Durante muito tempo, a discussão sobre segurança pública no Amazonas foi tratada como se o problema terminasse nos limites de Manaus. Essa leitura já não corresponde à realidade. O interior do Estado passou a ocupar uma posição estratégica na dinâmica do crime organizado, especialmente pela combinação entre rios, fronteiras, grandes distâncias e a circulação de drogas e armas. Não se trata de levar para os municípios do interior um problema que nasceu na capital, mas de reconhecer que as organizações criminosas enxergam o território amazônico de maneira muito mais ampla do que o poder público historicamente conseguiu enxergá-lo.
Os números ajudam a dimensionar essa mudança sem recorrer a alarmismo. O Anuário da Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM), produzido a partir dos dados do Centro Integrado de Estatística de Segurança Pública, registrou 1.055 homicídios dolosos no Estado em 2024. Desse total, 671 ocorreram em Manaus, o que significa que 384 homicídios foram registrados nos demais municípios amazonenses. No mesmo período, o Estado apreendeu 43,2 toneladas de drogas, maior volume da série histórica apresentada pela Secretaria de Segurança Pública, além de 1.593 armas de fogo. São números que revelam a dimensão do mercado ilegal que atravessa o território e a importância dos municípios que estão fora da capital na estratégia de enfrentamento ao crime organizado.
Há um dado ainda mais revelador. Na classificação das motivações preliminares dos homicídios analisados pela SSP-AM entre 2023 e o primeiro trimestre de 2025, a atividade criminosa aparece como elemento central, principalmente em conflitos relacionados às drogas. Na capital, que representa quase 70% da amostra, disputas entre facções rivais, violação de regras do tráfico e conflitos entre usuários corresponderam a 75% das motivações relacionadas à atividade criminosa. O dado não autoriza generalizar cada homicídio como resultado de uma facção, mas deixa evidente que o tráfico deixou de ser apenas uma questão de apreensão de entorpecentes. Ele produz disputas, estabelece regras próprias e transforma a violência em instrumento de controle.
No interior, essa realidade ganha uma dimensão particularmente perigosa porque o território amazônico oferece condições que favorecem a logística do crime. Os rios são vias essenciais para a população, para a economia e para a integração dos municípios, mas também podem ser explorados por organizações criminosas. É por isso que as Bases Arpão se tornaram uma frente relevante de repressão ao narcotráfico. Segundo a própria SSP-AM, entre 2020 e 2025, as bases fluviais contribuíram para a apreensão de armas, munições e entorpecentes e para a prisão de 300 pessoas envolvidas com a criminalidade, atuando também na proteção das áreas de fronteira.
O ponto central, portanto, não é simplesmente aumentar o número de operações depois que o crime se instala. É impedir que as organizações criminosas consolidem presença territorial. Uma facção que domina uma rota, estabelece uma rede de distribuição, financia atividades ilegais e impõe medo à população deixa de atuar apenas como grupo dedicado ao tráfico de drogas e passa a disputar poder. E quando o Estado demora a ocupar esse espaço, quem ocupa é o crime. Na Amazônia, essa disputa ganha uma característica adicional porque território, rios, fronteiras e recursos naturais fazem parte da própria economia ilegal.
É nesse ponto que a responsabilidade federal precisa ser cobrada. O Amazonas não pode enfrentar sozinho uma criminalidade que atravessa fronteiras estaduais e internacionais. Precisamos de uma política nacional específica para a realidade amazônica, com integração efetiva entre Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Forças Armadas, polícias estaduais, órgãos de inteligência e estruturas de fiscalização. Precisamos também fortalecer a investigação financeira, porque prender o operador que transporta a droga é necessário, mas atingir quem financia, organiza e lucra com a cadeia criminosa é indispensável para desmontá-la.
Isso não significa ignorar os avanços alcançados pelo Amazonas. Ao contrário. A redução dos homicídios precisa ser reconhecida e preservada. O próprio Anuário estadual registra a queda da taxa de homicídios de 29,4 por 100 mil habitantes em 2011 para 24,6 em 2024, enquanto o primeiro trimestre de 2025 chegou a 15,3. Esses resultados mostram que políticas de inteligência, integração e presença policial produzem efeitos. Mas uma redução nos indicadores não pode servir de justificativa para baixar a guarda. Segurança pública não se vence quando os números melhoram durante um período. Vence-se quando o Estado consegue impedir que o crime reorganize suas rotas, seus recursos e sua capacidade de ocupação territorial.
Como cidadão e parlamentar, defendo que o interior precisa deixar de ser visto como retaguarda da segurança pública. O interior do Amazonas é parte da linha de frente. É ali que estão municípios próximos das fronteiras, comunidades ribeirinhas, rotas fluviais e áreas onde a presença permanente do Estado é mais difícil e, justamente por isso, precisa ser mais estratégica. Não podemos esperar que uma facção se estabeleça para depois reagir. O combate ao crime organizado começa antes da tomada do território, com inteligência, presença, investigação, fiscalização e integração entre as instituições.
O Amazonas não pede privilégios. Pede que o Brasil compreenda a dimensão de sua responsabilidade sobre a Amazônia. Se as organizações criminosas já entenderam que nossos rios, fronteiras e municípios fazem parte de uma mesma estratégia, o Estado brasileiro também precisa entender. Não podemos permitir que o mapa do crime organizado avance onde o mapa da presença nacional ainda é insuficiente.







