Onde o Estado não chega, o mérito não floresce

Em: 20 de abril de 2026

O debate educacional brasileiro permanece aprisionado a metas e avaliações enquanto ignora o elemento mais básico de qualquer política pública, a presença efetiva do Estado no território. Em regiões como o interior do Amazonas, essa ausência não é retórica, é concreta, mensurável e cotidiana. Falar em desempenho, nesse contexto, sem enfrentar a precariedade estrutural, não é apenas um erro de diagnóstico, é uma forma de perpetuar desigualdades sob o discurso da meritocracia.

É nesse cenário que se insere Ipixuna, município do interior do Amazonas, localizado a mais de mil quilômetros de Manaus e acessível majoritariamente por via fluvial. A geografia, por si só, já impõe limitações severas, mas o que agrava o quadro é a insuficiência histórica de infraestrutura. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), menos de um terço dos domicílios do município está inserido em áreas com urbanização adequada, indicador que reúne pavimentação, drenagem e organização mínima do espaço urbano, elementos que influenciam diretamente o funcionamento da rede de ensino.

Os reflexos dessa ausência material aparecem com clareza nos indicadores educacionais. Segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), a média nacional do ENEM permanece na faixa dos 500 pontos, enquanto estudantes de municípios com baixa infraestrutura educacional e urbana registram desempenhos significativamente inferiores, frequentemente abaixo de 460 pontos. A diferença não é estatística, é estrutural, e revela um sistema que avalia de forma uniforme realidades profundamente desiguais.

A desigualdade não está apenas no resultado, mas nas condições de partida. Os dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada expõem que a precariedade de infraestrutura educacional está diretamente associada à reprodução de desigualdades sociais no Brasil, sobretudo em regiões periféricas e de difícil acesso, sendo que estudantes em áreas com acesso adequado à infraestrutura chegam a apresentar desempenho até 20% superior em avaliações educacionais. No Amazonas, essa relação se intensifica pela dispersão territorial, pela dificuldade logística e pela ausência de políticas públicas adaptadas às especificidades da região.

O que se observa, portanto, não é uma falha pontual, mas um padrão recorrente. Escolas com dificuldade de manter professores, alunos que enfrentam longas distâncias para estudar, ausência de conectividade e limitações materiais que comprometem o processo de aprendizagem desde a base. Nesse ambiente, o ENEM deixa de ser um instrumento de mobilidade social e passa a funcionar como um mecanismo de reprodução de desigualdades, legitimando diferenças que deveriam ser combatidas.

A resposta a esse quadro não pode ser genérica. Exige ação direcionada, investimento consistente e compromisso político. É nesse ponto que as emendas parlamentares assumem papel estratégico, ao permitir a destinação de recursos para infraestrutura educacional em regiões onde o Estado ainda não conseguiu se estabelecer de forma plena. Não se trata apenas de ampliar orçamento, mas de corrigir distorções históricas que penalizam gerações inteiras.

O Brasil não pode continuar tratando como exceção aquilo que é regra em grande parte do seu território. Enquanto houver estudantes submetidos a condições desiguais, qualquer discurso sobre mérito será incompleto. Educação exige mais do que avaliação, exige presença. E onde o Estado não chega, o mérito não floresce.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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