A logística de transporte sempre foi um entrave para o escoamento da produção do Polo Industrial de Manaus (PIM), que, segundo consultores econômicos e estudiosos do modelo ZFM, vem afugentando novos investimentos no Amazonas. Se antes a situação da ZFM era muito delicada por causa de melhores condições de transporte que atendam às necessidades das indústrias instaladas no Amazonas, o problema tende mesmo a se agravar mais ainda no governo da presidente Dilma Rousseff (PT), na visão do ex-prefeito de Manaus Serafim Correa, hoje presidente regional do PSB, que segundo especulações de lideranças políticas locais está cotado para assumir a presidência nacional do partido. Em entrevista exclusiva ao Jornal do Commercio, Serafim Correa traça um cenário sombrio para a ZFM, faz uma análise conjuntural do modelo de desenvolvimento econômico e sentencia que os novos investimentos tendem cada vez mais a buscar novos mercados em função dos problemas de logística no Estado
Jornal do Commercio – Por que existe esse problema crônico de logística na ZFM? O governo nunca se preocupou com essa situação?
Serafim Correa – Na realidade, o problema é estrutural e tem como origem principal o governo federal. De nada adianta o governo estadual e a própria Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus) se mobilizarem para resolver o problema se não forem liberados investimentos federais em infraestrutura logística de transporte para o Amazonas.
JC – Então, a culpa não é da Suframa?
Serafim – Claro, obviamente, que não. A Suframa está muito bem, tem correspondido às suas funções como gestora do modelo, mas não pode fazer nada sozinha. O problema mesmo é a presidente Dilma que, com sua política desastrosa e falta de habilidade com as lideranças políticas, vem prejudicando a Zona Franca de Manaus.
JC – Então, o que se pode fazer?
Serafim – Falta uma liderança do Amazonas que realmente tenha manejo, preparo, habilidade, para se articular no Congresso Nacional. Por exemplo, na questão dos tablets, soube-se antecipadamente que os chineses decidiram produzir o Ipad da Appel em São Paulo por ocasião da viagem da presidente Dilma à China e, posteriormente, ao Japão. O motivo alegado foi a precária logística do PIM. Na época, não se ouviu um sequer discurso de nossa bancada federal em Brasília alertando que o direcionamento dos investimentos da China para São Paulo seria prejudicial à ZFM.
JC – Para a ZFM montar uma infraestrutura de transporte à altura das necessidades das indústrias, qual seria o volume de recursos necessários?
Serafim – Seriam necessários, no mínimo, R$ 5 bilhões, isso só para atender inicialmente à demanda das indústrias instaladas. O problema é muito grave e atinge praticamente todos os setores, não só a indústria. Por exemplo, estamos a poucos anos da Copa do Mundo e até hoje não se tem nada palpável para melhorar a mobilidade em Manaus.
JC – Em relação aos tablets, o senhor criticou o posicionamento das lideranças políticas do Amazonas no Congresso que comemoraram com alarde a vitória do Estado sobre a votação da MP 534 que foi aprovada na Câmara dos Deputados. Então, o resultado não beneficia a região?
Serafim – Obviamente, que não. Na realidade, perdemos tudo. Pela MP dos Tablets, as empresas que produzirem o computador fora de Manaus terão isenção total de IR, pagarão somente 3% de IPI e receberão alíquota zero de PIS/Cofins. Em relação a Manaus, a vantagem será apenas de 0,65% para o empresário em comparação com as demais regiões do País. Então, como as empresas serão incentivadas a fabricar o produto aqui na região, que enfrenta graves problemas de logística de transporte?
JC – E sempre foi assim…?
Serafim – Não. Antes da MP, se uma empresa quisesse produzir os tablets fora do Amazonas, pagaria 15% de IPI e 9,25% de PIS/Cofins. Somados, os dois impostos chegariam a um índice de 24,5% em relação ao preço do produto na fábrica. Ao contrário, se a empresa estivesse instalada em Manaus não pagaria os 15% de IPI e só recolheria 3,65% de PIS/Cofins. Somando-se os 15% e 9,25% e diminuindo-se destes os 3,65%, a vantagem para a empresa que viesse para a ZFM era de 20,65%. Depois da MP, essa vantagem caiu para 0,65%.
JC – Por ocasião da aprovação da MP 534 na Câmara, o senador Eduardo Braga, que será o relator da MP dos Tablets no Senado, se disse satisfeito com o resultado da votação no Senado. Para ele, o Amazonas ficará mais competitivo com as restrições de área de tela de 140cm2 e 160cm2 na produção dos tablets?
Serafim – Sinceramente, não vejo vantagens nessas restrições, como alega o senador. Primeiro, porque os tablets tendem a ficar cada vez menores porque são produzidos para serem levados na mão. E, segundo, porque, com essa tendência, nenhuma empresa vai querer fabricar a geringonça de um tablet com tela de 160cm2.
JC – O sr. traça um cenário sombrio para o desfecho da votação da MP 534 no Senado, mesmo tendo um senador amazonense como relator da matéria. Por quê?
Serafim – É questão pura e simples de matemática. No Senado, existem 81 senadores e, destes, somente três são do Amazonas. E só um realmente está decidido (não vou revelar o nome) a votar pela aprovação da medida. Não vejo perspectiva de outro desfecho: o Amazonas sairá, com certeza, derrotado no Senado. Mais uma vez.
JC – Então, mesmo com a desvantagem numérica do Amazonas, como a MP passou pela Câmara?
Serafim – Não sei. É melhor perguntar pra eles (os deputados)…
JC – Existe especulação de o que sr. está cotado para assumir a presidência nacional do PSB. As informações procedem?
Serafim – Por enquanto, não passam de especulações do meio político. Continuo mesmo é como presidente regional do partido.
JC – E as eleições do próximo ano…O sr. sairá mesmo candidato a prefeito de Manaus?
Serafim – Certamente que sim, mais prefiro falar sobre esse assunto em outra oportunidade, de preferência quando estivermos mais próximos das eleições municipais de 2012.







