Yehuda Hochmann não se considera um especialista, mas sua grade curricular é de tirar o fôlego. Ele nasceu em Israel, passou parte da infância na Argentina e a adolescência no Brasil onde estudou na Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, em 1963, mas não conseguiu colar grau porque parte da turma de formandos em jornalismo indicou o então prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Carlos Lacerda para patrono, e a outra parte da turma não aceitou, não houve formatura naquele ano. Em 1964 ele deixa o Brasil ao ser informado por amigos do golpe militar que seria deflagrado no país, e fixou residência em Israel, 30 anos depois retornou ao Brasil, sob a proteção da Lei da Anistia Política.
Yehuda Hochmann é formado em jornalismo e MBA pela Bar Ilan de Israel; técnico em turismo pelo Estado de Israel; Phd. em Estudos Bíblicos pela Columbia University dos EUA; prestou serviço militar no Exército de Israel na Tropa de Reconhecimento de Paraquedista; Blindados e Artilharia; chegou ao posto de oficial de ligação com as Nações Unidas; carreirista durante oito anos na Polícia de Fronteira conquistou a patente final de Tenente Coronel da reserva em reconhecimento à sua atuação na tropa anti terrorismo em Israel. Atualmente é professor na Universidade Hebraica de Israel e roda o mundo ministrando palestras com o tema Oriente Médio: Terrorismo islâmico internacional e nacional, meio de contenção e prevenção. Saiba mais sobre o correspondente do Jornal do Commercio em Israel:
Jornal do Commercio – Sobre a segurança da Copa do Mundo de 2014, já foram investidos cerca de dois bilhões de reais, como um estrategista militar analisa este investimento destinado a um evento esportivo?
Yehuda Hochmann – Foram gastos R$ 1,9 bilhão só em segurança de um orçamento total de R$ 25 bilhões, sendo que é o dobro do que foi gasto na Copa da África do Sul. Serão doze sedes e as principais serão São Paulo e Rio de Janeiro, mas vamos pegar Manaus como exemplo, que vai sediar os jogos das oitavas de final, significa que vai sediar apenas a primeira fase onde vai ter uma população de torcedores muito pequena.
JC – E como se equalizar esta situação já com a proximidade da Copa em menos de um ano da abertura dos jogos no Brasil?
YH – Em Manaus as entradas não vão cobrir os gastos e quem vai pagar os investimentos quando acabar o evento? Então aí se constrói um elefante branco para sediar dois ou três jogos e depois ficam sem utilidade, e todos eles vão perder dinheiro, não só Manaus, os demais estádios da Copa também. Agora, se em um desses jogos periféricos vai ter uma seleção americana, inglesa ou francesa poderá ter o risco de terrorismo, que é muito mais fácil fazer terrorismo no Brasil porque o sistema de segurança no país está falido.
JC – Então o senhor considera este evento de risco?
YH – Todo evento onde se reúne a massa é de risco. No Brasil não há informações centralizadas quanto à segurança. Falta uma rede centralizada de inteligência para coibir ações terroristas que já foram identificados, como grupos ligados ao Hamas e o Hezbollah em São Paulo. Então, é necessário a prevenção de um lado e a tropa preparada por outro lado, com um sistema centralizado de informações de segurança nacional.
JC – E no atual cenário político onde se discute os investimentos da Copa e do legado que vai ficar para a população?
YH – Não vai ter legado nenhum, vai ficar um grande buraco para se consertar. O Senado vai discutir a questão de reduzir o transporte em 15%. Sim é ótimo, mas se podem reduzir, porque não fizeram antes? Esse dinheiro agora vai entrar por outro lado e poderia ter entrado para as prefeituras em São Paulo, com essa redução poderia se construir 100 mil casas populares e agora precisa tirar dinheiro de outro lugar. E as manifestações das ruas quando não há uma liderança centralizada não existe um líder carismático para negociar o que significa que não vai aparecer.
JC – Com a sua experiência em participar de manifestações populares, depois de estudar o assunto e hoje em dia palestrar sobre esses movimentos organizados pelas massas que se multiplicam pelo mundo, como o Brasil está sendo visto por quem estar do outro lado das nossas fronteiras?
