Jornal do Commercio – Dos candidatos a vice-presidente da república e vice-governador do Amazonas, quais, em âmbito nacional e estadual, fazem mais diferença e pendem a balança em favor do cabeça de chapa na sua opinião?
Durango Duarte – Geralmente, os vices não fazem parte da equação que está relacionada a voto. Na maioria dos casos eles entram por uma composição de forças políticas, que permite uma aliança mais agressiva.
O Michel Temer, que compõe a candidatura da Dilma, não é um vice de voto, mas é o cara do PMDB, um dos três maiores partidos do país que tem um grande tempo de televisão e um arco de aliados no Brasil muito grande.
O vice do Serra também não representa absolutamente nada do ponto de vista eleitoral, porque o Índio da Costa não tem referência. Ele entra mais como uma composição do DEM, o partido que faz parte da aliança do PSDB na sessão de tempo para o Serra.
O vice da Marina não tem um voto, mas é presidente de uma empresa internacional e tem grande referência no mundo empresarial. O papel dele tem sido de agregador de aporte financeiro, ajudando a captar recursos para a campanha da Marina, e, não, propriamente, voto.
Para governo de estado, das seis candidaturas somente duas tem se mostrado forte e, consequentemente, possuem vices representativos. A do senador Alfredo Nascimento, cujo vice é o Serafim Correa, uma pessoa conhecida e de referência, que entrou na chapa com o objetivo de alavancar a candidatura do Alfredo com transferência de votos, apesar deste efeito ter sido quase nulo. O que não significa dizer q ele não está ajudando na candidatura de outras maneiras, na articulação, no dia-a-dia da campanha, ou qualquer outra missão.
Do mesmo jeito a candidatura de José Melo não agrega voto. Ele é um vice mais de grupo, um homem de confiança do governador Eduardo Braga, hoje candidato ao senado. Eleitoralmente, os votos que ele poderia ter, já pertenciam ao Omar ou ao Eduardo, e não alterariam o resultado da eleição.
Afrânio Soares – Para Manaus, Serafim (PSB) é importante. Se a estratégia for para conquistar votos em Manaus acho que é uma estratégia correta. O vice do Alfredo Nascimento (PR) tem um número de eleitores tradicional em Manaus e tem poucos no interior do estado O problema é trabalhar esses votos. Ele vai conseguir trazer o percentual da capital para o titular? Quantos gostam dele, mas não gostam do Alfredo e por isso não vão voltar mesmo eles estando juntos. Se Serafim conseguir trazer um número significativo, ele equilibra a eleição. No caso do candidato Omar Aziz (PMN), o vice, José Melo (PMDB), teve uma atuação no interior do estado muito forte na gestão do governador Eduardo Braga, então provavelmente, a intenção é que Melo leve o nome de Omar como realizador das coisas que Eduardo Braga fez. O que pode dar errado na estratégia de Melo é que as autoridades, no qual ele considera como sendo seguras e fieis, façam jogo duplo. A nível nacional, Michel Temer tem um peso por ser conhecido, mas esbarra na mesma questão de Serafim. Será que quem gosta do Temer, da postura de uma pessoa sóbria, que consegue lidar com as situações, vai trazer votos para a Dilma, de quem? Das elites, da sociedade de maior poder aquisitivo ou não? Em termos nacionais ele é o mais conhecido e talvez o único que esteja na posição de articulador.
JC – Então o vice não dá voto?
Durango – Nessa eleição, pelo menos, não vai alterar em nada. É só por composições políticas, para ajudar no tempo de televisão, você não compõe uma aliança só pra ganhar voto. Em 2010, em particular, os vices têm um papel bem menor. Mas é da natureza comum do cargo, não é nenhuma grande surpresa.
Afrânio – O papel do vice não é de atrair um número significativo de votos. Quem tem que fazer isso é o candidato majoritário. Nunca vi um caso de um vice atrair mais votos que o candidato titular. Se o titular não consegue atrair os votos, não será o vice que fará. Na última eleição para prefeito, o candidato Amazonino conseguiu apenas 3% dos eleitores do vice, Carlos Souza. Amazonino sozinho já tinha 43%, aí subiu para 46%. Não foi um número expressivo como Amazonino queria na época.
