Silêncio Armado: A escalada da insegurança no coração da Amazônia

Em: 2 de junho de 2025

A violência não chega com anúncio, mas quando se instala, cala a esperança. O Amazonas, de tantas riquezas naturais e culturais, hoje vive sitiado pelo medo. A sensação de insegurança atravessa a capital e avança pelos interiores, num rastro de abandono e omissão. O que se vê não é apenas um colapso operacional. É o reflexo de uma gestão que perdeu o controle do essencial: proteger a vida.

Segundo o Atlas da Violência 2024, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Amazonas ocupa o quarto lugar entre os estados mais violentos do Brasil, com uma taxa de homicídios de 43,5 por 100 mil habitantes. Esse índice está muito acima da média nacional, que é de 22,8. Manaus figura entre as capitais com maior número de homicídios dolosos, superando cidades como Salvador e Rio de Janeiro.

A interiorização do crime aprofunda ainda mais o cenário. Municípios como Coari, Iranduba e Tefé enfrentam taxas superiores a 80 homicídios por 100 mil habitantes. Facções criminosas têm se expandido pelas rotas fluviais com armamento pesado, transformando comunidades ribeirinhas em áreas de alto risco. A ausência do poder público nesses territórios já não representa apenas ineficiência, mas aproxima-se da conivência.

O efetivo da Polícia Militar do Amazonas, hoje com pouco mais de sete mil homens, permanece defasado em relação às exigências de um território com dimensões continentais. A média de policiais por habitante está muito abaixo da recomendação da Organização das Nações Unidas, e essa carência compromete a presença e a eficácia do policiamento ostensivo. Fontes oficiais da própria PMAM confirmam a urgência de reforço estrutural, tecnológico e humano.

O crescimento da criminalidade no estado não é resultado de uma fatalidade amazônica, mas de uma sucessão de falhas estratégicas. A ausência de investimento consistente em inteligência, a fragilidade na prevenção e a descontinuidade de políticas públicas revelam um modelo ultrapassado de gestão da segurança. Dados do Ministério da Justiça mostram que o Amazonas figura entre os estados com menor investimento per capita em segurança pública da Região Norte.

Negar a gravidade dessa realidade é desconsiderar o direito à vida de milhares de amazonenses. A segurança pública precisa voltar a ser prioridade institucional e moral. Não se trata de combater estatísticas, mas de proteger pessoas. Nenhuma política pública será bem-sucedida onde impera o medo, e nenhuma democracia sobrevive onde a violência é regra.

O povo do Amazonas exige mais do que promessas. Exige presença, planejamento e compromisso real com a vida. Esta não é apenas uma crítica. É um posicionamento legítimo de quem foi eleito para fiscalizar, cobrar e construir soluções. Porque onde a segurança falha, o Estado fracassa. E onde o Estado fracassa, a sociedade adoece.

Alberto Neto

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