YH – Infelizmente eu acho que essas manifestações aqui não vão dar em nada, caso a população não se organize para eleger um mentor, um líder que leve as pautas para negociação permanente e que combata insistentemente o mal maior que corrompeu a política do Brasil e se alastrou para outros segmentos, como da economia, saúde e educação, e fez com que o país viva num estado de embriaguez. Eu vejo o Brasil como um país entorpecido, de tanta corrupção. Agora, a solução está na recuperação da educação e da saúde política, com doses permanentes de combate à corrupção.
JC – Essa onda de manifestações no Brasil tem algum tipo de relação com a Primavera Árabe?
YH – Primeiro que lá não existe uma Primavera Árabe, o nome foi copiado da Primavera de Praga por alguns jornalistas que achavam que era a mesma coisa e ali não tem Primavera nenhuma. Não há um contexto de Primavera num país com um índice de 40% a 50% de analfabetismo, isso não é uma Primavera. As massas saíram às ruas cansadas da ditadura, da opressão e da pobreza. Mas, não há nenhuma Primavera nem na Tunísia, nem na Líbia que está em pandarecos e não é um país central. O Egito está normalmente na rua, o Islã porque é mais organizado pegou o poder. E o Iraque onde tem três atentados por dia, é uma democracia? Então não existe Primavera. Beirute já começou e a Síria também, então não é uma Primavera. E no Brasil, não há um movimento popular coeso, existe um movimento de descontentamento popular espalhado pelo país, não vai levar a nada porque não há uma pauta de reivindicações que seja verdadeiramente marcante para mudar o estado de coisas em que se encontra o país que não seja a corrupção.
JC – A religião islâmica já está bem difundida na Ásia, Europa e nos Estados Unidos. E na América do Sul mais especificamente no Brasil como está a ascensão do Islã?
YH – Para se ter uma ideia a maior mesquita islâmica da América do Sul está em São Paulo, hoje já se acha mesquitas e em todos os países da América do Sul, da República Dominicana ao Chile, em qualquer lugar do mundo.
JC – Qual a motivação para essa crescente aceitação do Islamismo em países capitalistas?
YH – O Islã é um grande sucesso entre as massas pobres, porque vocês estão sendo oprimidos pelo capitalismo, nós somos a resposta para o capitalismo. O Islã que se levanta contra os Estados Unidos. Não os partidos socialistas que nunca fizeram nada, nós do Islã é que estamos enfrentando os Estados Unidos, é o discurso deles.
JC – E a principal meta do Islã?
YH – O Islã está escrito no Alcorão, está definido no livro sagrado como conquistar o mundo pela guerra religiosa. Ou se converte pela paz ou pela força da espada, é o princípio básico do Islã. E há uma militância e o Islã está ganhando a Europa pela demografia, um exemplo na França onde há três gerações islâmicas se multiplicando, o mesmo acontece na Inglaterra. A Suécia recebeu duzentos mil imigrantes do Iraque, Estocolmo, a capital da Suécia, já é 20% mulçumana e Malmö a segunda maior cidade sueca 30% são mulçumanos.
JC – E sobre usar de violência e vandalismo durante as manifestações, como um estrategista antiterrorismo analisa?
YH – Existem pequenos grupos que se infiltram e promovem a violência e que já foram identificados em várias cidades do Brasil. Eu acredito que o grande peso moral é o fato de não se fazer violência, não partir para atos que gerem violência. Na hora que os manifestantes passam a agir com violência se perde os direitos morais. As manifestações que nós participávamos na juventude não tinha violência, nós enfrentávamos a polícia sim, mas fazer vandalismo contra o patrimônio público não, jamais saímos queimando ou depredando veículos ou o que quer que seja.
JC – Qual a sua avaliação e mensagem para a população brasileira tendo em vista as manifestações populares pacíficas que se propagam pelo país?
YH – O conceito é muito básico: O Brasil deve continuar com manifestações pacíficas a nível nacional para forçar o Governo a tomar decisões e ações. A prova é que o Governo escuta, a partir do momento em que a massa gritou, chamou a atenção e está sendo ouvida, mas se parar de gritar o Governo também para. Esperar pelo incentivo do Governo para mudar as coisas é inútil. A grande vitória moral dos manifestantes está no fato de manter a paz, do contrário ele perde a batalha.