JC – O fato do candidato à vice do Alfredo Nascimento ter sido ex-prefeito de Manaus, ajuda ou não o candidato?
Durango – Eu acredito que se o Serafim não fosse o vice do Alfredo, o candidato a governador não estaria numa situação nem melhor e nem pior na eleição. Os vices estão ajudando, com certeza, mas não interferem no resultado final.
Afrânio – Eu imagino que Alfredo esteja tentando trazer uma parte dos eleitores do Serafim, que não eram dele, através da figura do vice fazendo campanha. Se ele [Serafim] trouxer 10% dos eleitores dele, equilibra fortemente esse jogo.
JC – Quais os critérios para que um candidato a vice realmente fortaleça uma candidatura?
Durango – É muito subjetivo. Eu diria que o melhor critério é a moderação. Capacidade de não se expor, de não criar prejuízo a campanha. Ele pode não transferir um voto, mas se não trouxer nenhuma polêmica, nenhum escândalo, nenhuma dificuldade para o candidato, já é um grande vice.
Afrânio – O candidato a vice não é evidenciado na campanha de forma alguma. Ele nem pode ser, porque assim ele vai apagar bastante o candidato titular. O vice tem que ser um hábil articulador. Tem que ser alguém com uma penetração em algum dos cúbicos que interessam a coligação do candidato a titular.
JC – E a escolha do vice de Marina Silva, o empresário Guilherme leal, foi sensata?
Durango – O que cabia a ela naquele momento era essa opção, para dar uma percepção de que a chapa não é frágil. O vice da Marina é muito próximo do que o José Alencar é para o Lula (próximo, não igual). Quando o Alencar, dono de grandes empresas no Estado de Minas Gerais, ficou como vice do Lula, mostrou aos empresários que no seu governo não haveria prejuízos ao setor produtivo brasileiro. É o que acontece na campanha da Marina. Mesmo com algumas fragilidades, ao ter um empresário de grande porte como vice, permite com que os eleitores do mundo empresarial tenham confiança nos projetos alternativos que ela apresenta ao país e vejam o vice como alguém que pode dar grandes contribuições. Para Marina foi um bom nome tê-lo como vice, foi um ganho.
Afrânio – Marina (PV) colocou alguém que está apoiando a campanha. Talvez, isso eu não posso garantir, seja uma condição do partido, colocar uma pessoa no cargo de vice que representa os interesses de um grupo. Entre isso e acreditar que isso pode ajudar, é mais fácil atrapalhar. Durante a campanha, o discurso dela pode ser combatido por alguma coisa que o vice tenha tido ou tenha feito em algum momento. A figura de Guilherme Leal como vice também representa a idéia de que ela não é contra os empresários.
JC – Você é a favor do debate entre os vices?
Durango – Não, acho que não contribui em absolutamente nada. Eu já sou contra os debates que são feitos aqui no Brasil. Não que eu seja contra ter debates, mas sim contra o formato deles, onde candidatos que não tem nem 1000 votos sentam em igualdade de condições com candidatos que vão ter 800, 900 mil. E de jeito nenhum eu estou censurando o direto das minorias. O que eu não posso admitir pela condição desta minoria é um partido que não tem representatividade na Câmara, nem na Assembléia, nem no Senado, que não tem nenhuma representatividade na sociedade e tem o direito de estar ali de igual para igual. Debate para vice com este critério não muda em nada a eleição.
Afrânio – Eu gostaria de ver esse tipo de debate. Seria bom. Mas acho que o principal é o debate entre os candidatos. Você vai votar, na verdade, é no candidato. O vice é eleito só por associação. Eu acho que se isso acontecesse seria mais para ouvir o papel do vice, mas não faria uma diferença enorme. A população continuaria querendo o debate entre os titulares.







