Os “Ismos” têm distraído e emburrecido o Brasileiro

Em: 25 de agosto de 2025

Na escola, aprendemos que o sufixo “ismo” indica doutrinas, movimentos ou hábitos. Bonito na gramática, mas na política brasileira o “ismo” virou vício e irracionalidade nacional. Com décadas perdidas, estão transformando o Brasil num hospício à céu aberto, onde governos parecem competir para ver quem deixa o povo mais anestesiado, polarizado e distraído. A pergunta é: como não virar cobaia a serviço desse hospício?

Esopo já sabia das armadilhas do poder quando escreveu a fábula do cavalo que chamou o homem para vencer o veado e acabou escravizado pelo próprio aliado. Moral da história, versão Brasil: a maioria vota mal, faz alianças com falsos salvadores e acaba virando gado, tropel no curral eleitoral.

Os governos que deveriam enfrentar os grandes problemas, na prática, colecionam fracassos. Na educação, o Brasil está entre os piores do ranking global de matemática (https://tinyurl.com/2cch79yp). O desempenho no PISA é um vexame diante de países que levam educação a sério como Cingapura, China, Coreia do Sul, Estônia, Finlândia e outros da OCDE (https://tinyurl.com/yc4wmfc8). E para piorar, das 20 metas do PNE de 2014, apenas quatro foram parcialmente cumpridas em 2024.

Em termos de competitividade, a cena é desanimadora. O Brasil caiu do 34º lugar em competitividade global em 1999 para o 62º em 2024 (https://tinyurl.com/2bjyxbhm). Universidades e indústrias seguem sucateadas (https://tinyurl.com/43xpuhbr), funcionando como silos isolados dos governos e de si mesmas (https://tinyurl.com/ea4tvrh2; https://tinyurl.com/54fmy7e2). A inovação, especialmente no PIM, é uma caixa de Pandora: verbas bilionárias de P&D concentradas em poucas mãos, pouca transparência e resultados pífios. O efeito é alta desmotivação dos pesquisadores, fuga de cérebros e baixa performance em C&T&I, como mostra artigo publicado recentemente pelo autor (https://tinyurl.com/y3rfpa87).

Os governantes usam sempre as mesmas armas: medo, inimigos externos, fake-news, temas polêmicos sem relevância, vitimismo, perseguição política, polarizações de conveniência e debates rasos. A cortina de fumaça encobre o fato central: há décadas, ninguém enfrenta os verdadeiros fantasmas nacionais e o que sobra é um desfile de “ismos”, cada um mais performático que o anterior.

Para não ir longe da história brasileira, desde 1985, temos um catálogo de tragicomédias. Sarney, aliado dos militares, prometeu estabilizar a economia, mas entregou o IPCA de 1.972,91% em 1989. O dinheiro virava fumaça e o povo distraía-se com planos milagrosos com simpatizantes brigando entre PMDB e PDS. Depois veio o Collorismo, trazendo um salvador da pátria, versão tupiniquim do marketing político: “caçador de marajás”, privatizações-relâmpago e, claro, o confisco da poupança que evaporou o sonho de milhões. Com polarização entre PRN e PMDB/PT/PFL, o povo aprendeu que “salvador da pátria” também cai por impeachment, principalmente quando o roteiro inclui corrupção no Esquema do PC Farias.

Depois veio Itamar, que apesar do IPCA recordista de 2477,15% em 1993, ganhou fama com o Resgate do Fusca e o Plano Real. O tucanismo de FHC trouxe estabilidade, privatizações e vitrine global. Pena que a vitrine escondia estoque vazio: desemprego, apagão e desigualdade. Já o Lulismo foi aquele “baile” polarizado com os tucanos: remixou hits de FHC para criar o Bolsa Família, em loop como usina de fazer de votos, sem emancipar maioria dos dependentes. No meio do agito, o Mensalão, Lava Jato e Greenfield mostraram um outro ritmo: corrupção com DJs, tocando Triplex, Land Rover, Contas em paraísos fiscais, Malas com dinheiro vivo para criminosos de colarinho branco de vários partidos. O baile insano também teve como atores, fanáticos que acamparam centenas de dias debaixo da janela da cadeia da PF em Curitiba para idolatrar e saldar quem foi condenado com fartas provas.

