdadeira excelência só é alcançada quando compreendemos que o nosso sucesso depende, fundamentalmente, da integridade do sistema como um todo.
Vamos refletir sobre isto?
Flávio Guimarães é Mestre em Engenharia de Processos pela UFPA, Advogado, Diretor da Guimarães Consultoria e Treinamento Empresarial Ltda., Administrador de Empresas, Especialista em Empresas Públicas e Privadas, Pós Graduado em Gestão Estratégica de Negócios, Consultor Empresarial, Pós Graduado MBA Gestão e Docência do Ensino Superior, Professor Universitário (Estácio Amazonas), articulista do Jornal do Commercio e da Amazon Play TV digital e Coordenador dos Cursos de Logística, Qualidade, Recursos Humanos, Marketing e do LPG – Laboratório de Práticas em Gestão da Faculdade Estácio Amazonas.
E-mail: [email protected], [email protected]
Jornal do Commercio de 05.05.2026.















