“Aqui já é lá!” É assim que a professora Thaini Alves incentiva seus estudantes a valorizarem seus territórios e reconhecerem suas potencialidades. Na educação ribeirinha, ela busca mostrar aos jovens indígenas e ribeirinhos que é possível construir o futuro sem renunciar às próprias origens. Conheça a trajetória dessa educadora que transforma desafios em oportunidades por meio da educação.
- Quem é você? Apresente-se para as nossas leitoras e leitores!
Meu nome é Thaini Maiara Pereira Alves, tenho 32 anos e sou natural de Alta Floresta D’Oeste, no interior de Rondônia. Fui criada pela minha bisavó, a pessoa que mais amei no mundo, e pela minha avó, meu maior exemplo de força e resiliência. Aos 16 anos, vim passar férias em Manaus e decidi permanecer na cidade para continuar meus estudos, diante das dificuldades de acesso ao ensino superior em minha terra natal. Concluí o Ensino Médio na capital, ingressei na Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e iniciei minha trajetória profissional como professora ribeirinha, após aprovação em concurso público. Sou licenciada em Geografia, mestre em Ensino de Geografia pela Universidade de Brasília (UnB) e doutoranda pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Atualmente, atuo como formadora de Geografia na Secretaria Municipal de Educação de Manaus. Para além da profissão, sou esposa, filha, irmã, amiga, gosto de festejar e experimentar coisas novas. Tenho orgulho de ser professora, mas acredito que somos muito maiores do que os títulos e as funções que exercemos.
- Quando a sala de aula passou a fazer parte da sua vida? Quais lembranças mais marcantes desse início ainda acompanham você?
Minha relação com a sala de aula começou muito antes de me tornar professora. Cresci em uma cidade pequena, onde a escola ocupava um lugar central na comunidade. Durante a infância, enfrentei situações de bullying por ser uma criança crespa, experiências que marcaram minha maneira de compreender as relações humanas. Já o início da docência aconteceu durante o estágio da graduação, quando assumi sozinha uma turma na Escola Estadual Vicente Schettini. Preparei aquela aula durante semanas e passei a noite anterior ensaiando. Ao final, os estudantes aplaudiram e correram para me abraçar. Chorei de emoção e saí da escola com a certeza de que havia escolhido o caminho certo. Mais tarde, o trabalho nas escolas ribeirinhas do Amazonas trouxe novos desafios. Encontrei estudantes que chegavam ao nono ano sem nunca terem tido aulas de Geografia, além de dificuldades de infraestrutura e acesso à internet. Essa realidade transformou minha prática pedagógica e me ensinou que o ensino precisa dialogar com as experiências e necessidades dos estudantes.
- Olhando para trás, qual foi a mudança mais profunda que você percebeu na educação ao longo de sua trajetória?
A mudança mais profunda que percebi foi a necessidade de aproximar o conhecimento escolar da realidade dos estudantes. Minha experiência nas escolas ribeirinhas mostrou que o currículo, quando distante das vivências dos alunos, pode perder seu significado. Diante disso, passei a desenvolver propostas pedagógicas que relacionassem os conteúdos de Geografia ao cotidiano das comunidades. Essa experiência também orientou minha pesquisa de mestrado profissional na Universidade de Brasília, voltada ao ensino de componentes físico-naturais para estudantes ribeirinhos do Rio Amazonas. Acredito que a educação contemporânea exige mais do que a transmissão de conteúdos: precisamos desenvolver metodologias que estimulem a reflexão, a participação e a resolução de problemas reais. Os estudantes possuem diferentes formas de interpretar o mundo e enfrentam desafios relacionados à informação, à desinformação e às transformações sociais. Por isso, considero fundamental repensar nossas práticas e construir uma educação que valorize os conhecimentos dos alunos e os ajude a compreender e transformar a realidade em que vivem.
- Que horizontes você ainda deseja alcançar na educação? Há algum sonho ou projeto que guarda consigo e gostaria de realizar?
Meu principal sonho é ampliar as oportunidades para que os estudantes, especialmente ribeirinhos e indígenas, reconheçam as potencialidades de seus territórios e assumam o protagonismo de suas próprias histórias. Essa perspectiva orienta o Observatório da Estiagem, projeto que coordeno desde 2025 na Escola Municipal São João, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Tupé. A iniciativa reúne estudantes no monitoramento da seca do Rio Negro, articulando conhecimentos tradicionais e recursos científicos acessíveis. Em 2026, o projeto conquistou o primeiro lugar nacional e estadual no Prêmio Educador Transformador, na categoria Inclusão e Sustentabilidade na Educação. Esse reconhecimento fortalece meu desejo de ampliar a iniciativa e demonstrar que a Ciência também pode ser produzida nas comunidades. Quero contribuir para que os jovens encontrem na educação ferramentas para compreender seus territórios, enfrentar problemas locais e construir oportunidades sem precisar renunciar às próprias origens. Acredito que a escola deve ajudar cada estudante a perceber que seu lugar de origem também pode ser um espaço de realização profissional, conhecimento e transformação social.
- Deixe uma mensagem de inspiração aos colegas professores e a todos aqueles que leem sua história!
Aos colegas professores, deixo uma mensagem de valorização e esperança. Muitas vezes, desenvolvemos práticas pedagógicas capazes de transformar vidas, mas consideramos nossos trabalhos simples e deixamos de registrar e compartilhar essas experiências. Precisamos reconhecer nossas conquistas, divulgar nossas iniciativas e mostrar à sociedade a qualidade da educação produzida em Manaus e no Amazonas. Valorizem suas experiências, compartilhem seus conhecimentos e continuem construindo uma educação comprometida com a aprendizagem, a autonomia e a transformação social.