O Temerismo distraia tolos com um reality de ‘reformas’ para inglês ver, enquanto o desemprego subia, a informalidade crescia e a corrupção se exibia: JBS, áudios de Joesley, o famoso ‘Tem que manter isso aí, viu’ e a mala de R$ 500 mil com Rocha Loures, assessor do chefão, tudo sob os olhos da Polícia Federal em 2017.

Então surgiu o Bolsonarismo, uma tragicomédia nacional digna de Oscar de pior roteiro desde a redemocratização. A polarização com o PT transformou-se em um verdadeiro filme trash: negacionismo como trilha sonora, fakenews como figurantes, ataques sistemáticos ao isolamento social, ao uso de máscaras e à vacinação. O charlatanismo ganhou palco em cadeia nacional, promovendo o uso de cloroquina, ivermectina e outros medicamentos sem eficácia comprovada contra a Covid-19, adotados como “poções milagrosas” mesmo em hospitais. O resultado foi um cenário apocalíptico: milhares de seguidores ignoraram a ciência, adoeceram e morreram, lotando cemitérios, evidenciando o custo mortal da desinformação e idolatria política.

O elenco de apoio não decepcionou: facada duvidosa, milicianos de estimação, funcionários fantasmas, rachadinhas do clã e aliados militares, Queiroz escondido em sítio de advogado, joias contrabandeadas, ministros com currículos falsos ou plagiados, pastores envolvidos em assassinatos e propinas, corrupção na saúde e no MEC com ouro, bíblias superfaturadas e dinheiro vivo em pneus, tudo isso enquanto a Amazônia e o Pantanal ardiam e milhares pagavam com a vida.

A cereja do roteiro: tentativa de golpe com invasão de Brasília, R$ 22 milhões de prejuízos ao contribuinte com plano de executar autoridades, sob o comando do Mito, cujo modus operandi da quadrilha foi oficialmente apontada pelo atual PGR (https://tinyurl.com/2da36v7z).

Para fechar o espetáculo de horrores, políticos e seguidores “patriotas” aplaudem o tarifaço de 50% de Trump, mostrando uma irracionalidade coletiva digna de estudo clínico por Freud, Kraepelin e Jung, caso ainda estivessem entre nós.

Então, eis 5 dicas para não fazer parte desse hospício:1) pesquise o passado dos candidatos, não caia no canto do salvador da pátria, cada um já trouxe seu “ismo” e todos saíram pela porta dos fundos; 2) Evite formar opinião apenas por sites e blogs partidários: eles são especialistas em manipular massa, dados, servem mais a seus líderes do que ao país. Prefira números e documentos oficiais; 3) Desconfie de narrativas fáceis e polêmicas. Até Aristóteles se reviraria no seu túmulo diante de tanto lixo, correntes falsas que circulam em redes sociais. Pergunte sempre: quem ganha com essa narrativa? 4) Valorize a ciência; 5) Dialogue com quem pensa diferente: discordar ainda é a vacina eficaz contra a burrice coletiva.

No fim, a receita é clara: duvide, não idolatre, cobre e exija resultados. Porque não precisamos de mais um “ismo”. Precisamos de boa gestão que priorize e ataque os problemas graves atuando nas principais causas. E isso, convenhamos, ainda não estreou em cartaz no Brasil.

Jonas Gomes

Prof. Dr. Jonas Gomes da Silva - Professor Associado do Dep. de Engenharia de Produção com Pós Doutorado iniciado no ano de 2020 em Inovação pela Escola de Negócios da Universidade de Manchester. E-mail: jgsilva@ufam.edu.br.
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