Um Leviatã Xiita

Em: 13 de abril de 2026

A tradição liberal das Relações Internacionais, o modo elegante de pensar e verbalizar as análises internacionais, incorre em equívocos óbvios quando aplicada à análise concreta de políticas em sociedades não ocidentais. No caso iraniano, esses erros tornam-se particularmente explícitos e ajudam a explicar as restrições críticas das estratégias neoconservadoras empregadas pelos Estados Unidos nas últimas décadas.

O primeiro desses equívocos reside na crença cosmopolita e universalista — a crença fundamental de que valores, instituições e formas de organização política podem ser transplantados de maneira homogênea para diferentes aparatos civilizacionais e geografias. Tal pressuposto ignora as especificidades históricas, culturais e religiosas que moldam a identidade política das nações mundo afora.

O segundo erro atroz diz respeito ao predomínio do econômico sobre o político, da infraestrutura sobre a superestrutura, expresso no economicismo marxista e liberal. A ideia de interdependência, central ao liberalismo, sugere que a intensificação das relações econômicas, comerciais e financeiras tende a mitigar a conflitividade diplomática ou militar e alinhar interesses comuns das nações. Todavia, essa visão subestima o papel do interesse nacional, da securitização e da identidade política como eixos fundamentais da ação estatal.

O terceiro equívoco é a suposição de que a democracia liberal constitui um valor universal e inevitável. Essa perspectiva desconsidera a possibilidade de formas alternativas de organização política que, embora distintas do modelo ocidental, possuem legitimidade interna e capacidade de mobilização social nas mais diferentes clivagens sociais, religiosas e linguísticas.

Essas três premissas, quando pensadas em conjunto, ajudam a compreender as limitações das estratégias norte-americana em relação ao Irã ao longo de décadas. A aposta em bombardeios aéreos e operações de “decapitação” — isto é, a eliminação de lideranças políticas, militares e civis — revelou-se limitada para provocar mudanças no regime que governa o Irã há 47 anos. Tais ações podem até produzir efeitos militares táticos, quando não só midiáticos, mas raramente alcançam resultados estratégicos objetivos.

Mais do que isso, há indícios de que esse tipo de intervenção estrangeira em sociedades de forte identidade nacional tende a gerar o efeito inverso ao desejado: o fortalecimento da coesão interna. Vale dizer, por tanto, que diante de ameaças externas, a população frequentemente se mobiliza em defesa do regime, reinterpretando o conflito como uma luta existencial pela nacionalidade, pela história e pela comunidade religiosa mobilizada.

De fato, o tempo parece correr a favor do Irã. Sua capacidade de resistir à agressão da coalizão americano-israelense não pode ser compreendida apenas em termos forças militares ou manobras diplomáticas, mas, sim, deve ser analisada à luz de dois elementos fundamentais que estruturam o regime desde a Revolução de 1979.

O primeiro é o projeto nacionalista, que amalgama o profundo legado civilizatório persa com uma forte consciência histórico-civilizatória. O segundo é a dimensão religiosa, marcada pela centralidade do islamismo xiita como fundamento da ordem político-social. Essa combinação singular produz uma forma de organização absolutamente sofisticada que transcende a dicotomia agostiniana entre poder temporal (potestas) e poder espiritual (auctoritas) que evoluiu desde o Império Romano no mundo ocidental.

A causa da Revolução Iraniana não foi apenas uma ruptura política no sentido tradicional, mas a construção de uma revolução moral, religiosa e política em um Irã outrora atravessado pelos valores seculares das potências ocidentais. Nela, identidade nacional e confiança religiosa não competem entre si; ao contrário, reforçam-se mutuamente em uma comunidade islâmica.

Essa realidade foi sintetizada de forma emblemática pelo próprio Aiatolá Khomeini, líder da Revolução Islâmica no Irã, ao afirmar que: “Se o Islã não é político, não é nada”. A frase expressa a essência de um regime em que o político e o religioso são indissociáveis — uma característica central para compreender sua durabilidade e capacidade de resistência diante das ameaças estrangeiras.

Desse modo, qualquer análise que ignore essas dimensões estará fadada à superficialidade e a irrelevância. O Irã contemporâneo não é apenas um Estado nacional, mas um verdadeiro Leviatã xiita: uma entidade estatal religiosa, profundamente enraizada em sua história, identidade e cosmovisão, e que desafia, de forma persistente, as categorias analíticas do pensamento liberal ocidental.

O general Sun Tzu, autor do brilhante manual militar e filosófico “A Arte da Guerra”, deixou uma lição fundamental para orientar a conduta dos homens e dos estadistas no trato com os inimigos: “Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece, mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota. Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas…

 

*é cientista político

Breno Rodrigo

É cientista político e professor de política internacional do diplô MANAUS. E-mail: [email protected]
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